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O Poderoso Chefão [em Portugues]

Электронная книга - «O Poderoso Chefão [em Portugues]». Краткое содержание книги:

Numa reconstrução do mundo dos mafiosos, que imortalizou o personagem Don Corleone, Mario Puzo leva o leitor ao próprio coração da Máfia, revelando toda a violência, chantagem, terror e degradação que a caracterizam. Don Corleone é um dos cabeças da Máfia nova-iorquina, pessoa benevolente que obedece a um critério de justiça muito pessoal. Ele pode ser um amigo prógigo, mas se torna implacável na eliminação de obstáculos que contrariem seus objetivos. Movimentando personagens num mundo de violência, negócios, ódio e sexo, Mario Puzo consagrou-se com este livro que foi levado ao cinema com o mesmo sucesso, com Don Corleone interpretado por Marlon Brando.
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Carlo escarrapachou as pernas e continuou a beber da garrafa. Estendeu a mão para baixo e agarrou um pedaço da pesada coxa dela, inchada devido à gravidez. Deu-lhe um aperto forte, machucando-a e fazendo-a pedir misericórdia.

— Você está gorda como uma porca — disse com repugnância e saiu do quarto.

Completamente apavorada e acovardada, ela jazia na cama, não se atrevendo a ir ver o que o marido estava fazendo na sala. Finalmente levantou-se e foi até a porta para dar uma espiada na sala de estar. Carlo tinha aberto outra garrafa de uísque e bebia esparramado no sofá. Daí a pouco ele estaria tão embriagado que cairia num sono profundo e ela poderia ir sorrateiramente até a cozinha e telefonar para a família em Long Beach. Pediria à mãe que mandasse alguém ali apanhá-la. Ela esperava que Sonny não atendesse o telefone, sabia que seria melhor falar com Tom Hagen ou com a mãe.

Eram quase dez horas da noite, quando o telefone da cozinha da casa de Don Corleone tocou. Foi atendido por um dos guarda-costas, que respeitosamente passou o telefone para a mãe de Connie. Mas a Sra. Corleone não conseguia compreender o que a filha estava dizendo, a moça estava histérica e, além disso, falava muito baixinho para que o marido que se achava na sala de estar ao lado não a ouvisse. O seu rosto havia inchado em conseqüência das bofetadas, e os seus lábios túmidos deformavam a sua fala. A Sra. Corleone fez um sinal para o guarda-costas ir chamar Sonny, que se encontrava na sala de estar com Tom Hagen.

Sonny entrou na cozinha e tomou o telefone da mãe.

— Sim, Connie — disse ele.

Connie estava tão apavorada com o marido e com o que o irmão poderia fazer, que sua fala piorou. Ela balbuciou:

— Sonny, mande um carro me apanhar agora em casa, eu lhe conto depois, não é nada, Sonny. Não venha você. Mande Tom, por favor, Sonny. Não é nada, é só que eu quero ir até aí.

Nesse momento, Hagen entrara na cozinha. Don Corleone já estava dormindo sob o efeito de um sedativo, no quarto de cima, e Hagen queria manter certa vigilância sobre Sonny em todas as crises. Os dois guarda-costas internos também se encontravam na cozinha. Todos fitavam Sonny enquanto ele escutava no telefone.

Não havia dúvida de que a violência da natureza de Sonny Corleone emergia de algum poço misterioso e profundo. Enquanto observavam, podiam ver realmente o sangue afluir para o seu pescoço de veias grossas, podiam ver a película dos olhos cheia de ódio, as feições de seu rosto se comprimirem, cada vez mais, depois o seu rosto tomar a tonalidade acinzentada de um homem doente lutando contra um tipo de morte, exceto que o bombeamento de adrenalina através do seu corpo fazia-lhe as mãos tremer. Mas a sua voz estava controlada, e em tom baixo quando ele falou para a irmã.

— Você espere aí. Só isso, espere aí. — Desligou o telefone. Ficou parado por um momento, completamente atordoado com a própria raiva, depois exclamou: — Grande filho da puta! Grande filho da puta!

E saiu correndo da casa.

Hagen reconheceu o aspecto do rosto de Sonny, todo o poder de raciocínio o havia abandonado. Nesse momento, Sonny era capaz de tudo. Hagen sabia também que a viagem até a cidade esfriaria Sonny, faria que ele ficasse mais racional. Mas essa racionalidade poderia torná-lo até mais perigoso, embora isso o tornasse capaz de proteger.se contra as conseqüências de sua fúria. Hagen ouviu o motor do carro roncar e disse para os dois guarda-costas:

— Vão atrás dele.

