A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
Esta ideia de ele viver em minha casa parecia-me mais estranha do que agradável. No entanto nada me atrevi a dizer. Acabou de vestir-se em silêncio, às escuras.
— Voltarei esta noite — disse-me.
Ouvi-o abrir a porta, sair e tornar a fechá-la. Fiquei com os olhos abertos fixos na escuridão.
10
Nessa mesma tarde, como Astárito me aconselhara, fui ao comissariado do bairro fazer um depoimento sobre a história de Sonzogne. Não entrava ali sem repugnância, porque depois do que acontecera a Jaime, tudo o que era polícia ou policial inspirava-me um mal-estar de morte. Mas agora já estava quase resignada. Compreendia que durante algum tempo a vida não teria o menor atractivo para mim.
— Esperamo-la de manhã — disse-me o comissário quando lhe disse o motivo da minha visita.
Era um excelente homem e há muito tempo que o conhecia: se bem que fosse pai de família e tivesse passado os cinquenta, já há muito tempo que eu compreendia que tinha por mim mais do que uma simples simpatia. Lembro-me, sobretudo do seu nariz: grosso, esponjoso e com um ar melancólico. Tinha sempre o cabelo despenteado e os olhos sonolentos, como se tivesse acabado de levantar-se. Esses olhos, de um azul intenso, olhavam como do interior de uma máscara num rosto espesso, rosado e gretado, lembrando a casca de certas laranjas enormes, mas ocas.
Disse-lhe que me fora impossível vir mais cedo. Os seus olhos olharam-me um momento, depois perguntou-me com um ar cúmplice:
— Então como se chama ele?
— Como quer que saiba?
— Então, sabe muito bem!
— Palavra de honra! — disse-lhe pondo a mão no peito. Abeirou-se de mim no Corso. Tive, de facto, a impressão de qualquer coisa estranha na sua atitude, mas não lhe prestei grande atenção.
— Como se compreende que não estivesse em casa e ele tivesse lá ficado só?
— Tinha-o deixado porque tinha um encontro urgente.
— Mas ele julgou que tivesse saído para ir procurar a policia. Sabia? Julgou que o tinha vendido.
— Já sei.
— E que lhe faria pagar isso.
— Tanto pior.
— Mas não percebe — acrescentou olhando-me de lado — que é um homem perigoso e que amanhã, para se vingar da sua suposta denúncia, pode muito bem atirar-lhe, como disparou sobre os polícias?
— Com certeza que já percebi!
— Então porque não diz o seu nome? Seria preso e deixaria de a preocupar.
— Pois se eu lhe digo que não sei! Não é por mal! Só me faltava saber o nome de todos os homens que levo para casa!
— Está bem! Nós, pelo contrário — afirmou de repente com voz forte e teatral, curvando-se para a frente —, nós sabemos o nome dele!
Percebi que era uma cilada e respondi tranquilamente:
— Se o sabe, porque me atormenta tanto? Prendam-no e não se fala mais nisso.
Olhou-me um momento em silêncio; notei que os seus olhos, incertos e perturbados, fixavam mais o meu corpo do que a minha cara e compreendi subitamente que, contra a sua vontade, o seu velho desejo substituíra o fervor profissional.
— Sabemos ainda outra coisa — continuou — é que se ele disparou e se safou é porque tinha boas razões para o fazer!
— Ah! Quanto a isso não tenho dúvidas!
— Mas conhece essas razões?
— Não sei coisa alguma. Pois se eu nem lhe conheço o nome, com quer que saiba o resto?
— Nós sabemos muito bem o resto.
Falava mecanicamente, como se pensasse noutra coisa: tinha a certeza de que não tardaria a levantar-se e a vir ao pé de mim.
— Nós sabemos muito bem e havemos de o apanhar… é uma questão de dias, talvez de horas.
— Ainda bem para vocês.
Levantou-se, como eu tinha previsto, chegou-se a mim e agarrou-me o queixo com a mão:
— Vamos! Vamos! — disse-me. — Sabe tudo e não quer dizer. De que tem medo?
— De nada tenho medo e nada sei — respondi. — Mas trate de tirar as mãos…
— Vamos! Vamos! — repetiu.
Mas voltou a sentar-se à secretária.
— Tem sorte em eu simpatizar consigo e saber que é boa rapariga — disse-me. — Sabe o que qualquer outro faria para a obrigar a falar? Tê-la-ia engaiolado durante um bom bocado. Ou então mandava-a para S. Galicano.
Levantei-me declarando:
— Bem! Tenho que fazer! Se nada mais tem para me dizer…
— Pode retirar-se — concordou — mas tenha cuidado com a frequência… políticos e outros!
Fingi não perceber as últimas palavras, pronunciadas num tom cheio de alusões, e saí rapidamente das salas sórdidas do comissariado.
