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As areias do tempo [em Português]

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As areias do tempo [em Português]
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Fitou-a por um momento, o coração quase parando, depois virou-se e entrou na loja de penhores.

Um homem encarquilhado, com uma cabeça enorme, estava atrás do balcão, mal visível.

- Buenos dias, señorita.

- Buenos dias, señor. Tenho uma coisa que gostaria de vender. - Estava tão nervosa que precisou comprimir os joelhos com força, a fim de evitar que tremessem.

- Sí?

Lucia desembrulhou a cruz de ouro e estendeu-a.

- Estaria… estaria interessado em comprar isto?

O homem pegou a cruz, e Lucia percebeu o brilho em seus olhos.

- Posso perguntar onde adquiriu isto?

- Foi deixada por um tio que acaba de morrer. - A garganta estava tão seca que Lucia mal conseguia falar.

O homem pegou a cruz, virando-a lentamente.

- Quanto está pedindo?

O sonho se transformava em realidade.

- Quero 250 mil pesetas.

Ele franziu o rosto e sacudiu a cabeça.

- Não. Val e apenas cem mil pesetas.

- Prefiro vender meu corpo primeiro.

- Talvez eu pudesse chegar a 150 mil pesetas.

- Prefiro derretê-la e deixar o ouro escorrer pelas ruas.

- Duzentas mil pesetas. É a minha última oferta.

Lucia tirou-lhe a cruz de ouro.

- Está me roubando vergonhosamente, mas vou aceitar. - Percebeu o excitamento no rosto do homem.

- Buenos, señorita. - Estendeu as mãos para a cruz, Lucia puxou-a.

- Há uma condição.

- Que condição, señorita?

- Meu passaporte foi roubado. Preciso de um novo, para poder deixar o país para visitar minha tia doente.

Ele a estudava agora, cauteloso. Balançou a cabeça.

- Entendo…

- Se puder me ajudar a resolver o problema, a cruz é sua.

Ele suspirou.

- Não é fácil arrumar passaportes, señorita. As autoridades são muito rigorosas.

Lucia fitava-o em silêncio.

- Não sei como poderia ajudá-la.

- De qualquer forma, obrigada, señor. - Encaminhou-se para a porta. O homem deixou-a chegar lá antes de dizer:

- Momentito.

Lucia parou.

- Acabo de me lembrar de uma coisa. Tenho um primo que às vezes se envolve em questões delicadas desse tipo. É um primo "distante", espero que compreenda.

- Claro que compreendo.

- Eu poderia falar com ele. Quando vai precisar desse passaporte?

- Hoje.

A cabeça enorme balançou para cima e para baixo.

- E se eu conseguir, temos um negócio fechado?

- Quando eu receber o passaporte.

- Combinado. Volte depois das oito horas, e meu primo estará aqui. Ele providenciará a fotografia necessária e porá em seu passaporte.

Lucia sentiu o coração disparar.

- Obrigada, señor.

- Não gostaria de deixar a cruz aqui, como medida de segurança?

- Estará segura comigo.

- Oito horas então. Hasta luego.

Ela deixou a loja. Lá fora, evitou com todo cuidado a delegacia de polícia e se encaminhou para a taverna, onde Rubio a esperava. Começou a andar mais devagar. Finalmente conseguia o que queria. Com o dinheiro da cruz, poderia alcançar a Suíça e a liberdade. Deveria estar feliz mas, em vez disso, sentia-se estranhamente deprimida.

"O que há de errado comigo? Estou a caminho. Rubio me esquecerá em breve. Encontrará outra."

Recordou a expressão nos olhos de Rubio quando lhe disse:

"Quero casar com você. Nunca disse isso a outra mulher em toda a minha vida."

"Dane-se ele!", pensou. "Ora, ele não é problema meu."

Diante da taberna, Lucia parou e respirou fundo; forçou então um sorriso e entrou para se juntar a Rubio.

Capítulo 25

Os meios de comunicação estavam alvoroçados. As manchetes se sucediam. Houvera o ataque ao convento, a prisão das freiras por abrigar terroristas, a fuga de quatro freiras, o fuzilamento de cinco soldados por uma das freiras, antes de ela ser alvejada e morta. As agências noticiosas internacionais estavam excitadas.

