A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
Era uma velha ofensa, profundamente sentida, e nunca antes tanto como agora. Ali estava o cerne da fraqueza do seu senhor; Pedra do Dragão, embora antiga e forte, detinha a lealdade de apenas um punhado de pequenos senhores, cujos domínios pedregosos e insulares tinham uma população escassa demais para fornecer os homens de que Stannis necessitava. Mesmo com os mercenários que trouxera do outro lado do mar estreito, das Cidades Livres de Myr e Lys, a hoste acampada junto às suas muralhas era muito menor do que necessitava ser para derrubar o poderio da Casa Lannister.
– Robert foi injusto com o senhor – respondeu cuidadosamente Meistre Cressen –, mas tinha bons motivos. Pedra do Dragão era há muito a sede da Casa Targaryen. Ele precisava da força de um homem para governar aqui, e Renly era apenas uma criança.
– Ele ainda é uma criança – declarou Stannis, com a ira ressoando alto no salão vazio –, uma criança ladra que pensa em surrupiar a coroa da minha cabeça. Que fez Renly para ganhar um trono? Senta-se no conselho e troca gracejos com Mindinho, e nos torneios enverga sua magnífica armadura e permite que um homem melhor o derrube do cavalo. Meu irmão Renly é isto, o meu irmão que pensa que deveria ser um rei. Pergunto-lhe, por que os deuses me puniram com irmãos?
– Não posso responder pelos deuses.
– Pois me parece que hoje em dia é raro que responda a qualquer coisa. Quem é o meistre de Renly? Talvez deva mandar buscá-lo, talvez eu venha a gostar mais dos seus conselhos. Que acha que esse meistre disse quando meu irmão decidiu roubar minha coroa? Que conselho terá o seu colega oferecido àquele traiçoeiro sangue do meu sangue?
– Eu ficaria surpreso se Lorde Renly procurasse conselhos, Vossa Graça.
O mais novo dos três filhos de Lorde Steffon havia se tornado um homem corajoso, mas impetuoso, que agia por impulso, e não por cálculo. Nisso, tal como em muitas outras coisas, Renly era como o irmão Robert, e completamente diferente de Stannis.
– Vossa Graça – Stannis rebateu amargamente. – Zomba de mim com o tratamento devido a um rei, mas sou rei de quê? Pedra do Dragão e um punhado de rochedos no mar estreito, eis o meu reino.
Desceu os degraus da cadeira e parou junto da mesa, fazendo sombra sobre a foz da Torrente de Água Negra e sobre a floresta pintada onde agora se erguia Porto Real. Ficou ali, pairando sobre o território que pretendia reclamar, tão perto, e no entanto tão longe.
– Esta noite devo jantar com os senhores meus vassalos, aqueles que tenho. Celtigar, Velaryon, Bar Emmon, todo o insignificante bando. Colheita fraca, pra dizer a verdade, mas são aquilo que meus irmãos me deixaram. Aquele pirata liseno, Salladhor Saan, estará lá com a fatura mais recente do que lhe devo, e Morosh, o mirano, vai me advertir com histórias sobre marés e ventanias de Outono, enquanto Lorde Sunglass resmunga piedosamente sobre a Fé dos Sete. Celtigar quererá saber quantos dos senhores da tempestade irão se juntar a nós. Velaryon ameaçará levar seus recrutas para casa a menos que ataquemos de imediato. Que hei de dizer a eles? Que devo fazer agora?
– Seus verdadeiros inimigos são os Lannister, senhor – foi a resposta de Meistre Cressen. – Se você e seu irmão se unissem contra eles…
– Não negociarei com Renly – respondeu Stannis num tom que não admitia discussão. – Pelo menos enquanto ele se disser rei.
– Nesse caso, com Renly não – cedeu o meistre. Seu senhor era teimoso e orgulhoso; quando se decidia por alguma coisa, não havia jeito de fazê-lo mudar de ideia. – Outros poderão também servir às suas necessidades. O filho de Eddard Stark foi proclamado Rei no Norte e conta com todo o poderio de Winterfell e Correrrio.
– Um jovenzinho verde – Stannis ironizou. – E outro falso rei. Devo aceitar um reino mutilado?
