A mãe jazia imóvel na cama. A sua expressão era singularmente neutra, não registrava nem alegria nem mágoa, simplesmente… uma espécie de espera. O seu único movimento era um pestanejar ocasional. Não se percebia se ouvia ou compreendia o que Ellie dizia. Esta pensou em esquemas de comunicação. Não pôde evitá-lo, o pensamento surgiu-lhe sem que o solicitasse: um pestanejo para «sim» dois pestanejos para «não». Ou ligar um encefalógrafo com um tubo de raio catódico que a mãe pudesse ver e ensiná-la a modular as suas ondas beta. Mas aquela era a sua mãe, não Alpha Lyrae, e do que ela precisava era de ternura, não de algoritmos de decifração.
Pegou-lhe na mão e falou durante horas. Falou, falou, acerca da mãe, do pai, da sua infância. Recordou o tempo em que era uma garotinha a tentar os primeiros passos entre os lençóis acabados de lavar e se sentia erguida no ar, levantada para o céu. Falou de John Staughton. Pediu desculpa de muitas coisas. Chorou um pouco.
O cabelo da mãe estava despenteado e ela procurou uma escova e alindou-a um pouco. Observou o rosto enrugado e reconheceu o seu próprio rosto. Os olhos da mãe, afundados e úmidos, olhavam fixamente, apenas com um pestanejar ocasional para — parecia — muito longe.
— Sei de onde vim — disse-lhe Ellie docemente.
Quase imperceptivelmente, a mãe abanou a cabeça de um lado para o outro, como se lamentasse todos aqueles anos em que ela e a filha tinham estado afastadas. Ellie deu-lhe um apertozinho na mão e teve a impressão de sentir outro em resposta.
A vida da mãe não estava em perigo, disseram-lhe. Se se verificasse alguma modificação no seu estado, telefonariam imediatamente para o seu escritório em Wyoming. Dentro de poucos dias poderiam mandá-la do hospital de novo para o lar, onde, garantiram-lhe, havia os meios adequados para a tratar.
Staughton parecia acabrunhado, com uma intensidade de ternura pela mãe que ela nunca imaginara existisse nele. Telefonaria com freqüência, prometeu-lhe Ellie.
O austero átrio de mármore ostentava, talvez incongruentemente, uma estátua verdadeira — não uma holografia — de uma mulher nua, no estilo de um Praxíteles. Subiram num elevador Otis-Hitachi, onde a segunda língua era o inglês, e não o braille, e ela viu-se introduzida numa sala imensa onde se encontravam pessoas inclinadas para processadores de palavras. Batia-se no teclado uma palavra em niragana, o alfabeto fonético japonês de cinqüenta e uma letras, e no écran aparecia o ideograma chinês correspondente em kanji. Havia centenas de milhares desses ideogramas, ou caracteres, armazenados nas memórias dos computadores, embora apenas três mil ou quatro mil fossem geralmente necessários para ler um jornal. Em virtude de muitos caracteres de significados completamente diferentes serem exprimidos pela mesma palavra falada, todas as traduções possíveis em kanji eram impressas, por ordem de probabilidade. O processador de palavras tinha uma sub-rotina contextual em que os caracteres candidatos também eram colocados em bicha, digamos, de acordo com o cálculo do computador do significado pretendido. Raramente se enganava. Numa linguagem para a qual, até recentemente, nunca houvera uma máquina de escrever, o processador de palavras estava a fazer uma revolução nas comunicações — uma revolução que não era inteiramente admirada pelos tradicionalistas.
Na sala de conferências sentaram-se em cadeiras baixas — uma concessão evidente aos gostos ocidentais — à volta de uma mesa lacada baixa, e foi servido chá. No campo visual de Ellie, para lá da janela, ficava a cidade de Tóquio. Andava a passar muito tempo diante de janelas, pensou. O jornal era o Asashi Shimbun — Noticias do Sol Nascente —, e foi com interesse que ela verificou que um dos repórteres políticos era uma mulher, uma raridade pelos padrões dos media americanos e soviéticos. O Japão estava empenhado numa reavaliação nacional do papel das mulheres. Os privilégios tradicionais masculinos estavam a capitular lentamente, no que parecia um combate rua a rua, do qual não havia comunicados. Ainda na véspera, o presidente de uma firma chamada Nanoelectronics se lhe lamentara de que não havia na cidade de Tóquio uma rapariga que ainda soubesse colocar um obi[18]. Como acontecera com os laços já feitos e prontos a usar, um simulacro facilmente ajustável tinha conquistado o mercado. As mulheres japonesas tinham coisas melhores que fazer do que passar todos os dias meia hora a envolver-se num obi e a pregueá-lo. A repórter vestia um austero saia-casaco de trabalho, com a bainha da saia a chegar-lhe às barrigas das pernas.
A fim de garantir a segurança, não eram autorizadas visitas de profissionais da imprensa no estaleiro da Máquina, em Hokkaido. Em vez disso, quando membros da tripulação ou funcionários ligados ao projeto iam à ilha principal de Honshu, agendavam, por rotina, uma série de entrevistas com media noticiosos japoneses e estrangeiros. Como sempre, as perguntas eram unilineares. Os repórteres de todo o mundo abordavam o assunto da Máquina quase da mesma maneira, dando, evidentemente, algum desconto às idiossincrasias locais. Estava satisfeita com o fato de, após as «decepções» americana e soviética, estar a ser construída uma Máquina no Japão? Sentia-se isolada na ilha setentrional de Hokkaido? Preocupava-a o fato de os componentes da Máquina que estavam a ser utilizados em Hokkaido terem sido testados para além das estritas recomendações da Máquina?
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18
Faixa tradicional usada pelas mulheres e crianças japonesas. (N. da T.)