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Os Filhos de Anansi

Электронная книга - «Os Filhos de Anansi». Краткое содержание книги:

Os Filhos de Anansi, obra prima que estreiou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. O livro conta a história de Fat Charlie, um tímido americano que escolheu ter uma vida pacata e sem-graça como contador numa empresa londrina. Ao ir ao funeral de seu pai, Sr. Nancy, Fat Charlie ouve uma velhinha, amiga do pai há anos, dizer que ele na verdade era o deus Anansi, uma divindade trapaceira e brincalhona da mitologia africana. A partir desse episódio, sua vida vira de cabeça para baixo. Os Filhos de Anansi mistura mitologia com toques xamanistas, elementos do folclore afro-americano e uma deliciosa descrição do mundo interior de um homem muito tímido mas, acima de tudo é uma história sobre algo bastante comum: as conturbadas relações entre pais e filhos.Tudo isso envolto num humor discreto capaz de fazer o leitor rir com uma única linha. A obra é a continuação do consagrado escritor Neil Gaiman para sua saga a respeito de deuses modernos.
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— Opa! — disse Spider — Você arranjou um koan matador, amigo.

— Obrigado — disse o motorista.

— E é assim que tudo termina mesmo. O senhor tem um ar de filósofo. Meu nome é Spider. Este é o meu irmão, Fat Charlie.

— Charles — corrigiu Fat Charlie.

— Steve — apresentou-se o motorista. — Steve Burridge.

— Senhor Burridge, o senhor gostaria de ser nosso motorista particular por esta noite?

Steve Burridge explicou que estava no fim do expediente e levaria o táxi para casa. A Sra. Burridge e os pequenos Burridges o esperavam para o jantar.

— Você ouviu isso? — comentou Spider. — Um homem de família. Olha, o meu irmão e eu somos tudo o que restou da família. E essa é a primeira vez que nos encontramos.

— Parece uma história e tanto. Vocês brigaram?

— Não, nada disso. Ele simplesmente não sabia que tinha um irmão — respondeu Spider.

— E você sabia? — perguntou Fat Charlie.

— Talvez eu soubesse — respondeu Spider. — Mas às vezes a gente esquece essas coisas.

O motorista encostou o táxi na calçada.

— Onde estamos? — perguntou Fat Charlie. Eles não tinham ido muito longe. Fat Charlie achou que estivessem só um pouco além da Fleet Street.

— Onde ele pode conseguir o que queria — respondeu o motorista. — Vinho.

Spider saiu do táxi e observou a fachada de um velho bar, feita de carvalho sujo e vidros embaçados.

— Perfeito. Pague o homem, irmão.

Fat Charlie pagou o táxi. Eles entraram. Desceram uma escada de madeira até chegar a um porão onde advogados rubicundos bebiam lado a lado com pálidos administradores de fundos do mercado financeiro. Havia serragem no chão e uma lista de vinhos escrita com giz, de modo ilegível, num quadro negro atrás do balcão.

— O que você vai beber? — perguntou Spider.

— Só uma taça de vinho tinto da casa, por favor — respondeu Fat Charlie.

Spider olhou para ele com ar sério e disse:

— Nós somos os últimos herdeiros da linhagem Anansi. Não vamos beber à memória de nosso pai com vinho tinto da casa.

— Ahm. Certo. Bom, então vou tomar o que você tomar.

Spider foi até o bar, passando pelo monte de pessoas como se elas não estivessem lá. Depois de vários minutos, voltou carregando duas taças, um saca-rolhas e uma garrafa de vinho extremamente empoeirada. Abriu a garrafa com uma facilidade que impressionou profundamente Fat Charlie, que sempre deixava cair fragmentos de cortiça dentro da garrafa. Spider serviu o vinho, tão escuro que quase chegava a ser negro. Encheu as duas taças e colocou uma delas diante de Fat Charlie.

— Um brinde. À memória do nosso pai.

— Ao nosso pai — respondeu Fat Charlie. Ele tocou sua taça na taça de Spider (milagrosamente sem derramar nenhuma gota) e provou do seu vinho. Era bastante amargo, com um toque de ervas, salgado.

— O que é isso?

— Vinho funerário, o tipo que se bebe em homenagem aos deuses. Não o produzem mais há muito tempo. E temperado com aloés e alecrim, e com as lágrimas de virgens infelizes no amor.

— E eles vendem isso num bar na Fleet Street?

Fat Charlie pegou a garrafa, mas o rótulo estava muito apagado e empoeirado para ler.

— Nunca ouvi falar.

— São esses lugares mais antigos que têm coisas boas se você pedir — respondeu Spider. — Ou pelo menos eu acho que têm.

Fat Charlie tomou outro gole de seu vinho. Era forte e tinha um gosto acre.

— Não é um vinho de degustação — disse Spider. — É um vinho para lamentar a morte de alguém. Você bebe de uma vez. Assim. — Tomou um gole grande e fez uma careta. — Assim ele fica com gosto melhor também.

