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Os Filhos de Anansi

Электронная книга - «Os Filhos de Anansi». Краткое содержание книги:

Os Filhos de Anansi, obra prima que estreiou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. O livro conta a história de Fat Charlie, um tímido americano que escolheu ter uma vida pacata e sem-graça como contador numa empresa londrina. Ao ir ao funeral de seu pai, Sr. Nancy, Fat Charlie ouve uma velhinha, amiga do pai há anos, dizer que ele na verdade era o deus Anansi, uma divindade trapaceira e brincalhona da mitologia africana. A partir desse episódio, sua vida vira de cabeça para baixo. Os Filhos de Anansi mistura mitologia com toques xamanistas, elementos do folclore afro-americano e uma deliciosa descrição do mundo interior de um homem muito tímido mas, acima de tudo é uma história sobre algo bastante comum: as conturbadas relações entre pais e filhos.Tudo isso envolto num humor discreto capaz de fazer o leitor rir com uma única linha. A obra é a continuação do consagrado escritor Neil Gaiman para sua saga a respeito de deuses modernos.
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— Que seja.

Fat Charlie começava a se sentir humano de novo. Não sentia mais dor. Não sentia mais ondas lentas de náusea tomando conta dele. Embora ainda não estivesse convencido de que o mundo era um lugar bom e alegre, não se sentia mais no nono círculo do inferno da ressaca, e isso era bom.

Daisy tinha ido ao banheiro. Ele ouviu as torneiras abertas e barulho de água espirrando.

Bateu na porta do banheiro.

— Eu estou aqui — respondeu Daisy. — Estou tomando banho.

— Eu sei. Quer dizer, não sabia, mas pensei que você provavelmente estava aí.

— Pode falar.

— Eu estava pensando.. — começou, do outro lado da porta. — Por que você voltou com a gente? Na noite passada.

— Bom. Você estava meio mal. E o seu irmão parecia precisar de ajuda. Hoje de manhã eu não trabalho. Então, voilà.

— Voilà — repetiu Fat Charlie. Por um lado, ela sentia pena dele. Por outro, realmente gostava de Spider.

Sim. Fat Charlie tinha um irmão havia apenas pouco mais de um dia e já achava que sua nova relação familiar lhe traria muitas surpresas. Spider era o sujeito descolado. Ele era o outro.

Então ela disse:

— Você tem uma voz fantástica.

— Quê?

— Você cantou no táxi, no caminho pra casa. “Unforgettable”. Foi lindo.

De algum modo, tinha colocado de lado o incidente do karaokê em sua mente, deixando-o encostado num lugar bem escuro, onde estão as coisas inconvenientes de que nos desfazemos. Agora o incidente tinha voltado, e ele não queria pensar naquilo.

— Você foi ótimo. Você canta pra mim mais tarde?

Fat Charlie tentou pensar desesperadamente em algo, mas foi salvo pela campainha.

— Vou ver quem está na porta.

Ele desceu as escadas e abriu a porta, e as coisas pioraram. A mãe de Rosie olhou para ele com um olhar capaz de azedar leite. Não disse nada. Segurava um grande envelope branco.

— Olá — disse Fat Charlie. — Sra. Noah. Bom vê-la. Ahm.

Ela fungou e segurou o envelope.

— Ah. Você está em casa. Então. Você não vai me convidar para entrar?

“Certo”, pensou Fat Charlie. “Gente do seu tipo sempre precisa ser convidada. Basta dizer não, e ela vai embora.”

— Claro, Sra. Noah. Por favor, entre. — “Então é assim que fazem os vampiros.” — Gostaria de uma xícara de chá?

— Não pense que pode me adular desse jeito. Porque você não pode.

— Ahm. Certo.

Subiram as escadas estreitas e entraram na cozinha. A mãe de Rosie olhava em volta e fazia uma cara que indicava que o lugar não se encaixava em seu padrão de higiene, já que continha comida.

— Café? Água? — “Não diga fruta de cera.” — Fruta de cera? — “Droga.”

— Rosie me disse que seu pai faleceu recentemente.

— Sim, é verdade.

— Quando o pai de Rosie faleceu, fizeram um obituário de quatro páginas na Cooks and’Cookery. Disseram que ele foi o único responsável pela chegada da comida caribenha neste país.

— Ah.

— Ele não me deixou em má situação. Tinha seguro de vida e era sócio de dois restaurantes famosos. Sou uma mulher rica. Quando eu morrer, irá tudo para Rosie.

— Quando a gente se casar, eu cuidarei dela. Não se preocupe.

— Eu não estou dizendo que você quer se casar com ela pelo dinheiro — observou a mãe de Rosie num tom de voz que deixava claro que isso era exatamente o que pensava.

A dor de cabeça de Fat Charlie ameaçava voltar.

— Sra. Noah, como posso ajudá-la?

