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O Poderoso Chefão [em Portugues]

Электронная книга - «O Poderoso Chefão [em Portugues]». Краткое содержание книги:

Numa reconstrução do mundo dos mafiosos, que imortalizou o personagem Don Corleone, Mario Puzo leva o leitor ao próprio coração da Máfia, revelando toda a violência, chantagem, terror e degradação que a caracterizam. Don Corleone é um dos cabeças da Máfia nova-iorquina, pessoa benevolente que obedece a um critério de justiça muito pessoal. Ele pode ser um amigo prógigo, mas se torna implacável na eliminação de obstáculos que contrariem seus objetivos. Movimentando personagens num mundo de violência, negócios, ódio e sexo, Mario Puzo consagrou-se com este livro que foi levado ao cinema com o mesmo sucesso, com Don Corleone interpretado por Marlon Brando.
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— Eu fazia tudo com Sonny.

Era a primeira vez que ela admitia uma coisa como essa para alguém.

Duas semanas depois, Jules Segal estava na sala de operações do hospital de Los Angeles observando o seu amigo Dr. Frederick Kellner executar a sua especialidade. Antes de Lucy ser anestesiada, Jules inclinou-se sobre ela e murmurou-lhe no ouvido:

— Eu disse a ele que você era a minha garota particular, assim ele vai pôr umas paredes reais bem apertadas.

Mas a pílula preliminar já a fizera ficar apática e ela não riu nem sorriu. A observação irritante dele tirou uma parte do terror da operação.

O Dr. Keliner fez a incisão com a confiança de um campeão de bilhar dando uma tacada fácil. A técnica de qualquer operação para reforçar a bacia pélvica requeria a consecução de dois objetivos. A funda pélvica músculo-fibrosa tinha de ser encurtada de modo que a folga desaparecesse. E naturalmente a abertura vaginal, o próprio ponto fraco da bacia pélvica, tinha de ser trazida para a frente, trazida para baixo do arco púbico e assim livrar-se da linha da pressão direta acima. A reparação da funda pélvica era chamada perincorrafia. A sutura da parede vaginal era chamada colporrafia.

Jules percebeu que o Dr. Kellner estava trabalhando agora com cuidado; havia perigo de que a incisão fosse multo profunda e atingisse o reto. Era um caso evidentemente sem complicação, Jules estudara todas as radiografias e outros exames. Nada podia sair errado, exceto que em cirurgia algo podia sempre sair errado.

Kellner estava trabalhando na funda do diafragma, a pinça em T segurava a aba vaginal, e expondo os músculos e as fáscias que formavam sua bainha. Os dedos de Kellner cobertos de gaze empurravam para o lado o tecido conjuntivo solto. Jules mantinha os olhos fixos na parede vaginal para ver se apareciam as veias, o sinal de perigo que indicava ter ofendido o reto. Mas o velho Kellner conhecia o seu trabalho. Estava construindo uma nova prega com a facilidade com que um carpinteiro prega certos pinos.

Kellner estava aparando a parede vaginal em excesso usando o ponto de filmar embaixo para fechar o “pedaço” tirado do tecido do ângulo redundante, a fim de que não se formassem projeções complicadas. Tentava introduzir três dedos na abertura estreita do lume, depois dois. Procurou enfiar dois dedos, explorando profundamente, e por um momento olhou para Jules e seus olhos azuis por cima da máscara de gaze piscaram como que perguntando se estava bastante estreito. Em seguida passou a ocupar-se novamente de suas suturas.

Tudo estava terminado. Empurraram Lucy para a sala de recuperação e Jules falou a Kellner, que se mostrava radiante, o melhor sinal de que tudo saíra bem.

— Absolutamente nenhuma complicação, meu rapaz — disse ele a Jules. — Não houve nada de anormal, um caso muito simples. Ela tem um tono corporal maravilhoso, raro nesses casos, e agora está em plena forma para o que der e vier. Invejo você, meu rapaz. É claro que você terá de esperar um pouco, mas depois garanto que você gostará do meu trabalho.

— Você é um verdadeiro Pigmalião, doutor. De fato, você esteve formidável — disse Jules, dando uma gargalhada.

— Tudo isso é brincadeira de criança, como os abortos — retrucou o Dr. Kellner. — Se a sociedade fosse apenas realista, gente como eu e você, gente realmente talentosa, poderia fazer trabalho importante e deixar isso para os charlatães. A propósito, vou-lhe mandar uma garota na próxima semana, uma garota muito distinta, parece que elas estão sempre arranjando complicações. Isso vai-nos tornar quites pelo trabalho que fiz hoje.

Jules balançou a cabeça.

— Obrigado, doutor. Apareça lá pessoalmente um dia e eu procurarei oferecer-lhe todas as cortesias da casa.