Fat Charlie hesitou um instante, e então deu um grande gole naquele vinho estranho. Conseguia imaginar que podia sentir o gosto de aloés e alecrim. Ficou pensando se o gosto salgado vinha mesmo de lágrimas.

— Eles põem alecrim para a auxiliar a memória — observou Spider, e começou a encher as taças até a borda. Fat Charlie tentou explicar que não estava com muita vontade de tomar vinho naquela noite e que tinha que trabalhar no dia seguinte, mas Spider o interrompeu. — É a sua vez de fazer um brinde.

— Ahm. Certo. À nossa mãe.

Beberam à memória da mãe. Fat Charlie percebeu que começava a apreciar o gosto amargo do vinho. Sentia os olhos ardendo, e uma sensação de perda, profunda e dolorosa, apoderou-se dele. Sentiu falta de sua mãe. Sentiu saudades da infância. Até sentiu saudades do pai. Do outro lado da mesa, Spider balançava a cabeça. Uma lágrima correu por seu rosto e caiu no vinho. Ele pegou a garrafa e serviu mais vinho para ambos.

Fat Charlie bebeu.

A tristeza apoderou-se dele enquanto bebia, enchendo sua cabeça e seu corpo com o sentimento de perda e com a dor da ausência, engolfando-o como ondas no oceano.

Suas próprias lágrimas corriam pela face, caindo no vinho. Procurou um lenço nos bolsos. Spider serviu o restante do vinho para ambos.

— Eles vendem mesmo esse vinho aqui?

— Eles tinham uma garrafa, mas não sabiam que tinham. Eles só precisavam de alguém que os lembrasse.

Fat Charlie assoou o nariz.

— Eu nunca soube que tinha um irmão.

— Eu sabia — respondeu Spider. — Eu sempre quis procurar você, mas me distraí com outras coisas. Sabe como é.

— Acho que não sei.

— As coisas me impediam.

— Que tipo de coisas?

— Coisas. Elas surgiam. E o que as coisas fazem. Elas surgem. Não é justo que eu seja obrigado a ter o controle de todas elas.

— Ora, me dê um exemplo.

Spider bebeu um pouco mais.

— Está bem. Da última vez que decidi que a gente devia se encontrar, passei dias planejando. Queria que tudo saísse perfeito. Escolhi as roupas que usaria. Depois tive que decidir o que dizer a você quando nos encontrássemos. O encontro de dois irmãos costuma ser assunto de histórias épicas, certo? Decidi que a única maneira de tratar o assunto com a seriedade que ele exigia seria com versos. Mas que tipo de versos? Devo cantar como um rap? Devo declamá-los? Quer dizer, claro que não ia cumprimentar você com uma riminha boba. Então. Precisava ser algo sombrio, poderoso, ritmado, épico. E então consegui pensar numa coisa. O primeiro verso, perfeito: O sangue clama pelo sangue como sereias clamam no escuro. Ele diz muita coisa. Eu sabia que conseguiria colocar tudo em versos. As pessoas morrendo em vielas, o suor, os pesadelos, o poder invencível dos espíritos livres. Tudo caberia ali. Então eu tinha que inventar um segundo verso, e a coisa toda ruiu. O melhor que eu consegui foi Pã-parã-papã-parã-papã quase caiu duro.

Fat Charlie piscou.

— Mas quem é Pá-parã-papã-parã-papã?

— Não é ninguém. Só está aí para mostrar aonde vão as palavras. Mas eu nunca fui além disso, e não podia aparecer apenas com um único verso inicial, uns parã-pãs e três palavras de um poema épico, certo? Seria um acinte.

— É...

— Pois é. Então eu tirei uma semana de folga e fui pro Havaí.

Como eu disse, as coisas apareciam.

Fat Charlie bebeu mais vinho. Estava começando a gostar. Às vezes os gostos mais fortes caem bem com emoções fortes, e essa era uma dessas ocasiões.

— Mas nem sempre havia um segundo verso de poema épico para impedir você — observou Fat Charlie.

Spider colocou sua mão delgada sobre a grande mão de Fat Charlie.

— Chega de falar sobre mim. Vamos falar de você.

— Não há muito o que dizer. — Contou ao irmão sobre sua vida. Sobre Rosie e a mãe dela, sobre Grahame Coats e a Agência Grahame Coats, e seu irmão assentia com a cabeça. Agora que Fat Charlie colocava tudo em palavras, não parecia uma vida muito excitante. — Mesmo assim — complementou com ar filosófico —, existem aquelas pessoas que aparecem nas páginas de fofocas dos jornais. E elas sempre dizem o quanto sua vida é chata, vazia e sem sentido.

Segurou a garrafa de vinho sobre sua taça, na esperança de que houvesse pelo menos o suficiente para mais um gole, mas não havia nem uma gota. A garrafa estava vazia. Havia durado mais do que se poderia esperar de uma garrafa, mas agora não havia mais nada.

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