— Eu conversei com a Rosie, e nós decidimos que vou ajudar vocês com o planejamento do casamento — explicou de um jeito afetado. — Preciso da sua lista de convidados. Aqueles que você planeja convidar. Nome, endereço, e-mail, telefone. Fiz um formulário para você preencher. Pensei que seria bom economizar o dinheiro dos correios e entregar pessoalmente, já que eu ia até Maxwell Gardens de qualquer jeito. Não esperava encontrá-lo em casa. — Ela deu o grande envelope branco para ele. — Haverá um total de 90 pessoas no casamento. Você tem permissão para convidar oito parentes e seis amigos próximos. Os amigos e quatro parentes ficarão na mesa H. O resto do grupo ficará na mesa C. O seu pai se sentaria conosco na mesa principal, mas, já que ele faleceu, nós cedemos o lugar para a tia Winifred, tia de Rosie. Você já decidiu quem será seu padrinho?

Fat Charlie fez que não com a cabeça.

— Bom, quando decidir, certifique-se de que ele não diga nada obsceno em seu discurso. Não quero ouvir nada no discurso do padrinho que não possa ser dito numa igreja. Você entendeu?

Fat Charlie imaginou o que a mãe de Rosie costumava ouvir na igreja. Talvez somente gritos de “Para trás! Criatura horrível dos infernos!”, seguidos de exclamações como “Está viva ou morta?” e de certo nervosismo por não saberem se alguém se lembrara de trazer uma estaca e um martelo.

— Acho que tenho mais de dez parentes. Quer dizer, tem os primos, as tias-avós, coisas assim.

— O que você obviamente é incapaz de compreender — começou a mãe de Rosie — é que um casamento custa dinheiro. Eu reservei 175 libras por pessoa, das mesas A a D, sendo que a mesa A é a principal, na qual ficam os parentes mais próximos de Rosie e minhas colegas do clube, e 125 libras para as mesas E até G, que acomodarão, você sabe, conhecidos, crianças e assim por diante.

— A senhora disse que meus amigos ficariam na mesa H.

— É a escala seguinte. Eles não terão petiscos de camarão com abacate ou a sobremesa.

— Quando a Rosie e eu falamos sobre isso da última vez, pensamos em fazer algo como um bufê com comida indiana.

A mãe de Rosie fungou.

— Ela às vezes não sabe o que pensa, aquela menina. Mas agora nós estamos de pleno acordo.

— Escuta. Talvez eu devesse falar com ela e depois voltar a falar com a senhora.

— Só preencha o formulário — disse a mãe de Rosie. Então ela perguntou, desconfiada: — Por que você não foi trabalhar?

— Eu. Ahm. Eu não estou. Digo, não estou trabalhando esta manhã. Não vou hoje. Não. É.

— Espero que você tenha avisado a Rosie. Ela planejava vê-lo na hora do almoço, foi o que me disse. Por isso não pôde almoçar comigo.

Fat Charlie processou a informação.

— Certo. Bom, obrigado pela visita, Sra. Noah. Vou conversar com a Rosie e...

Daisy entrou na cozinha. Usava uma toalha na cabeça e o robe de Fat Charlie grudado em seu corpo úmido. E perguntou:

— Você tem suco de laranja aí, né? Eu acho que vi suco quando estava procurando as outras coisas. Como está a sua cabeça? Melhorou?

Ela abriu a porta da geladeira e pegou um grande copo de suco de laranja.

A mãe de Rosie limpou a garganta. Não era o barulho de alguém limpando a garganta. Era mais o som de alguém pisando em cascalho.

— Oi — cumprimentou Daisy. — Eu sou Daisy.

A temperatura na cozinha começou a cair.

— Ah, é? — respondeu a mãe de Rosie. Havia pingentes de gelo pendurados no “é”.

— Imagino que nome teriam dado às laranjas — interrompeu Fat Charlie para quebrar o silêncio — se não fossem laranjas. Quer dizer, se fossem alguma fruta azul desconhecida, será que teriam sido chamadas de azuis? Será que a gente beberia suco de azul?

— Quê? — perguntou a mãe de Rosie.

— Caramba. Você diz cada maluquice — comentou Daisy, alegre. — Certo. Vou ver se acho as minhas roupas. Foi ótimo ver você.

Ela saiu. Fat Charlie continuava a prender a respiração.

— Quem. É. Ela — perguntou a mãe de Rosie, perfeitamente calma.

— Minha irm.... prima. Minha prima — respondeu Fat Charlie. — E que eu a considero uma irmã. A gente era muito próximo na infância. Ela decidiu vir para cá na noite passada. É meio maluquinha. Bom. Sim. Ela vai aparecer no casamento.

— Eu a colocarei na mesa H — observou a mãe de Rosie. — Ela se sentirá mais confortável lá.

Ela falou a última frase da mesma maneira como alguém diria algo como “Você quer uma morte rápida e piedosa ou prefere que o meu capanga se divirta um pouco antes?”

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