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As areias do tempo [em Português]

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As areias do tempo [em Português]
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- Irmã, não deveríamos…

Lucia não estava com disposição para conversas. Sentiu o corpo de Rubio se unir ao seu, num ritual eterno, entregou-se às gloriosas sensações que a dominaram. E foi tudo ainda melhor por causa de seu quase encontro com a morte.

Rubio era um amante surpreendentemente bom, ao mesmo tempo gentil e impetuoso. Possuía uma vulnerabilidade que surpreendeu Lucia. E havia uma expressão de tanta ternura em seus olhos que ela sentiu um súbito aperto na garganta.

"Espero que esse camponês não se apaixone por mim. Ele está ansioso demais para me agradar. Quando foi a última vez em que um homem se empenhou tanto em me agradar?" E Lucia pensou no pai.

Especulou se ele teria gostado de Rubio Arzano. E depois indagou por que especulava se o pai teria gostado de Rubio Arzano. "Devo estar louca. Este homem é um camponês. Sou Lucia Carmine, a filha de Angelo Carmine. A vida de Rubio não tem nada a ver com a minha. Fomos reunidos apenas por um estúpido acidente do destino."

Rubio abraçava-a e murmurava:

- Lucia, minha Lucia…

E o brilho em seus olhos dizia a Lucia tudo o que ele sentia. "Ele é tão terno", pensou ela. E depois: "O que há comigo? Porque estou pensando nele assim? Estou fugindo da polícia e…"

Lembrou-se de repente da cruz de ouro e soltou um ofego. "Oh, Deus! Como pude esquecer, mesmo que por um momento apenas?" Sentou-se no mesmo instante.

- Rubio, deixei um…, um embrulho na margem do rio, lá atrás. Poderia trazê-lo para mim, por favor? E minhas roupas também?

- Claro. Voltarei num instante.

Lucia ficou sentada, à espera, frenética pela possibilidade de ter acontecido alguma coisa à cruz. E se tivesse desaparecido? E se alguém passara e a levara?

Foi com um enorme sentimento de alívio que viu Rubio voltar com a cruz embrulhada debaixo do braço. "Não devo deixar que fique longe da minha vista outra vez."

- Obrigada - disse para Rubio.

Rubio entregou-lhe as roupas. Lucia fitou-o e disse, insinuante:

- Não vou precisar disso imediatamente…

O sol em sua pele nua fazia Lucia sentir-se indolente e quente, e estar nos braços de Rubio era um conforto maravilhoso. Era como se tivesse encontrado um oásis pacífico. Os perigos de que fugiam pareciam a anos-luz de distância.

- Fale-me a respeito de sua fazenda - pediu Lucia.

O rosto de Rubio se iluminou e havia orgulho em sua voz.

- Era uma fazenda pequena, nos arredores de uma aldeia perto de Bilbao. Pertencia à minha família há gerações.

- O que aconteceu?

A expressão de Rubio tornou-se sombria.

- Porque sou um basco, o governo de Madrid puniu-me com impostos extras. Recusei-me a pagar, e confiscaram-me a fazenda. Foi nessa ocasião que conheci Jaime Miró. Uni-me a ele para lutar contra o governo pelo que é justo. Tenho mãe e duas irmãs, um dia vamos recuperar nossa fazenda e tornarei a administrá-la.

Lucia pensou no pai e dois irmãos, trancafiados na prisão para sempre.

- É muito ligado à sua família?

Rubio sorriu, efusivamente.

- Claro. A família é o nosso primeiro amor, não acha?

"É, sim", pensou Lucia. "Mas jamais tornarei a ver a minha."

- Fale-me a respeito de sua família, Lucia. Antes de entrar no convento, eram muito unidos?

A conversa enveredava por um rumo perigoso. "O que posso lhe dizer? Meu pai é um mafioso. Ele e meus dois irmãos estão na prisão por homicídio."

- Éramos, sim… muito unidos.

- O que faz o seu pai?

- Ele… ele é um homem de negócios.

- Tem irmãos e irmãs?

- Dois irmãos. Trabalham com papai.

- Por que foi para o convento, Lucia?

"Porque a polícia me procura por ter assassinado dois homens. Preciso de acabar com esta conversa", pensou Lucia. Em voz alta, ela disse:

- Eu precisava escapar.

"Está bem perto da verdade."

- Sentiu que o mundo era… era demais para você?

