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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Um donzelo – brincou ela. – Era um donzelo.

Ele deu-lhe um beliscão brincalhão no mamilo mais próximo.

– Eu era um homem da Patrulha da Noite. – Era, ouviu-se dizer. O que seria agora? Não queria debruçar-se sobre esse assunto. – Você era donzela?

Ygritte apoiou-se num cotovelo.

– Tenho dezenove anos, sou uma esposa de lanças e beijada pelo fogo. Como poderia ser donzela?

– Quem foi?

– Um rapaz numa festa, há cinco anos. Tinha vindo comerciar, com os irmãos, e seus cabelos eram como os meus, beijados pelo fogo, por isso pensei que ele devia ter sorte. Mas era fraco. Quando voltou pra me raptar, o Lança-Longa quebrou o braço dele e botou-o para correr, e ele não voltou a tentar, nem uma vez.

– Então não foi o Lança-Longa? – Jon estava aliviado. Gostava do Lança-Longa, com seu rosto simples e modos amigáveis.

Ela esmurrou-o.

– Isso é nojento. Você se deitaria com a sua irmã?

– Lança-Longa não é seu irmão.

– É da minha aldeia. Não sabe nada, Jon Snow. Um homem de verdade rapta uma mulher de longe, pra fortalecer o clã. As mulheres que se deitam com irmãos, pais ou gente do clã ofendem os deuses e são amaldiçoadas com filhos fracos ou doentes. Ou até monstros.

– Craster casa com as próprias filhas – destacou Jon.

Ela voltou a esmurrá-lo.

– Craster é mais da sua gente do que da nossa. O pai dele era um corvo que raptou uma mulher da aldeia de Brancarbor, mas depois de tê-la, voou de volta pra sua Muralha. Uma vez, ela foi a Castelo Negro pra mostrar o filho ao corvo, mas os irmãos sopraram seus berrantes e botaram a mulher pra correr. O sangue do Craster é preto, e ele carrega uma pesada maldição. – Passou os dedos levemente pela barriga dele. –Antes tinha medo de que você fizesse o mesmo. Que fugisse de volta pra Muralha. Você nunca soube o que fazer depois de me raptar.

Jon sentou-se.

– Ygritte, eu não raptei você.

– Raptou, sim. Saltou da montanha e matou o Orell, e antes de eu conseguir chegar ao machado tinha uma faca encostada na minha garganta. Pensei que você ia me possuir naquela hora, ou me matar, ou talvez as duas coisas, mas não. E quando lhe contei a história do Bael, o Bardo, e do modo como ele colheu a rosa de Winterfell, imaginei que ia me colher com certeza na hora, mas não. Não sabe nada, Jon Snow. – Dirigiu-lhe um sorriso acanhado. – Mas pode ser que ande aprendendo umas coisas.

De repente, Jon reparou que a luz oscilava em volta de Ygritte. Olhou ao redor.

– É melhor subirmos. A tocha está quase no fim.

– O corvo tá com medo dos filhos de Gendel? – disse ela, com um sorriso. – É rapidinho pra chegar lá em cima, e eu ainda não acabei o que queria fazer com você, Jon Snow. – Voltou a puxá-lo para baixo e montou nele. – Não quer... – Hesitou.

– O quê? – perguntou ele, enquanto a tocha começava a se apagar.

– Fazer aquilo de novo? – disse Ygritte, muito depressa. – Com a boca? O beijo do senhor? E eu... eu podia ver se você também gosta.

Quando a tocha se extinguiu, Jon Snow já não se importou.

A culpa chegou mais tarde, mas mais fraca do que antes. Se isso é assim tão errado, pensou, por que os deuses fizeram com que desse uma sensação tão boa?

A gruta estava negra como breu quando terminaram. A única luz era o tênue brilho da passagem de volta à caverna maior, onde ardiam vinte fogueiras. Pouco depois andavam tateando e esbarrando um no outro enquanto tentavam se vestir no escuro. Ygritte tropeçou e caiu na lagoa, e soltou um grito devido à água gelada. Quando Jon riu, ela puxou-o também para dentro. Lutaram e espirraram água na escuridão, e então ela acabou de novo nos braços dele, e descobriram que, afinal, ainda não tinham terminado.

– Jon Snow – disse-lhe Ygritte, depois de ele gastar a sua semente dentro dela –, não se mexa agora, querido. Gosto de sentir você aí, gosto mesmo. E se a gente não voltasse pra junto do Styr e do Jarl? E se fôssemos pra dentro, pra nos juntarmos aos filhos de Gendel? Nunca mais quero sair desta gruta, Jon Snow. Nunca mais.