Em seguida, dirigiu-se ao telefone e fez algumas chamadas. Arranjou para que alguns homens do regime de Sonny que moravam na cidade fossem até o apartamento de Carlo Rizzi e tirassem Carlo dali. Outros homens ficariam com Connie até Sonny chegar. Ele estava se arriscando ao tentar contrariar Sonny, mas sabia que Don Corleone o apoiaria. Tinha medo de que Sonny pudesse matar Carlo na frente de testemunhas. Não esperava complicação do inimigo. As cinco Famílias haviam sossegado há muito tempo e obviamente procuravam manter a trégua.

No momento em que o Buick de Sonny saiu roncando da alameda, ele já tinha recuperado, em parte, seus sentidos. Percebeu os dois guarda-costas entrarem no carro para segui-lo e gostou da idéia. Ele não esperava que houvesse perigo; as cinco Famílias tinham parado de contra-atacar, não estavam realmente combatendo mais. Agarrara o paletó no vestíbulo e havia um revólver num compartimento secreto do painel de instrumentos do carro, estando o carro registrado no nome de um membro do seu regime para que ele pessoalmente não pudesse envolver-se em alguma complicação com a lei. Mas ele não previa que fosse precisar de qualquer arma. Nem sabia ainda o que ia fazer com Carlo Rizzi.

Agora que tinha tempo para pensar, Sonny compreendeu que não podia matar o pai de uma criança que ainda não nascera, e esse pai era o marido de sua irmã. Não por causa de uma briga doméstica. Com a diferença que não era apenas uma briga doméstica. Carlo era um mau elemento e Sonny sentia-se responsável porque a irmã conhecera o salafrário por seu intermédio.

O paradoxo da natureza violenta de Sonny era que ele não podia bater numa mulher e nunca fizera isso. Nem podia maltratar uma criança ou qualquer coisa indefesa. Quando Carlo se recusou a reagir naquele dia em que Sonny o agrediu, isto evitou que ele o matasse, a submissão completa desarmava a sua violência. Quando menino, ele fora realmente muito sensível. O fato de se ter tornado assassino depois de adulto era simplesmente seu destino.

Mas ele resolveria a coisa de uma vez para sempre, pensava Sonny, enquanto dirigia o Buick para a via elevada que o levaria, por cima da água, de Long Beach até as avenidas largas de Jones Beach. Ele sempre usava esse caminho quando ia a Nova York. Havia menos tráfego.

Resolveu que mandaria Connie para casa com os guarda-costas e depois conversaria com o cunhado. O que aconteceria depois disso ele não sabia. Se Carlo tivesse realmente machucado Connie, ele aleijaria o salafrário, Mas o vento que soprava sobre a via elevada, a frescura salgada do ar, esfriou a sua raiva. Ele baixou todo o vidro da janela.

Sonny tomara a pista elevada de Jones Beach, como sempre, porque geralmente era deserta a essa hora da noite, nessa época do ano, e ele podia correr desenfreadamente até chegar às avenidas largas do outro lado. E mesmo ali o tráfego seria pequeno. O alívio de dirigir muito depressa dissiparia o que ele sabia ser uma tensão perigosa. Ele já deixara o carro dos guarda-costas bem para trás.

A via elevada era mal-iluminada, não havia um só carro. Muito à frente, Sonny via o cone branco da cabina de pedágio. Havia outras cabinas de pedágio, além daquela, mas só funcionavam durante o dia, quando havia mais tráfego. Sonny começou a frear o Buick e ao mesmo tempo a procurar nos bolsos dinheiro miúdo. Não tinha nenhum. Puxou a carteira de notas, abriu-a com uma só mão e tirou uma cédula com os dedos. Chegou à arcada de luz e viu, para sua ingênua surpresa, um carro na passagem da cabina de pedágio obstruindo-a, sendo que o motorista evidentemente estava se informando sobre alguma coisa com o cobrador do pedágio. Sonny tocou a buzina e o outro carro obedientemente afastou-se para deixar o seu carro atravessar a passagem.

Sonny entregou ao cobrador do pedágio a nota de um dólar e esperou o troco. Ele agora tinha pressa para fechar a janela. O ar do Atlântico esfriara o carro todo. Mas o cobrador estava demorando a dar o troco; o estúpido na verdade deixara-o cair no chão. A cabeça e o corpo do homem desapareceram quando ele se abaixou em sua cabina para apanhar o dinheiro.

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