Enquanto andava pensava em Sonzogne. O comissário não tinha feito mais que confirmar o que eu já tinha pensado: Sonzogne estava convencido de que eu o denunciara e queria vingar-se. Fui tomada de pavor, não por mim, mas por Jaime. Sonzogne estava furioso; se ele encontrasse Jaime comigo não hesitaria em matá-lo também. Devo dizer que a ideia de morrer com Jaime me sorria estranhamente. Parecia-me ver a cena: Sonzogne disparava; eu punha-me à frente de Jaime para o proteger e recebia a bala em seu lugar. Mas não me desagradava imaginar Jaime também ferido e a nossa morte comum, com os nossos sangues misturados. No entanto reflectia que ser morto ao mesmo tempo pelo mesmo assassino não era tão belo como um suicídio duplo, o qual me parecia um fim digno de um grande amor. Era como matar uma flor antes de ela começar a fenecer, fechar-se no silêncio depois de ter ouvido uma música sublime. Tinha algumas vezes pensado nesta forma de suicídio que pára o tempo antes que ele corrompa e avilte o amor e que se leva a efeito mais por excesso de alegria que pela intolerância da dor. Momentos havia em que me parecia amar Jaime com demasiada intensidade ao ponto de recear a impossibilidade de, no futuro, o amar tanto; tive a ideia deste suicídio duplo com a mesma naturalidade e a mesma espontaneidade como o beijava e o acariciava. Mas nunca lhe falara nisso porque sabia que para nos matarmos juntos era condição essencial que o nosso amor tivesse a mesma intensidade. E Jaime não me tinha amor ou se o tinha não me queria o suficiente para desejar deixar de viver.
Continuando a andar de cabeça baixa na direcção de casa, reflectia intensamente em tudo isto. De repente senti uma espécie de vertigem acompanhada de náuseas e de um mal-estar horrível. Nem sei como consegui entrar numa leitaria. Estava a poucos passos da minha casa, mas não tinha forças para fazer aquele curto trajecto; teria caído no chão se o tentasse.
Sentei-me a uma mesa atrás da porta envidraçada e fechei os olhos. Continuava a sentir uma violenta sensação de náusea e de vertigem e esta sensação era agravada pelo arquejar da máquina do café, embora bastante afastada, que me produzia uma sensação de angústia. Sentia na cara e nas mãos a tepidez da sala fechada e aquecida e, no entanto tinha muito frio. O empregado conhecia-me e gritou-me por detrás do balcão:
— Um café, menina Adriana?
Disse que sim com a cabeça, sem abrir os olhos. Por fim reanimei-me e tomei o café que o empregado colocara em cima da mesa. A bem dizer não era a primeira vez que era tomada por esta má disposição; nos últimos tempos sentira-a já, mas não tinha ligado importância, devido aos acontecimentos insólitos e angustiantes. Mas agora, pensando nisso e estabelecendo uma relação entre a indisposição e uma irregularidade significativa verificada na minha vida física no decurso do mês, convenci-me de que certas suspeitas que ultimamente haviam atravessado o meu espírito e a que eu não dera consistência correspondiam à verdade.
“Não há dúvida alguma”, pensei bruscamente. “Espero com certeza um filho.” Paguei o café e saí. O que nesse momento sentia era muito complicado: hoje ainda, passado tanto tempo, não me é fácil traduzi-lo. Por experiência própria sabia que as desgraças nunca vêm sós; a presente certeza que tempo atrás e noutras circunstâncias seria acolhida com alegria, neste momento não podia deixar de considerá-la uma desgraça. Mas, por outro lado, um movimento irresistível e misterioso da minha alma leva-me sempre a descobrir o lado agradável das coisas mais desconcertantes. Desta vez o lado agradável não era difícil de descobrir; era o mesmo que enchia de esperança e de satisfação o coração de todas as mulheres logo que sentem que foram tomadas pela prenhez. Era um facto que o meu filho nasceria nas mais desfavoráveis condições; no entanto, não seria menos meu filho: seria eu quem o amamentaria, o criaria e o educaria. “Um filho é um filho”, pensava eu; “não há pobreza, nem circunstâncias adversas, nem futuro sombrio que possam impedir uma mulher, por mais miserável e abandonada que seja, de se alegrar à ideia de ir ser mãe.” Estas reflexões acalmaram-me; depois de um minuto de apreensão e de desencorajamento senti-me tão tranquila e confiante como sempre. O jovem médico que me vira há tanto tempo já, quando minha mãe me levara à farmácia de serviço para saber se eu tinha ou não pertencido a Gino. tinha o consultório próximo da pastelaria. Resolvi ir lá e consultá-lo. Era cedo: ninguém havia na sala de espera; o doutor, que me conhecia muito bem, acolheu-me com simpatia. Logo que fechei a porta, anunciei-lhe tranquilamente: