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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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McMurdo deixou o jornal de lado e estava acendendo seu cachimbo com a mão trêmula devido aos excessos da noite anterior quando ouviu uma batida do lado de fora, e sua senhoria entregou-lhe um bilhete que acabara de ser levado por um rapaz. Não tinha assinatura e dizia o seguinte:

Eu gostaria de falar com o senhor, mas seria melhor que não fosse em sua casa. Estarei ao lado do mastro da bandeira de Miller Hill. Se for até lá agora, há uma coisa que é importante para o senhor ouvir

e importante, para mim, dizer.

McMurdo leu o recado duas vezes, bastante surpreso, pois não podia imaginar o que seria nem quem era o seu autor. Se fosse letra de mulher, teria imaginado que aquilo poderia ser o início de mais uma aventura, coisa tão normal em sua vida no passado. Mas era letra de homem, e de uma pessoa instruída. Finalmente, após alguma hesitação, resolveu ir ver do que se tratava.

Miller Hill é um parque público malconservado que fica bem no centro da cidade. No verão é o local preferido pelas pessoas, mas no inverno fica completamente deserto. Do alto do parque tem-se uma vista geral não só da cidade suja e irregular, mas também de todo o vale, com suas minas e fábricas encardindo a neve de cada lado dele, e de suas escarpas cheias de vegetação e cobertas de neve. McMurdo subiu o caminho margeado por uma vegetação muito rica até chegar ao restaurante que é o centro das excursões de verão. Ao lado dele ficava o mastro citado no recado, e junto à base havia um homem com o chapéu inclinado sobre o rosto e a gola do casaco levantada. Quando ele se virou, McMurdo viu que era o Irmão Morris, o que causara irritação no chefe na noite anterior. Eles se cumprimentaram segundo os ritos da Loja.

– Eu gostaria de lhe falar por um instante, sr. McMurdo – disse o outro, com uma hesitação que mostrava que o assunto era delicado. – Foi gentileza sua vir até aqui.

– Por que não pôs seu nome no bilhete?

– Temos de ser cautelosos, senhor. Nunca se sabe, numa época dessas, como uma coisa vai se desenrolar. Nunca se sabe também em quem confiar e em quem não confiar.

– Mas devemos confiar nos irmãos da Loja, não?

– Não, não. Nem sempre – disse Morris com a voz mais elevada, demonstrando veemência em sua resposta. – Tudo que dizemos, e até o que pensamos, parece chegar até aquele homem, McGinty.

– Olhe aqui – disse McMurdo de modo decidido. – Não tem nem 24 horas que fiz meu juramento ao chefe. O senhor estaria me pedindo pra quebrar meu juramento?

– Se é assim que o senhor vê as coisas – disse Morris com ar tristonho –, só posso lhe dizer que sinto muito por ter-lhe dado o trabalho de vir se encontrar comigo. As coisas vão mal quando dois cidadãos livres não podem trocar idéias.

McMurdo, que estava observando seu companheiro com toda a atenção, relaxou um pouco.

– Bem, falo apenas por mim – disse ele. – Sou novato, como o senhor sabe, e ainda não conheço bem as coisas por aqui. Não devo abrir minha boca, sr. Morris, mas se o senhor acha que deve me dizer alguma coisa, aqui estou para ouvi-lo.

– E depois ir contar tudo ao chefe McGinty – disse Morris, irritado.

– O senhor, agora, está me fazendo uma injustiça! – exclamou McMurdo.

– Eu sou fiel à Loja, e lhe digo isso desde já, mas eu seria um verme se repetisse para outra pessoa qualquer o que o senhor possa vir a me contar em confiança. O que o senhor disser ficará comigo, embora eu lhe avise que poderá não ter de mim nem ajuda nem simpatia.

– Eu desisti de procurar uma ou outra – disse Morris. – Posso estar colocando minha vida em suas mãos pelo que vou dizer, mas, mau como o senhor é (e ontem à noite me pareceu que é tão mau quanto o pior de todos), ainda assim é novo aqui, e sua consciência não pode estar tão insensível quanto a deles. Foi por isso que pensei em falar com o senhor.

– Bem, o que o senhor tem a me dizer?

– Se o senhor me entregar, maldito seja!

– Eu já lhe disse que não faria isso.