DAENERYS

–Todos? – a jovem escrava soava cautelosa. – Vossa Graça, os ouvidos sem valor desta ouviram-na mal?

Uma luz fresca e verde filtrava-se pelos painéis de vidro colorido em forma de diamante montados nas paredes triangulares e inclinadas, e uma brisa soprava suavemente pelas portas do terraço, trazendo do jardim que nele crescia o cheiro de frutos e flores.

– Seus ouvidos ouviram bem – disse Dany. – Quero comprar todos. Diga isso aos Bons Mestres, por favor.

Naquele dia, havia escolhido um vestido qarteno. A seda de um tom profundo de violeta realçava a cor púrpura de seus olhos. O corte desnudava seu seio esquerdo. Enquanto os Bons Mestres de Astapor conferenciavam entre si em voz baixa, Dany bebericou vinho ácido de caqui de uma taça alta de prata. Não conseguia compreender tudo que eles estavam dizendo, mas ouvia a avidez.

Cada um dos oito negociantes era servido por dois ou três escravos pessoais... embora um Grazdan, o mais velho, tivesse seis. Para não parecer uma pedinte, Dany tinha trazido seus próprios servidores; Irri e Jhiqui, com suas calças de sedareia e coletes pintados, o velho Barba-Branca e o poderoso Belwas, e seus companheiros de sangue. Sor Jorah encontrava-se atrás dela, sufocando em seu sobretudo verde com o urso negro de Mormont bordado. O cheiro do suor do cavaleiro era uma resposta terrena aos doces perfumes que ensopavam os astapori.

– Todos – rosnou Kraznys mo Nakloz, que naquele dia cheirava a pêssegos. A jovem escrava repetiu a palavra no Idioma Comum de Westeros. – Milhares, temos oito. É isso que ela quer dizer com todos? Há também seis centenas, que farão parte de um nono milhar quando completas. Também as quer?

– Quero – disse Dany quando a questão lhe foi colocada. – Os oito milhares, as seis centenas... e também os que ainda estão em treinamento. Aqueles que não conquistaram os espigões.

Kraznys voltou a se virar para os seus companheiros. De novo conferenciaram entre si. A tradutora tinha dito a Dany seus nomes, mas era difícil guardá-los. Quatro dos homens pareciam se chamar Grazdan, presumivelmente em honra de Grazdan, o Grande, que fundara a Velha Ghis na aurora dos tempos. Todos eram parecidos; homens fortes e carnudos, com pele ambarina, nariz largo e olhos escuros. Seus cabelos hirsutos eram negros, ou de um vermelho-escuro, ou daquela estranha mistura de vermelho e negro que era característica dos ghiscari. Todos se enrolavam em tokars, uma vestimenta que só era autorizada aos homens livres de Astapor.

O Capitão Groleo tinha dito a Dany que era o debrum do tokar que proclamava o estatuto de um homem. Naquela fresca sala verde no topo da pirâmide, dois dos negociantes de escravos usavam tokars debruados de ouro, e um deles, o Grazdan mais velho, exibia um debrum de grandes pérolas brancas que chocalhavam levemente quando ele se mexia no assento ou movimentava um braço.

– Não podemos vender rapazes meio treinados – um dos Grazdan vestido em debrum de prata dizia aos outros.

– Podemos, se o ouro dela for bom – disse um homem mais gordo, cujo debrum era de ouro.

– Eles não são Imaculados. Não mataram seus bebês. Se falharem no campo de batalha, vão nos envergonhar. E mesmo se cortarmos cinco mil garotos crus amanhã, vão se passar dez anos até que estejam prontos para serem vendidos. O que diremos ao próximo comprador que vier em busca de Imaculados?

– Diremos que precisa esperar – disse o gordo. – Ouro na minha bolsa é melhor do que ouro no meu futuro.

Dany deixou-os discutir, bebericando do vinho ácido de caqui e tentando manter o rosto sem expressão, como se não entendesse nada do que diziam. Terei todos, seja qual for o preço, disse a si própria. A cidade tinha uma centena de negociantes de escravos, mas os oito que se encontravam diante dela eram os maiores. Quando vendiam escravos sexuais, trabalhadores rurais, escribas, artesãos e tutores, aqueles homens eram rivais, mas seus ancestrais tinham-nos aliado a fim de criar e vender os Imaculados. Tijolos e sangue construíram Astapor, e tijolos e sangue construíram o seu povo.

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