A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
O ousado rapazinho com cabelo negro bagunçado e risada nos olhos era agora um marmanjo, com vinte e um anos, e ainda jogava seus jogos. Olhem, sou um rei, pensou Cressen tristemente. Ah, Renly, Renly, querido filho, sabe o que está fazendo? E se importaria se soubesse? Haverá alguém que se preocupe com ele além de mim?
– Que motivos deram os senhores para as recusas? – perguntou a Sor Davos.
– Bem, quanto a isso, alguns usaram palavras suaves, e outros, rudes; alguns arranjaram desculpas, outros fizeram promessas; outros limitaram-se a mentir – e encolheu os ombros. – No fim das contas, as palavras não passam de vento.
– Não poderia lhe trazer alguma esperança?
– Só do tipo falso, e eu não faria isso – Davos respondeu. – De mim, ouviu a verdade.
Meistre Cressen recordou o dia em que Davos fora feito cavaleiro, depois do cerco a Ponta Tempestade. Lorde Stannis e uma pequena guarnição defenderam o castelo durante quase um ano contra a grande tropa dos senhores Tyrell e Redwyne. Até o mar lhes estava bloqueado, vigiado noite e dia por galés dos Redwyne, que ostentavam as bandeiras bordô da Árvore. Dentro de Ponta Tempestade, os cavalos há muito tinham sido comidos, os cães e os gatos desaparecido, e a guarnição, limitada a raízes e ratazanas. Então, chegou uma noite em que a lua era nova e nuvens negras escondiam as estrelas. Envolto nessa escuridão, Davos, o contrabandista, desafiou o bloqueio Redwyne e os rochedos da Baía dos Naufrágios. Seu pequeno navio tinha casco, velas e remos negros e um porão apinhado de cebolas e peixe salgado. Era pouco, mas manteve a guarnição viva durante tempo suficiente para que Eddard Stark chegasse a Ponta Tempestade e quebrasse o cerco.
Lorde Stannis recompensou Davos com terras de boa qualidade em Cabo da Fúria, uma pequena fortaleza e o título de cavaleiro… Mas também decretou que perdesse uma falange de todos os dedos da mão esquerda, a fim de pagar por todos seus anos de contrabando. Davos aceitou se submeter, com a condição de que o próprio Stannis manejasse a faca; não aceitaria nenhuma punição vinda de mãos menores. O senhor usou um cutelo de açougueiro, a fim de fazer um corte limpo e completo. Depois, Davos escolheu o nome Seaworth para sua nova casa, e tomou como estandarte um navio negro em fundo cinza-claro… com uma cebola desenhada nas velas. O antigo contrabandista gostava de dizer que Lorde Stannis lhe fizera um favor, dando-lhe quatro unhas a menos para cortar e limpar.
Não, pensou Cressen, um homem assim não daria falsas esperanças, nem suavizaria uma verdade dura.
– Sor Davos, a verdade pode ser uma bebida amarga, mesmo para um homem como Lorde Stannis. Ele só pensa em retornar a Porto Real investido de todo o seu poder, a fim de derrubar os inimigos e reclamar o que é seu de direito. Mas agora…
– Se levar sua tropa minguada para Porto Real, será apenas para morrer. Não tem homens em número suficiente. Disse-lhe isso, mas conhece o orgulho dele – Davos ergueu a mão enluvada. – Meus dedos voltarão a crescer antes que aquele homem se vergue ao bom-senso.
O velho soltou um suspiro:
– O senhor fez tudo o que podia. Agora devo somar a minha voz à sua – e, fatigadamente, retomou a subida.
O refúgio de Lorde Stannis Baratheon era uma grande sala redonda com paredes de pedra negra nua e quatro janelas altas e estreitas, que se abriam para as quatro pontas da bússola. No centro do aposento encontrava-se a grande mesa que lhe dava o nome, uma enorme prancha de madeira esculpida às ordens de Aegon Targaryen nos dias anteriores à Conquista. A Mesa Pintada tinha mais de quinze metros de comprimento, talvez metade dessa medida no ponto mais largo, mas menos de um metro e vinte no mais estreito. Os carpinteiros de Aegon tinham lhe dado a forma das terras de Westeros, serrando cada baía e península até que em nenhuma parte a mesa estivesse reta. Na sua superfície, escurecida pelo verniz de quase trezentos anos, estavam pintados os Sete Reinos tal como tinham sido na época de Aegon; rios e montanhas, castelos e cidades, lagos e florestas.