– Eu gostaria de lhe perguntar, então, se quando o senhor se filiou à Sociedade dos Homens Livres de Chicago, e fez votos de caridade e fidelidade, por um instante que seja lhe passou pela cabeça que essa sociedade o levaria ao crime.

– Se o senhor chama isso de crime... – McMurdo respondeu.

– Chama de crime! – Morris gritou, sua voz tremendo de raiva. – O senhor ainda não viu nada, se é que pode dar outro nome a isso. Foi crime ontem à noite um velho, que poderia ser seu pai, ser espancado até que seus cabelos brancos ficassem vermelhos de sangue? Foi crime ou o senhor chamaria isso de outra coisa?

– Alguns diriam que foi uma batalha – disse McMurdo. – Uma guerra entre duas categorias, de modo que cada uma delas luta da melhor maneira que pode.

– Mas o senhor pensou numa coisa assim quando se filiou à Sociedade dos Homens Livres de Chicago?

– Posso garantir que não.

– Nem eu quando me filiei a ela na Filadélfia. Era apenas um clube beneficente e um local de reuniões. Ouvi então falar nessa sociedade (maldita hora em que esse nome chegou aos meus ouvidos!) e eu me associei para me sentir melhor. Meu Deus, para me sentir melhor! Minha esposa e os três filhos vieram comigo. Abri uma pequena loja na Market Square, e meus negócios iam bem. Mas se espalhou a notícia de que eu era um dos Homens Livres, e fui obrigado a me filiar à Loja local, como o senhor fez ontem à noite. E tenho a marca da vergonha no meu antebraço, e algo pior em meu coração. Descobri que eu estava sob o comando de um mau-caráter e me vi envolvido nas malhas do crime. O que posso fazer? Cada palavra que pronunciei com a intenção de melhorar as coisas foi considerada traição, como aconteceu ontem à noite. Não posso ir embora, pois tudo o que possuo é minha loja. Se eu deixar a sociedade, sei que isso significa a morte para mim, e só Deus sabe o que aconteceria à minha mulher e às crianças. Olha, a situação é terrível. Terrível! – Ele cobriu o rosto com as mãos e seu corpo estremecia com soluços convulsivos.

McMurdo deu de ombros.

– O senhor é muito delicado para esse tipo de trabalho – disse ele. – O senhor não é a pessoa certa para esse tipo de trabalho.

– Eu tinha uma consciência e uma religião, mas fizeram de mim um criminoso a mais entre eles. Fui designado para um trabalho. Se eu falhasse, sei bem o que me aconteceria. Talvez eu seja um covarde. Talvez seja o fato de eu pensar na minha esposa e nas crianças que me torne assim. De qualquer modo, fui para executar o serviço. Acho que essa lembrança vai me perseguir para sempre. Era uma casa abandonada, a 20 milhas daqui, depois do fim do vale. Eu fiquei do lado de fora da casa, como aconteceu com o senhor ontem. Não podiam confiar em mim para o serviço. Os outros entraram. Quando saíram, estavam com as mãos vermelhas até o punho. Enquanto íamos embora, uma criança ficou gritando do lado de fora da casa, atrás de nós. Era um menino de seus 5 anos que tinha assistido ao assassinato do pai. Eu quase desmaiei com tanta barbaridade, mas mesmo assim tive de manter o rosto sereno e com um sorriso, pois eu bem sabia que se não agisse dessa forma a próxima casa a ser visitada por eles com suas mãos sanguinárias seria a minha, e desta vez o meu pequeno Fred é que ficaria chorando pelo pai morto. Mas aí eu já era um criminoso: cúmplice de um assassinato, perdido neste e também no outro mundo. Sou católico, mas o padre não me perdoaria quando soubesse que sou um Scowrer e estou excomungado de minha fé. Essa é a minha situação. E vejo que o senhor vai pelo mesmo caminho, e lhe pergunto qual será o fim dele. O senhor está disposto a ser um assassino a sangue-frio ou podemos fazer alguma coisa que pare com isso?

– O que o senhor faria? – perguntou McMurdo, de forma direta. – O senhor denunciaria?

– Deus me livre! – exclamou Morris. – Com certeza só de pensar nisso eu estaria morto.

– Claro – disse McMurdo. – Estou achando que o senhor é um homem fraco e que se preocupa demais com o assunto.

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