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Os Filhos de Anansi

Электронная книга - «Os Filhos de Anansi». Краткое содержание книги:

Os Filhos de Anansi, obra prima que estreiou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. O livro conta a história de Fat Charlie, um tímido americano que escolheu ter uma vida pacata e sem-graça como contador numa empresa londrina. Ao ir ao funeral de seu pai, Sr. Nancy, Fat Charlie ouve uma velhinha, amiga do pai há anos, dizer que ele na verdade era o deus Anansi, uma divindade trapaceira e brincalhona da mitologia africana. A partir desse episódio, sua vida vira de cabeça para baixo. Os Filhos de Anansi mistura mitologia com toques xamanistas, elementos do folclore afro-americano e uma deliciosa descrição do mundo interior de um homem muito tímido mas, acima de tudo é uma história sobre algo bastante comum: as conturbadas relações entre pais e filhos.Tudo isso envolto num humor discreto capaz de fazer o leitor rir com uma única linha. A obra é a continuação do consagrado escritor Neil Gaiman para sua saga a respeito de deuses modernos.
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E então a campainha tocou.

Fat Charlie colocou seu robe e desceu as escadas.

Nunca havia usado a corrente de segurança antes de abrir a porta, jamais em toda a vida, mas antes de girar a maçaneta colocou a corrente no lugar e só abriu uma fresta de uns 15 centímetros.

— Bom dia — cumprimentou, inseguro.

O sorriso que aparecia na fresta da porta seria capaz de iluminar uma cidade inteira.

— Você me chamou e eu vim — disse o estranho. — E então? Não vai abrir a porta para mim, Fat Charlie?

— Quem é você?

Enquanto dizia a frase, se deu conta de onde vira aquele homem antes: no funeral de sua mãe, na pequena capela do crematório. Foi a última vez que vira aquele sorriso. E sabia qual era a resposta para sua pergunta mesmo antes de obter uma resposta.

— Sou o seu irmão — informou o homem.

Fat Charlie fechou a porta. Tirou a corrente e escancarou a porta. O homem ainda estava ali.

Fat Charlie não tinha muita certeza sobre como cumprimentar um irmão potencialmente imaginário, em cuja existência tinha se recusado a acreditar. Eles ficaram ali, de pé, um de um lado da porta, o outro do outro, até que seu irmão disse:

— Você pode me chamar de Spider. Não vai me convidar para entrar?

— Sim. Vou. Claro. Por favor. Entre.

Fat Charlie levou o homem para o andar de cima.

Coisas impossíveis acontecem. Quando acontecem, a maioria das pessoas simplesmente dá um jeito de lidar com elas. Hoje, como em todos os outros dias, mais ou menos 5 mil pessoas sobre a face da Terra experimentarão uma dessas coisas que têm uma chance em um milhão de acontecer. Nenhuma delas se recusará a acreditar no que seus sentidos lhes dizem. A maioria dirá o equivalente à frase (em sua própria língua): “Que mundo estranho, não é?”; e seguirá adiante. Embora uma parte de Fat Charlie tentasse imaginar uma explicação lógica, sensata e racional para o que estava acontecendo, a maior parte dele simplesmente se acostumava com a idéia de que um irmão que ele não conhecia estava atrás dele subindo a escada para o andar de cima. Chegaram à cozinha e lá ficaram.

— Aceita um chá?

— Você tem café?

— Só instantâneo, infelizmente.

— Tudo bem.

Fat Charlie pôs a chaleira no fogo.

— Você vem de longe então? — perguntou.

— De Los Angeles.

— Como foi o vôo?

O homem sentou-se à mesa da cozinha. Deu de ombros. Era o tipo de dar de ombros que poderia significar qualquer coisa.

— Ahm. Você planeja ficar muito tempo?

— Não pensei muito nisso ainda.

O homem — Spider — examinava a cozinha de Fat Charlie como se nunca tivesse visto uma cozinha na vida.

— Como você toma o seu café?

— Negro como a noite, doce como o pecado.

Fat Charlie colocou a caneca diante do homem e ofereceu-lhe o açucareiro.

— Sirva-se à vontade.

Enquanto Spider colocava colher após colher de açúcar em seu café, Fat Charlie ficou sentado do lado oposto da mesa, observando-o.