Havia uma única cadeira na sala, cuidadosamente posicionada no local preciso que Pedra do Dragão ocupava em relação à costa de Westeros, e levantada a fim de fornecer uma boa visão do tampo da mesa. Sentado na cadeira encontrava-se um homem vestido com um gibão de couro bem apertado e calções de grosseira lã marrom. Quando Meistre Cressen entrou, o lorde olhou de relance para cima.
– Eu sabia que você viria, velho, fosse convocado ou não – não havia sinal de calor na sua voz; raramente havia.
Stannis Baratheon, Senhor de Pedra do Dragão e pela graça dos deuses o legítimo herdeiro do Trono de Ferro dos Sete Reinos de Westeros, tinha ombros largos e membros fortes, com o rosto e a pele tão tensos que lembravam couro curado ao sol até ficar duro como aço. A palavra que os homens usavam quando falavam de Stannis era duro, e ele de fato o era. Embora ainda não tivesse trinta e cinco anos, só lhe restava na cabeça uma orla de fino cabelo negro, rodeando a parte de trás das orelhas como a sombra de uma coroa. Seu irmão, o falecido Rei Robert, tinha deixado crescer uma barba nos seus últimos anos. Meistre Cressen nunca a vira, mas dizia-se que era uma coisa emaranhada, espessa e feroz. Como que em resposta, Stannis mantinha suas suíças bem aparadas. Espalhavam-se como uma sombra negro-azulada pelo maxilar quadrado e pelas bochechas secas e ossudas. Seus olhos eram feridas abertas sob as pesadas sobrancelhas, de um azul tão escuro como o do mar à noite. A boca teria levado ao desespero o mais bufão dos bobos; era uma boca feita para ser franzida e apertada, e para ordens ríspidas, toda ela lábios finos e pálidos e músculos contraídos, uma boca que tinha se esquecido de como se sorria e que nunca soube como era rir. Por vezes, quando o mundo ficava muito quieto e silencioso de noite, Meistre Cressen imaginava que conseguia ouvir Lorde Stannis rangendo os dentes a meio castelo de distância.
– Em outros tempos o senhor teria mandado me acordar – disse o velho.
– Em outros tempos o meistre foi novo. Agora é velho e doente e precisa dormir – Stannis nunca aprendera a suavizar o discurso, disfarçar ou lisonjear; dizia o que pensava, e quem não gostasse que se danasse. – Eu sabia que você descobriria em breve o que Davos tinha a dizer. É sempre assim, não é?
– Eu não lhe teria nenhuma utilidade se assim não fosse – Cressen respondeu. – Encontrei Davos na escada.
– E ele contou tudo, suponho. Devia ter encurtado a língua do homem junto com os dedos.
– Assim teria sido um enviado inútil.
– De qualquer forma foi um enviado inútil. Os senhores da tempestade não se levantarão por mim. Parece que não simpatizam comigo, e a justiça da minha causa não significa nada para eles. Os covardes ficarão quietos atrás das suas muralhas, esperando ver como se ergue o vento e quem tem mais chances de triunfar. Os corajosos já se declararam por Renly. Por Renly! – cuspiu o nome como se fosse veneno que tivesse na língua.
– Seu irmão tem sido senhor de Ponta Tempestade ao longo destes últimos treze anos. Esses senhores são vassalos juramentados dele…
– Dele – interrompeu Stannis. – Quando de direito deveriam ser meus. Nunca pedi Pedra do Dragão. Nunca quis este castelo. Tomei-o porque os inimigos de Robert estavam aqui, e ele me ordenou que os escorraçasse. Construí sua frota e fiz o seu trabalho, obediente como um irmão mais novo deve ser a um mais velho, como Renly devia ser a mim. E como Robert me agradeceu? Nomeou-me Senhor de Pedra do Dragão e deu Ponta Tempestade e seus rendimentos a Renly. Ponta Tempestade pertenceu à Casa Baratheon durante trezentos anos; de direito devia ter passado para mim quando Robert tomou o Trono de Ferro.