Kellner retribuiu-lhe com um riso torto e respondeu:

— Jogo todos os dias, não preciso das suas roletas e das suas mesas de dados. Enfrento o destino muito freqüentemente como ele é. Você vai-se estragar ali, Jules. Uns dois anos mais e você poderá esquecer a cirurgia séria. Você não estará à altura dela.

Kellner virou as costas e afastou-se. -

Jules sabia que isso não significava uma censura, mas uma advertência. Contudo, isso o impressionou bastante. Como Lucy não sairia da sala de recuperação senão pelo menos daí a 12horas, ele foi até a cidade e embriagou-se. Parte de sua embriaguez se deveu ao fato de sentir-se aliviado por tudo ter saí do muito bem com Lucy.

Na manhã seguinte, quando foi ao hospital visitá-la, ficou surpreso por encontrar dois homens ao lado da cama dela e flores espalhadas por todo o quarto. Lucy estava com a cabeça suspensa e apoiada em travesseiros, o seu rosto se mostrava radiante. Jules se sentiu surpreso porque Lucy rompera com a família e pedira-lhe para não notificá-la a não ser que algo saísse errado. Naturalmente Freddie Corleone sabia que ela estava no hospital para uma pequena operação; que tinha sido necessário informá-lo para que ambos tivessem folga, e Freddie dissera a Jules que o hotel pagaria todas as contas de Lucy.

Lucy apresentou-os e Jules reconheceu prontamente um deles. O famoso Johnny Fontane. O outro era um rapaz italiano grande, musculoso, com cara de poucos amigos, cujo nome era Nino Valenti. Ambos apertaram a mão de Jules e depois não lhe deram mais atenção. Estavam brincando com Lucy, falando sobre a zona em que moraram em Nova York, sobre gente e acontecimentos de que Jules de forma alguma podia participar. Por conseguinte, ele disse a Lucy:

— Eu passo aqui mais tarde, tenho de ver o Dr. Kellner.

Mas Johnny Fontane mostrou-lhe logo o seu encanto pessoal.

— Olhe aqui, companheiro, nós é que temos de ir embora, você fica fazendo companhia a Lucy. Tome conta dela, doutor.

Jules notou uma rouquidão peculiar na voz de Johnny Fontane e lembrou-se de repente de que há mais de um ano que ele não cantava em público, e que ganhara o prêmio da Academia pelo seu desempenho artístico. Podia a voz do homem ter mudado tão tarde assim na vida e os jornais manterem isso em segredo, todo mundo manteve isso em segredo? Jules gostava de um mexerico e continuou a ouvir a voz de Fontane numa tentativa de diagnosticar a complicação gutural. Podia ser simples esforço, ou bebida e cigarros em demasia ou até mulheres em excesso. A voz tinha um timbre feio, ele não podia mais ser chamado de “o cantor da voz macia”.

— Você parece que está resfriado — disse Jules a Johnny Fontane.

— Apenas esforço, tentei cantar ontem à noite — respondeu Johnny delicadamente: — Acho que não posso aceitar o fato de que minha voz mudou, estou envelhecendo, como você sabe. — Arreganhou os dentes sarcasticamente para Jules.

— Você não procurou um médico para examinar isso? — perguntou Jules casualmente. — Talvez seja uma coisa que tenha cura.

Johnny não estava tão encantador agora. Lançou a Jules um olhar frio.

— Isso foi a primeira coisa que fiz há dois anos passados. Procurei os melhores especialistas. O meu próprio médico, que é considerado como a maior sumidade aqui na Califórnia. Disseram-me que descansasse um bocado. Não há nada de mau, apenas estou envelhecendo. A voz do homem muda quando ele envelhece.

Johnny passou a ignorá-lo depois disso, dando atenção a Lucy, agradando-a como ele agradava todas as mulheres. Jules continuou a prestar atenção à voz do ator. Devia ter nascido algum corpo estranho naquelas cordas vocais. Mas, então, por que diabo os especialistas não o localizaram? Seria maligno e inoperável? Então devia haver outra coisa.

Ele interrompeu Johnny para perguntar:

— Quando foi a última vez que você foi examinado por um especialista?

Johnny estava obviamente irritado, mas procurava ser cortês em atenção a Lucy.

— Há cerca de dezoito meses — respondeu.

— O seu médico tem examinado isso de vez em quando? — insistiu Jules.

— Certamente, tem — respondeu Johnny Fontane irritado. — Ele me dá um borrifo de codeína e me faz um exame cuidadoso. Ele disse que é apenas porque a minha voz está envelhecendo, que isso é devido à bebida, ao fumo e a outras coisas. Talvez você saiba mais do que ele?

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