A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
Ao terceiro dia tive uma ideia e toda a manhã me agarrei a ela com obstinação, se bem que compreendesse que não tinha muito fundamento. Pensava que Jaime se assustara ao saber que eu estava grávida, que quisera fugir às obrigações que lhe impunham o meu estado e que se refugiara em sua casa, na província. Era uma vil suposição: mas preferia imaginar uma cobardia sua a admitir outra hipóteses tão tristes, sugeridas pelas circunstâncias que tinham acompanhado a sua desaparição.
Nesse mesmo dia, à tarde, minha mãe entrou no meu quarto e atirou-me para cima da cama uma carta. Reconheci a letra de Jaime e senti uma grande alegria. Esperei primeiro que minha mãe saísse, depois que me passasse a perturbação que me assaltara. Em seguida abri a carta. Ei-la completa :
“Querida Adriana:
No momento em que receberes esta carta estarei já morto. Quando abri o meu revólver e não encontrei as balas compreendi logo que tinhas sido tu quem o esvaziara e pensei em ti com grande amizade. Pobre Adriana, tu não conheces as armas, não sabias que há uma bala no cano! O facto de não te terás apercebido disso reforçou a minha resolução. Aliás há tantas maneiras de se matar! Como te disse não posso aceitar o que fiz. Senti nestes últimos dias que te amava; mas, se eu fosse lógico, deveria odiar-te, porque tudo o que odeio em mim, e que o meu interrogatório me revelou, existe em ti no mais alto grau.
Na realidade, naquele momento, foi a personagem que eu deveria ter sido quem baqueou; fui unicamente o homem que sou. Não houve da minha parte nem cobardia, nem traição, mas somente uma misteriosa interrupção da vontade. Não talvez completamente misteriosa, mas o bastante para vir a conduzir-me longe de mais. Basta-me dizer que matando-me, reponho as coisas no seu devido lugar. Não tenhas medo, não te odeio; pelo contrário, amo-te a tal ponto que o simples facto de pensar em ti chega para me reconciliar com a vida. Se isso fosse possível, com certeza que viveria, casaria contigo e seríamos felizes, como tu o dizias tantas vezes. Mas realmente não era possível. Pensei na criança que vai nascer e escrevi nesse sentido duas cartas: uma à minha família e outra a um advogado meu amigo. Apesar de tudo, os meus são boa gente e, se bem que não se possa ter ilusões sobre os sentimentos deles a teu respeito, estou convencido de que cumprirão o seu dever. No caso improvável de se recusarem a fazê-lo, não deves hesitar em servir-te da lei. Este amigo advogado irá procurar-te e podes confiar nele. Pensa algumas vezes em mim.
Beija-te