– Certamente metade de um reino é melhor do que nada – Cressen observou. – E se ajudar o rapaz a vingar o assassinato do pai…
– Por que eu deveria vingar Eddard Stark? O homem não era nada para mim. Ah, Robert adorava-o, com certeza. Adorava-o como a um irmão, quantas vezes ouvi isso? Eu é que era o irmão dele, não Ned Stark, mas, pela maneira como me tratava, nunca ninguém adivinharia. Defendi Ponta Tempestade em seu nome, vendo bons homens passar fome, enquanto Mace Tyrell e Paxter Redwyne se banqueteavam à vista das minhas muralhas. E por acaso Robert me agradeceu? Não. Agradeceu ao Stark, por romper o cerco quando estávamos reduzidos a ratazanas e rabanetes. Construí uma frota às ordens de Robert, tomei Pedra do Dragão em seu nome. Por acaso ele pegou minha mão e disse “Muito bem, irmão, o que eu faria sem você?” Não. Culpou-me por ter deixado que Willem Derry raptasse Viserys e o bebê, como se eu tivesse podido impedi-lo. Fiz parte de seu conselho durante quinze anos, ajudando Jon Arryn a governar o reino, enquanto Robert bebia e visitava prostitutas, mas, quando Jon morreu, será que meu irmão me nomeou sua Mão? Não. Partiu a galope atrás do seu querido amigo Ned Stark e lhe ofereceu essa honra. Que de pouco valeu para ambos.
– Seja como for, senhor – Meistre Cressen disse gentilmente. – Grandes injustiças foram cometidas contra você, mas o passado é poeira. O futuro ainda pode ser conquistado, caso se junte aos Stark. Há outros que também poderia sondar. E a Senhora Arryn? Se a rainha assassinou seu marido, ela certamente desejará obter justiça. Tem um filho novo, herdeiro de Jon Arryn. Se prometesse Shireen ao rapaz…
– O rapaz é fraco e doente – retrucou Lorde Stannis. – Mesmo seu pai sabia como ele era quando me pediu para criá-lo em Pedra do Dragão. O serviço como escudeiro poderia ter-lhe feito bem, mas aquela maldita Lannister mandou envenenar Lorde Arryn antes de o trato ser fechado, e agora Lysa esconde-o no Ninho da Águia. Nunca se separará do rapaz, garanto.
– Então, terá de enviar Shireen para o Ninho da Águia – sugeriu o meistre. – Pedra do Dragão é um lar lúgubre para uma criança. Deixe que o bobo vá com ela, para que tenha por perto um rosto familiar.
– Familiar e medonho – Stannis franziu a testa enquanto refletia. – Mesmo assim… Talvez valha a pena tentar…
– Deverá o senhor de direito dos Sete Reinos suplicar a ajuda de viúvas e usurpadores? – perguntou rispidamente uma voz de mulher.
Meistre Cressen virou-se e inclinou a cabeça.
– Minha senhora – disse, desgostoso por não tê-la ouvido entrar.
Lorde Stannis carregou o olhar.
– Eu não suplico. De ninguém. Tente se lembrar disso, mulher.
– Agrada-me ouvir isso, senhor.
A Senhora Selyse era tão alta como o marido, com corpo e feição magros, orelhas proeminentes, o nariz afilado e a mais leve sugestão de um bigode sobre o lábio superior. Arrancava os pelos todos os dias e os amaldiçoava regularmente, mas eles nunca deixavam de voltar. Seus olhos eram claros; a boca, severa; a voz, um chicote. Agora, fazia-o estalar.
– A Senhora Arryn deve-lhe lealdade, tal como os Stark, seu irmão Renly e todos os outros. O senhor é o verdadeiro rei deles. Não seria adequado argumentar e negociar com eles aquilo que é seu por direito, pela graça de Deus.
Deus, ela disse, e não deuses. A mulher vermelha tinha conquistado Selyse de alma e coração, afastando-a dos deuses dos Sete Reinos, tanto os velhos como os novos, para que adorasse aquele a quem chamavam Senhor da Luz.
– Seu deus pode ficar com a sua graça – Lorde Stannis desdenhou; não partilhava a fervorosa nova fé da mulher. – É de espadas que preciso, não de bênçãos. Teria escondido em algum lugar um exército de que não me falou antes?
Não havia afeto no seu tom de voz. Stannis sempre se sentira desconfortável junto das mulheres, até mesmo da sua própria esposa. Quando partiu para Porto Real a fim de integrar o conselho de Robert, deixou Selyse em Pedra do Dragão com a filha. As cartas tinham sido escassas, as visitas mais ainda; cumpria seu dever de marido na cama uma ou duas vezes por ano, mas não retirava disso nenhum prazer, e os filhos homens que no passado esperara nunca vieram.