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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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- Sim, acho que vamos ter companhia - disse. - Estou surpreso que Lorde St. Simon não tenha chegado ainda. Ah! Acho que estou ouvindo seus passos na escada.

Era realmente nosso visitante da manhã que entrou apressadamente, balançando o cordão do pincenê mais vigorosamente que nunca, e com um ar muito perturbado nas feições aristocráticas.

- Meu mensageiro o encontrou, então? - perguntou Holmes.

- Sim, e devo confessar que o conteúdo muito me espantou. Está seguro do que disse?

- Absolutamente.

Lorde St. Simon caiu em uma cadeira e passou a mão pela testa.

- O que dirá o Duque - murmurou - quando souber que um membro da família sofreu tal humilhação?

- Foi mero acidente. Não concordo que haja havido nenhuma humilhação.

- Ah, olha essas coisas de outro ponto de vista.

- Não vejo como ninguém seja culpado. Não posso imaginar como a moça poderia ter agido de outra forma, embora seja lastimável que tenha usado métodos tão abruptos. Mas como não tem mãe, não havia ninguém para aconselhá-la nessa crise.

- Foi uma ofensa, senhor, uma ofensa pública - disse St. Simon, batendo com os dedos na mesa.

- Deve ser tolerante com essa pobre moça, colocada em situação tão difícil.

- Não serei tolerante. Estou muito zangado, realmente, e fui vergonhosamente usado.

- Acho que ouvi a campainha - disse Holmes. - É, ouço passos na entrada. Se não posso persuadi-lo a ser leniente nesse assunto, Lorde St. Simon, trouxe aqui um defensor que talvez seja mais bem-sucedido. - Abriu a porta e fez entrar uma dama e um cavalheiro. - Lorde St. Simon - disse - permita-me apresentar-lhe o Sr. e a Sra. Francis Hay Moulton. A senhora, acho eu, o senhor já conhece.

À vista dos recém-chegados nosso cliente ficara de pé, muito empertigado, com os olhos baixos e uma das mãos enfiadas no peito da sobrecasaca, a verdadeira imagem da dignidade ofendida. A senhora dera um passo em sua direção e estendera a mão, mas ele continuara de olhos baixos. Tanto melhor para ele, talvez, pois o rosto suplicante dela era difícil de resistir.

- Você está zangado, Robert: - ela disse. - Bem, acho que tem toda a razão.

- Tenha a bondade de não pedir desculpas a mim - disse Lorde St. Simon amargamente.

- Ah, sim, sei que o tratei muito mal, e devia ter falado com você antes de partir. Mas estava muito perturbada e desde que vi Frank não sabia o que estava fazendo ou dizendo. Foi um milagre que não caísse no chão desmaiada lá mesmo em frente ao altar.

- Talvez, Sra. Moulton, preferisse que meu amigo e eu saíssemos da sala enquanto explica tudo?

- Se é que posso dar minha opinião, - disse o cavalheiro desconhecido - já têm havido segredos demais nesse negócio. Por mim, gostaria que toda a Europa e a América ouvissem tudo. - Era um homem pequeno, musculoso, queimado do sol, com feições agudas e uma maneira alerta.

- Então contarei nossa história agora mesmo - disse a senhora. - Este aqui é o Frank e nos encontramos em 1881, na mina de McQuire, perto das Montanhas Rochosas, onde o Pai estava trabalhando nas terras de mineração que arrendara. Frank e eu ficamos noivos, mas um dia o Pai encontrou um veio muito bom e ficou rico, enquanto que o pobre Frank tinha uma concessão que não deu em nada. Quanto mais rico o Pai ficava, mais pobre ficava o Frank. Finalmente o Pai não quis mais ouvir falar de nosso noivado e me levou embora para São Francisco. Frank não desistiu, entretanto, e me seguiu até lá, e nós nos víamos sem meu pai saber de nada. Ficaria muito zangado se soubesse, então nos escondíamos dele. Frank disse que iria embora fazer sua fortuna e não voltaria para me buscar enquanto não tivesse tanto dinheiro quanto meu pai. Então prometi que esperaria por ele para sempre e que não me casaria com ninguém mais enquanto ele vivesse. "Então por que não nos casamos agora mesmo", ele disse, "e aí ficarei noivo de você. E direi que sou seu marido enquanto não voltar para buscá-la". Bem, conversamos um pouco e ele tinha, arrumado tudo tão direitinho, com o sacerdote pronto, à espera, que nos casamos ali mesmo. E então Frank foi embora em busca da fortuna e voltei para meu pai.

