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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Há notícias de minha irmã? – perguntou.

– Ela está bem. Assim como o seu... sobrinho. – Bolton fez uma pausa antes de dizer sobrinho, uma pausa que significava eu sei. – Seu irmão também está vivo, embora tenha sido ferido na batalha. – Fez um sinal para um severo nortenho vestido com uma brigantina tachonada. – Leve Sor Jaime a Qyburn. E desamarre as mãos desta mulher. – Quando a corda entre os pulsos de Brienne foi cortada em duas, disse: – Peço as suas desculpas, senhora. Em tempos conturbados assim, é difícil distinguir os amigos dos inimigos.

Brienne esfregou a parte de dentro do pulso, onde o cânhamo esfolara sua pele.

– Senhor, estes homens tentaram me estuprar.

– Ah, é? – Lorde Bolton virou os olhos claros para Vargo Hoat. – Estou descontente. Por isso, e por esse assunto da mão de Sor Jaime.

No pátio havia cinco nortenhos e outros tantos Frey para cada Bravo Companheiro. O bode podia não ser tão inteligente como alguns, mas pelo menos sabia contar até cinco. Manteve-se em silêncio.

– Eles ficaram com a minha espada – disse Brienne –, a minha armadura...

– Não precisará de armadura aqui, senhora – disse-lhe Lorde Bolton. – Em Harrenhal, está sob a minha proteção. Amabel, arranje quartos adequados para a Senhora Brienne. Walton, você vai cuidar imediatamente de Sor Jaime. – Não esperou resposta, virou-se e subiu os degraus, fazendo o manto debruado de peles rodopiar. Jaime teve apenas tempo suficiente para trocar um rápido olhar com Brienne antes de serem levados dali, cada um para seu lado.

Nos aposentos do meistre, por baixo da colônia de corvos, um homem grisalho de ar paternal chamado Qyburn prendeu a respiração quando retirou o linho do toco da mão de Jaime.

– Está assim tão ruim? Vou morrer?

Qyburn enfiou um dedo no ferimento, e torceu o nariz com o jorro de pus.

– Não. Se bem que mais alguns dias... – Cortou a manga de Jaime. – A putrefação espalhou-se. Vê como a carne está mole? Tenho de cortar isto tudo. A coisa mais certa a fazer seria cortar o braço inteiro.

– Se fizer isso, quem morre é você – prometeu Jaime. – Limpe o coto e dê os pontos. Eu corro os meus riscos.

Qyburn franziu a testa.

– Posso deixar o braço superior, cortar pelo cotovelo, mas...

– Se me cortar algum pedaço do braço é melhor que corte o outro também, senão estrangulo-o com ele mais tarde.

Qyburn olhou-o nos olhos. O que quer que tenha visto neles fez com que refletisse cuidadosamente.

– Muito bem. Vou cortar a carne apodrecida, nada mais. Tentarei afastar a putrefação com vinho fervente e um cataplasma de urtigas, sementes de mostarda e bolor de pão. Isso talvez seja suficiente. É sobre a sua cabeça que pesa. Vai querer leite de papoula...

– Não. – Jaime não se atrevia a deixar que o adormecessem; podia ter um braço a menos quando acordasse, não importa o que o homem dissesse.

Qyburn ficou surpreso.

– Vai doer.

– Gritarei.

– Doer muito.

– Gritarei muito alto.

– Vai beber algum vinho, ao menos?

– O Alto Septão reza?

– Quanto a isso, não tenho certeza. Trarei o vinho. Deite-se, que tenho de amarrar seu braço.

Com uma bacia e uma lâmina afiada, Qyburn limpou o coto enquanto Jaime emborcava vinho-forte, babando-se todo enquanto ingeria. A mão esquerda não parecia saber como encontrar sua boca, mas havia uma vantagem nisso. O cheiro de vinho na barba encharcada ajudava a disfarçar o fedor do pus.

Nada ajudou quando chegou o momento de desbastar a carne apodrecida. Jaime gritou e esmurrou a mesa com o punho bom, uma vez e mais outra. Voltou a gritar quando Qyburn despejou vinho fervendo sobre o que restava do coto. Apesar de todas as suas promessas e de todos os seus temores, perdeu os sentidos durante algum tempo. Quando acordou, o meistre estava costurando seu braço com uma agulha e tripa de gato.

– Deixei uma dobra de pele para tapar o pulso.