Havia certa semelhança entre os dois homens. Isso era indiscutível, embora não explicasse a intensa sensação de familiaridade que Fat Charlie sentia ao ver Spider. Seu irmão tinha a aparência que ele gostava de imaginar que teria, se não visse no espelho do banheiro com monótona regularidade um sujeito com uma aparência que deixava um tanto a desejar. Spider era mais alto, mais magro, mais interessante. Usava uma jaqueta de couro preta e vermelha e calças de couro pretas, e parecia sentir-se confortável nelas. Fat Charlie tentou se lembrar se o sujeito descolado estava vestido assim no sonho. Havia algo sobrenatural nele: simplesmente estar do outro lado da mesa, diante desse homem, fazia Fat Charlie se sentir esquisito, desajeitado e um tanto tolo. Não eram as roupas que Spider usava, e sim saber que se ele, Fat Charlie, as vestisse, pareceria alguém usando um disfarce não convincente. Não era o sorriso de Spider — um sorriso casual, alegre —, e sim a fria e incontornável certeza de que ele, Fat Charlie, poderia treinar sorrir na frente do espelho até o fim dos tempos que nunca conseguiria sorrir de um jeito tão encantador, tão confiante, tão espetacularmente afável.

— Você foi à cremação da mamãe — disse Fat Charlie.

— Eu pensei em falar com você depois do velório. Mas não sabia se era uma boa idéia.

— Teria sido uma boa idéia. — Fat Charlie se lembrou de alguma coisa. — Achei que você iria também ao funeral do nosso pai.

— Quê?

— O funeral dele. Na Flórida. Uns dois dias atrás.

Spider balançou a cabeça.

— Ele não está morto. Tenho certeza de que eu saberia caso ele estivesse.

— Ele morreu. Eu o enterrei. Quer dizer, enchi a cova de terra. Pergunte à Sra. Higgler.

— Como ele morreu?

— Ataque do coração.

— Isso não quer dizer nada. Só significa que ele morreu.

— Bom, pois é isso. Ele morreu.

Spider parou de sorrir. Agora olhava fixamente para seu café, como se pensasse que poderia achar uma resposta ali.

— Vou precisar verificar isso. Não é que eu não acredite em você. Mas quando se trata do próprio pai... Mesmo quando o seu pai é o meu pai. — Ele fez uma careta. Fat Charlie sabia o que aquela careta significava. Ele mesmo a fazia, internamente, diversas vezes, quando alguém falava sobre seu pai.

— Ela ainda mora no mesmo lugar? Na casa ao lado da nossa casa antiga? — perguntou Spider.

— A Sra. Higgler? Sim. Ainda está lá.

— Você por acaso teria alguma foto de lá? Um retrato?

— Eu trouxe uma caixa cheia.

Fat Charlie ainda não havia aberto a enorme caixa de papelão. Estava no hall de entrada. Levou a caixa para a cozinha e a colocou sobre a mesa. Pegou uma faca de cozinha e cortou a fita adesiva. Spider colocou as mãos de dedos finos dentro da caixa, mexendo nas fotografias como se fossem cartas de baralho, até que puxou uma foto de sua mãe e da Sra. Higgler sentadas na varanda da casa da antiga vizinha. Uma foto de 25 anos antes.

— Essa varanda ainda existe?

Fat Charlie tentou se lembrar.

— Acho que sim.

Mais tarde, ele não conseguia lembrar se a foto cresceu ou se Spider diminuiu. Poderia jurar que nenhuma dessas coisas aconteceu realmente. Apesar disso, era um fato indiscutível que Spider entrou na fotografia, cuja superfície brilhava e fazia ondas como se fosse líquida e acabou por engoli-lo.

Fat Charlie esfregou os olhos. Estava sozinho em sua cozinha, às seis da manhã. Havia uma caixa cheia de fotografias e papéis sobre a mesa, e uma caneca vazia, que ele colocou dentro da pia.

Caminhou pelo corredor até seu quarto, deitou-se em sua cama e dormiu até o despertador acordá-lo, às 7h15.

4

Cujo desfecho é uma noite com vinho, mulheres e música

Fat Charlie acordou. Memórias de um sonho em que encontrava um irmão que era astro de cinema se misturavam com as de um sonho em que o presidente Taft fazia uma visita e virava seu hóspede, trazendo com ele todos os personagens do desenho animado do Tom e Jerry. Tomou uma chuveirada e pegou o metrô para o trabalho.

Durante todo o expediente, algo em sua mente o incomodava, mas ele não sabia o que era. Colocava coisas em lugares errados, esquecia de outras. Em certo ponto, começou a cantar em sua mesa, não porque estivesse feliz, mas porque se esquecera de não cantar. Só se deu conta do que fazia quando o próprio Grahame Coats colocou a cabeça dentro do escritório para repreendê-lo.

— Nada de rádios, walkmans, MP3 players ou objetos musicais desse tipo aqui no escritório — disse Grahame Coats, com seu olhar fixo e raivoso de furão. — Eles remetem a uma atitude preguiçosa, considerada abominável no mundo dos negócios.

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