Repórteres do mundo inteiro chegaram a Madrid, e o primeiro-ministro Leopoldo Martínez, num esforço para atenuar a crise, concordava em conceder uma coletiva. Quase cinquenta repórteres do mundo todo se reuniram em seu gabinete. Os coronéis Ramón Acoca e Fal Sostelo estavam ao seu lado. O primeiro-ministro vira na manchete do "Times" de Londres naquela tarde: TERRORISTAS E FREIRAS ESCAPAM DO EXÉRCITO E DA POLÍCIA DA ESPANHA.

Um repórter do "Paris Match" perguntou:

- Senhor primeiro-ministro, tem alguma idéia do paradeiro das freiras neste momento?

- O coronel Ramón Acoca está no comando da operação de busca - respondeu o primeiro-ministro Martínez. - Deixarei que ele responda.

- Temos motivos para acreditar que se encontram em poder dos terroristas bascos - falou Acoca. - Também lamento informar que há indício de que as freiras estão colaborando com os terroristas.

Os repórtes escreviam febrilmente.

- O que tem a dizer sobre a morte de irmã Teresa e dos soldados?

- Temos informações de que a irmã Teresa trabalhava com Jaime Miró. Sob o pretexto de nos ajudar a encontrar Miró, ela entrou no acampamento do exército e fuzilou cinco soldados antes que fosse possível detê-la. Posso assegurar que o exército e o "GOE" estão envidando todos os esforços para levar os criminosos à justiça.

- E as freiras que foram presas e trazidas para Madrid?

- Estão sendo interrogadas - respondeu Acoca.

O primeiro-ministro queria encerrar a entrevista o mais depressa possível. Tinha dificuldades para manter o controle.

O fracasso em localizar as freiras e capturar os terroristas faziam com que seu governo - e ele próprio - parecesse inapto e tolo, permitindo que a imprensa tirasse o máximo de proveito da situação.

- Pode nos dizer alguma coisa sobre os antecedentes das quatro freiras que escaparam, primeiro-ministro? - perguntou um repórter de Oggi.

- Sinto muito, mas não posso fornecer novas informações. Repito, senhoras e senhores, o governo está fazendo tudo ao seu alcance para encontrar as freiras.

- Primeiro-ministro, há rumores sobre a brutalidade do ataque ao convento em Ávila. Poderia fazer algum comentário a esse respeito?

Era uma questão delicada para Martínez, por ser verdade.

O coronel Acoca ultrapassara em muito a sua autoridade. Mas cuidaria dele mais tarde. Naquele momento para demonstrar união, virou-se para o coronel e disse suavemente:

- O coronel Acoca pode responder a isso.

- Também já ouvi esses rumores infundados - retrucou Acoca. - Os fatos são simples. Recebemos informações confiáveis de que o terrorista Jaime Miró e uma dúzia de seus homens escondiam-se no convento Cisterciense e que estavam fortemente armados. Quando chegamos ao convento, no entanto, eles já haviam fugido.

- Coronel, soubemos que alguns dos seus homens molestaram…

- Isso é uma acusação afrontosa!

- Obrigado, senhoras e senhores - interveio o primeiro-ministro Martínez. - Serão informados de tudo e de qualquer acontecimento novo.

Depois que os repórteres se retiraram, o primeiro-ministro virou-se para os coronéis Acoca e Sostelo.

- Eles estão fazendo com que pareçamos selvagens aos olhos do mundo.

Acoca não tinha o menor interesse pela opinião do primeiro-ministro. O que o preocupava era um telefonema que recebera à meia-noite.

- Coronel Acoca?

Era uma voz que conhecia muito bem. Despertara imediatamente.

- Pois não, senhor.

- Estamos desapontados com você. Esperávamos resultados mais rápidos.

- Estou chegando perto, senhor. - Ele descobrira que suava profundamente. - Peço-lhe um pouco mais de paciência. Não vou desapontá-lo. - Prendera a respiração, à espera da resposta.

- Seu tempo está se esgotando.

A ligação fora cortada.

O coronel Acoca também desligara e continuara sentado, frustrado. Onde está o miserável do Miró?

Capítulo 26

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