– Você já fez isso antes – murmurou Jaime numa voz fraca. Sentia o gosto do sangue na boca, onde havia mordido a língua.

– Cotos não são estranhos a nenhum homem que sirva com Vargo Hoat. Ele cria cotos onde quer que vá.

Jaime pensou que Qyburn não parecia um monstro. Era gentil, falava suavemente e tinha uns olhos castanhos calorosos.

– Como é que um meistre acaba na companhia dos Bravos Companheiros?

– A Cidadela tirou a corrente de mim. – Qyburn pôs a agulha de lado. – Também devia fazer alguma coisa com essa ferida acima do olho. A carne está muito inflamada.

Jaime fechou os olhos e deixou que o vinho e Qyburn fizessem seu trabalho.

– Fale-me da batalha. – Na qualidade de cuidador dos corvos de Harrenhal, Qyburn teria sido o primeiro a saber das novidades.

– Lorde Stannis foi pego entre o seu pai e o fogo. Dizem que o Duende incendiou o rio.

Jaime imaginou chamas verdes subindo ao céu, mais altas do que as torres mais altas, enquanto homens em chamas gritavam nas ruas. Já tinha sonhado esse sonho. Era quase engraçado, mas não havia ninguém com quem dividir a piada.

– Abra o olho. – Qyburn ensopou um pano em água morna e limpou com pequenas pancadas a crosta de sangue seco. A pálpebra estava inchada, mas Jaime descobriu que conseguia forçá-la a abrir até a metade. O rosto de Qyburn erguia-se por cima dele. – Como foi que arranjou esta? – perguntou o meistre.

– Presente de uma garota.

– Namoro violento, senhor?

– Essa garota é maior do que eu e mais feia do que você. Também devia tratar dela. Ainda manca da perna que eu feri quando lutamos.

– Perguntarei por ela. O que essa mulher é de você?

– A minha protetora. – Jaime teve de rir, por mais que doesse.

– Vou triturar umas ervas que poderá misturar com o vinho para baixar sua febre. Volte amanhã, e colocarei uma sanguessuga na sua pálpebra para drenar o sangue ruim.

– Uma sanguessuga. Lindo.

– Lorde Bolton gosta muito de sanguessugas – disse Qyburn com um ar afetado.

– Sim – disse Jaime. – Deve gostar.

TYRION

Nada restava para lá do Portão do Rei além de lama, cinzas e pedaços de osso queimado, mas já havia pessoas vivendo à sombra das muralhas da cidade, e outras vendendo peixe em cima de carrinhos de mão e barris. Tyrion sentiu os olhos deles postos em si quando passou; olhos frios, zangados e sem compaixão. Ninguém se atrevia a falar com ele, ou a tentar barrar seu caminho; pelo menos enquanto tivesse Bronn ao seu lado, vestindo cota de malha negra oleada. Mas se estivesse sozinho, arrancariam-me do cavalo e esmagariam minha cara com uma pedra da calçada, como fizeram com Preston Greenfield.

– Voltam mais depressa do que ratazanas – queixou-se. – Queimamos tudo que tinham uma vez, era de esperar que pudessem ver nisso uma lição.

– Dê-me umas dúzias de mantos dourados, e mato todos – disse Bronn. – Depois de mortos, não voltam.

– Não, mas vêm outros para o lugar deles. Deixe-os estar... mas se começarem outra vez a encostar barracas na muralha, derrube-as imediatamente. A guerra ainda não acabou, não importa o que esses idiotas pensem. – Olhou o Portão da Lama, mais adiante. – Já vi o suficiente por ora. Voltamos amanhã com os mestres da guilda, para rever seus planos. – Suspirou. Bem, queimei a maior parte disso, suponho que seja apenas justo que o reconstrua.

Essa tarefa devia ter sido do tio, mas o sólido, firme e incansável Sor Kevan Lannister não era o mesmo desde que o corvo chegara de Correrrio com a notícia do assassinato do filho. O gêmeo de Willem, Martyn, também fora capturado por Robb Stark, e o irmão mais velho de ambos, Lancel, continuava preso ao leito, atormentado por uma ferida ulcerada que não queria cicatrizar. Com um filho morto e outros dois em perigo mortal, Sor Kevan andava consumido pelo pesar e pelo medo. Lorde Tywin sempre dependera do irmão, mas agora não tinha opção exceto virar-se de novo para o filho anão.

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