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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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— Doutor, tenho quase a certeza de estar grávida.

Ele começou a rir porque sabia qual era o meu ofício e perguntou-me:

— Estás contrariada por isso?

— De maneira nenhuma. Estou contente.

— Vejamos.

Depois de me ter feito algumas perguntas sobre a minha indisposição, mandou-me estender na marquesa, examinou-me e disse alegremente:

— Desta vez é certo!

Senti-me feliz por ver as minhas suspeitas confirmadas. Disse-lhe com o espírito tranquilo e sem sombra de desapontamento:

— Já o sabia; vim só para ter a certeza.

— Agora podes estar certa.

Esfregava as mãos alegremente como se fosse ele o pai da criança, alegre, cheio de simpatia por mim. Mas uma dúvida atravessou-me o espírito:

— Há quanto tempo? — perguntei.

— Bom! Talvez dois meses… um pouco mais, um pouco menos… Porquê, queres saber de quem é?

— Já sei.

Dirigi-me para a porta.

— Se precisares seja do que for, podes procurar-me — disse, abrindo-me a porta. — Quando chegar a altura, procuraremos fazer com que nasça nas melhores condições possíveis.

Tinha por mim, como o comissário, uma inclinação muito acentuada. Mas a diferença é que este agradava-me.

Vinha frequentemente consultá-lo. Pelo menos uma vez de quinze em quinze dias. E duas ou três vezes, por gratidão, tinha consentido que ele me amasse, ali mesmo sobre a marquesa coberta de oleado onde acabara de me examinar. Mas ele era discreto e contentava-se com pequeninos gracejos afectuosos, sem nunca me impor os seus desejos. Dava-me conselhos e imagino que, à sua maneira, estava também um pouco apaixonado por mim.

Tinha dito ao médico que conhecia o pai do meu filho. Na realidade no momento em que pronunciei estas palavras não tinha mais do que uma suspeita e mais por instinto que por cálculo. Mas caminhando, quando contei os dias e reavivei as minhas recordações, esta suspeita tornou-se certeza. Lembrei-me do desejo e do terror que me tinham arrancado, precisamente quase há dois meses, um longo grito lamentoso de agonia e de prazer, e fiquei quase certa que o pai não podia ser outro senão Sonzogne. Era horrível pensar que iria ter um filho de um assassino insensível e monstruoso como Sonzogne; podia recear que a criança se parecesse com o pai e viesse marcada com o seu carácter. Por outro lado não podia deixar de encontrar alguma justiça nesta paternidade. Entre tantos homens que me tinham amado Sonzogne era o único que realmente me possuíra fora de qualquer sentimento amoroso, no fundo mais obscuro e mais secreto da minha carne. O facto de eu experimentar por ele apenas medo e horror e de me ter entregue contra vontade não desmentia, antes confirmava, a profundidade desta posse. Nem Gino, nem Astárito, nem mesmo Jaime, por quem eu tinha uma paixão de um gênero completamente diferente, tinham suscitado em mim o sentimento de uma posse tão legítima quão detestada. Tudo isto me parecia ao mesmo tempo estranho e assustador, mas era assim: os sentimentos são a única coisa que não se pode recusar, nem desmentir, nem mesmo analisar, num certo sentido. Acabei por concluir que o amor exige uns certos homens e a procriação outros, e que se era justo que eu tivesse um filho de Sonzogne não era menos justo da minha parte detestá-lo, fugir-lhe e amar Jaime como o amava.

Subi lentamente a minha escada pensando no fardo vivo que de futuro traria no ventre. Quando entrei no vestíbulo ouvi falar na sala grande. Espreitei e vi com surpresa Jaime, sentado à mesa, conversando calmamente com minha mãe, sentada a coser ao pé dele. Só o candeeiro central estava iluminado: um candeeiro de suspensão. Uma grande parte da sala estava às escuras.

— Boas-noites — disse, molemente, aproximando-me.

— Boas-noites, boas-noites — disse-me Jaime com voz hesitante e desagradável.

Olhei-o de frente, vi-lhe os olhos brilhantes e tive a certeza de que estava embriagado. Num canto da mesa havia dois guardanapos e dois pratos. Como minha mãe comia sempre na cozinha, percebi que o outro era para Jaime.

— Boas-noites — repetiu. — Trouxe as minhas malas. Estão no teu quarto. Já conversei amigavelmente com tua mãe… Não é verdade, minha senhora, que nos entendemos às mil maravilhas?

Senti no coração um enorme desalento ao ouvir esta voz sarcástica e lugubremente chocarreira. Caí sobre uma cadeira e fechei os olhos. Ouvi minha mãe responder-lhe:

— Disse que nos entendíamos… se diz mal de Adriana nunca nos entenderemos.

— Mas que disse eu? — gritou Jaime, falsamente admirado. — Que Adriana é feita para a vida que leva. Que Adriana se sente bem nesta vida… Que mal há nisso?

— Não é verdade — retorquiu a minha mãe. — Pelo contrário, a Adriana não é feita para a vida que leva. Com a sua beleza ela merecia melhor, muito melhor. Não sabe que a Adriana é uma das mais bonitas raparigas do bairro, para não dizer de Roma? Vejo outras raparigas muito mais feias do que ela fazerem fortuna, enquanto a Adriana, que é bela como uma rainha, nada possui. Mas eu sei porque é.

— Porque é?

— Porque ela é boa de mais, aí está! É tão bonita como boa. Se ela fosse bonita e má, veria como as coisas seriam diferentes.

— Então! Então! — disse eu aborrecida com a discussão, e sobretudo com o tom de Jaime, que parecia troçar de minha mãe. — Tenho uma destas fomes! O jantar ainda não está pronto?

— Está quase pronto — disse minha mãe pousando a costura sobre a mesa e saindo rapidamente.

Levantei-me e segui-a até à cozinha.

— Então isto agora é uma pensão? — resmungou ela quando me aproximei. — Veio armado em patrão… meteu as malas no teu quarto, deu-me dinheiro para as despesas…

— Então não estás contente?

— Preferia como dantes.

— Bem. Faz de conta que estamos noivos. E depois é provisório; é uma questão de dias; ele não vai ficar sempre aqui.

Disse-lhe outras coisas do mesmo gênero para a apaziguar, beijei-a e voltei para a sala grande.

Recordarei por muito tempo este primeiro jantar com Jaime lá em casa, comigo e com minha mãe. Ele esteve sempre a brincar enquanto comia com apetite. Mas a mim as suas brincadeiras pareciam-me mais frias do que gelo e amargas como o fel. Via-se bem que não tinha senão uma ideia, que esta ideia estava enterrada na consciência como um espinho na carne e que estas brincadeiras não faziam senão mergulhar mais profundamente este espinho e reavivar-lhe a dor. Era a ideia do que dissera a Astárito. Nunca na minha vida vi alguém arrepender-se tão sinceramente de uma falta cometida. Somente, ao contrário do que os padres me tinham ensinado quando eu era garota, que o arrependimento lava a falta — este arrependimento parecia não ter fim, nem consequência, nem o mínimo resultado benéfico. Compreendi que Jaime sofria horrivelmente e eu tanto como ele ou talvez ainda mais, porque não sofria somente a sua dor, mas a minha impotência para lha tirar, ou pelo menos aliviar.

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