- Mais ou menos isso.

- Não tenho o direito de dizer isso, Lucia, mas estou apaixonado por você.

- Rubio…

- Quero casar com você. Em toda a minha vida, nunca disse isso a outra mulher. - Havia algo comovente e sério nele.

"Rubio não sabe jogar", pensou Lucia. "Preciso tomar cuidado para não magoá-lo. Mas a perspectiva da filha de Angelo Carmine se tornar esposa de um camponês é demais!" Ela quase soltou uma risada.

Rubio interpretou de maneira errada o sorriso no rosto de Lucia.

- Não viverei escondido para sempre. O governo terá de fazer a paz com a gente. Voltarei então para a minha fazenda. "Querida…" Quero passar o resto da vida fazendo você feliz. Teremos muitos filhos, e as meninas crescerão para serem como você…

"Não posso deixá-lo continuar assim", decidiu Lucia. "Preciso detê-lo agora." Mas por algum motivo, não foi capaz. Ficou escutando Rubio descrever imagens românticas da vida que levariam juntos, descobriu-se quase a desejar que pudesse acontecer. Estava cansada de fugir. Seria maravilhoso encontrar um refúgio em que pudesse permanecer sã e salva, protegida por alguém que a amasse… "Devo estar perdendo o juízo."

- Não falemos mais sobre isso agora - murmurou Lucia. - Devemos partir.

Os dois viajaram para o nordeste, seguindo pela margem sinuosa do rio Duero, com seus campos ondulados e árvores exuberantes. Pararam na pitoresca aldeia de Villalba de Duero para comprar pão, queijo e vinho, e fizeram um piquenique idílico numa campina relvada.

Lucia sentiu-se contente ao lado de Rubio. Havia nele uma força tranquila que lhe parecia dar força também. "Ele não é para mim, mas tornará muito feliz alguma mulher afortunada", pensou ela.

Depois que terminaram de comer, Rubio disse:

- A próxima cidade é Aranda. É bem grande. Seria melhor se a contornássemos, para evitar o "GOE" e os soldados.

Era o momento da verdade, a hora de deixá-lo. Lucia estivera à espera que se aproximassem de uma cidade maior. Rubio Arzano e sua fazenda eram um sonho, a fuga para a Suíça era a realidade.

Lucia sabia o quanto o magoaria e não suportou fitá-lo nos olhos quando disse:

- Rubio… eu gostaria que fôssemos para a cidade.

Ele franziu o rosto.

- Pode ser perigoso, "querida." Os soldados…

- Não estarão à nossa procura ali. - Ela pensou rapidamente. - Além do mais, eu… eu preciso de uma muda de roupa, não posso continuar assim.

A perspectiva de entrar na cidade perturbava Rubio, mas ele se limitou a dizer:

- Se é isso o que você quer…

Ao longe, os muros de Aranda de Duero assomaram diante deles, como uma montanha construída pelo homem.

Rubio tentou mais uma vez.

- Lucia… tem certeza que precisamos ir à cidade?

- Tenho, sim.

Os dois atravessaram a comprida ponte que levava à via principal, a Avenida Castilla. Passaram por uma usina de açúcar, igrejas e lojas de aves, o ar impregnado com uma variedade de cheiros. Lojas e prédios de apartamentos margeavam a avenida.

Lucia avistou finalmente o que procurava… uma placa que dizia CASA DE EMPEÑOS - uma loja de penhores. Ela continuou calada.

Chegaram à praça, com suas lojas, mercados e bares, passaram pela Taverna Cueva, com um balcão comprido e mesa de madeira.

Havia uma vitrola automática lá dentro, salames e fieiras de alho pendurado no teto em vigas.

Lucia percebeu a oportunidade.

- Estou com sede, Rubio. Podemos entrar?

- Claro.

Rubio pegou-a pelo braço e entraram no bar.

Havia alguns homens no balcão. Lucia e Rubio foram para uma mesa no canto.

- O que vai querer, querida?

- Peça um copo de vinho para mim, por favor. Voltarei num instante. Tem uma coisa que preciso fazer. - Levantou-se e saiu para a rua, deixando Rubio perplexo.

Lá fora, Lucia voltou apressada até a Casa de Empeños, apertando com força a cruz embrulhada. No outro lado da rua avistou uma placa preta com letras brancas que dizia: POLÍCIA.

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