- A próxima notícia que tive era de que Frank estava em Montana e depois foi trabalhar em minas no Arizona e depois disso tive notícias do Novo México. Depois veio um artigo longo no jornal sobre um acampamento de mineiros que havia sido atacado pelos índios apache e o nome do Frank estava na lista dos que haviam sido mortos. Desmaiei quando li isso e fiquei muito doente durante meses. O Pai pensou que tinha alguma doença rara e me levou a todos os médicos de São Francisco. Não tive nenhuma notícia por mais de um ano, e nunca duvidei que Frank estivesse realmente morto. Então Lorde St. Simon veio a São Francisco e nós viemos a Londres e arranjaram esse casamento, e meu pai ficou muito contente, mas eu sentia todo o tempo que nenhum homem neste mundo poderia tomar o lugar do meu pobre Frank em meu coração. Mesmo assim, se me casasse com Lorde St. Simon, claro que teria cumprido meu dever com ele. Não se pode ordenar o amor, mas os atos sim. Fui até o altar com ele decidida a ser a melhor esposa possível. Mas podem imaginar o que senti quando entrei na igreja e vi Frank olhando para mim de um dos bancos. Primeiro pensei que fosse um fantasma, mas quando olhei de novo, ele ainda estava lá, com uma espécie de interrogação nos olhos, como se me estivesse perguntando se estava contente ou triste de vê-lo. Foi um milagre eu não ter desmaiado. Só sei que tudo estava virando e as palavras do sacerdote eram como um zumbido de abelhas em meus ouvidos. Não sabia o que fazer. Deveria interromper a cerimônia e fazer uma cena na igreja? Olhei novamente para ele e parecia que sabia o que eu estava pensando, pois ergueu um dedo aos lábios fazendo sinal de silêncio. Depois vi que rabiscava em um pedaço de papel e sabia que estava escrevendo para mim. Quando passei pelo banco dele ao sair da igreja, deixei cair meu buquê e ele enfiou o bilhete em minha mão quando devolveu as flores. Era uma linha só, pedindo que me encontrasse com ele quando me desse o sinal. Claro que nunca duvidei por um instante que meu primeiro dever era para com ele e decidi fazer exatamente o que ele mandasse.

- Quando voltei a casa contei à minha criada, que o conhecera na Califórnia, e sempre gostara muito dele. Mandei que não dissesse nada a ninguém, mas que arrumasse umas roupas e deixasse meu casaco e chapéu a mão. Sei que devia ter falado com Lorde St. Simon, mas era extremamente difícil em frente de sua mãe e todos os ilustres convidados. Resolvi fugir e contar tudo depois. Não fiquei sentada nem dez minutos à mesa quando vi Frank pela janela, do outro lado da rua. Fez sinal para mim e começou a andar em direção ao parque. Fui até o quarto, vesti o casaco e fui atrás dele. Uma mulher veio atrás de mim, falando qualquer coisa sobre Lorde St. Simon (parece, pelo pouco que ouvi, que ele tinha um segredo também antes do casamento), mas consegui me livrar dela e logo alcancei Frank. Tomamos um carro juntos e fomos para um quarto que ele alugara em Gordon Square, e isso foi meu verdadeiro casamento depois de todos esses anos de espera. Frank fora prisioneiro dos apache e fugira, fora para São Francisco, descobrira que eu o considerava morto e tinha ido para a Inglaterra, seguiu-me até aqui e me encontrou na manhã do meu casamento.

- Vi no jornal - explicou o americano. - Dava o nome dela e a igreja, mas não dizia onde ela morava.

- Conversamos então sobre o que deveríamos fazer e Frank era a favor de contar tudo, mas eu estava tão envergonhada que só queria desaparecer e nunca mais ver nenhum deles, só mandar umas linhas para o Pai para dizer que estava viva. Era horrível para mim pensar em todos aqueles lordes e ladies sentados em volta da mesa de almoço, esperando que eu voltasse. Então Frank pegou minhas roupas e tudo, fez um pacote e, para que não servisse de pista, jogou em algum lugar onde ninguém ia encontrá-lo. Era provável que estivéssemos a caminho de Paris amanhã, mas esse cavalheiro, o Sr. Holmes, veio nos procurar esta tarde, embora não consiga imaginar como ele nos encontrou, e mostrou claramente e com muita bondade que eu estava errada e Frank tinha razão, e que devíamos contar toda a verdade. Ofereceu-nos a oportunidade de falar com Lorde St. Simon sozinho, e então viemos a seus aposentos imediatamente. Agora, Robert, você ouviu a história toda e sinto muito se o magoei, mas espero que você não fique muito sentido comigo.

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