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A Mão Esquerda da Escuridão

Электронная книга - «A Mão Esquerda da Escuridão». Краткое содержание книги:

Genly Ai foi enviado a Gethen com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal. Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. Nessa sociedade complexa, homens e mulheres são um só e nenhum ao mesmo tempo. Os indivíduos não possuem sexo definido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero, sendo essas as bases da vida do planeta. Mas Genly é humano demais. A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.
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— Aqui está o pagamento de uma semana de casa é comida para um caçador e temos que desperdiçar isto.

Estendeu-me uma para apalpar. A pele era tão suave e espessa que nossa mão se enterrava nela. Nossos sacos de dormir, casacos e capuzes eram forrados com essa pele, uma proteção insubstituível para o frio e muito bela de se ver.

— Não me parece digno estragar tão linda pele para se obter um cozido.

Estraven lançou-me seu olhar duro, incisivo e rápido:

— Precisamos de proteína — e atirou fora as peles, que foram devoradas durante a noite pelos russys, uns ferozes animaizinhos, mistos de rato e cobra, que devoraram não só as peles como as entranhas e os ossos, lambendo até os rastros sangüíneos na neve.

Ele estava certo; aliás, estava sempre certo. Havia mais de duas libras de carne comestível em cada animal. Comi minha parte do ensopado e poderia ter comido o resto sem reparar. Na manhã seguinte, quando começamos a subir mon­tanhas, eu sentia o dobro da resistência e força que tivera até então.

Naquele dia, subimos sempre. A nevasca benéfica e o kroxet — um tempo sem ventos cuja temperatura oscila en­tre zero e vinte graus Fahrenheit — que nos tinham acom­panhado até então, protegendo-nos de uma provável perse­guição, agora, infelizmente, se dissolviam numa temperatura acima do ponto de gelo e chuva. Começava a compreender por que os gethenianos se queixam quando a temperatura se eleva no inverno e se alegram quando ela baixa. Na cidade, a chuva é uma inconveniência; para um viajante, uma catás­trofe. Arrastamos o trenó pelos flancos das Sembensyens acima, toda a manhã, debaixo de uma neve encharcada de chuva, feito um mingau gelado e forte. A tarde, nas vertentes escorregadias, a neve já havia sido toda arrastada. Torrentes de chuva, montes de lama e cascalho. Retiramos as lâminas, colocamos rodas no trenó e continuamos a puxar para cima.

Como carroça sobre rodas, ele era um inferno, saltando e emperrando a cada instante. A escuridão chegou antes que tivéssemos encontrado um abrigo qualquer sob penhascos ou uma caverna para instalar a tenda; assim, a despeito de todo o cuidado, as nossas coisas se molharam. Estraven dissera que uma tenda como aquela nos abrigaria bem em qualquer tem­po desde que se conservasse seca por dentro.

— Se você perder muito calor do corpo à noite não dorme bem; para isso é preciso que seus pertences estejam bem secos. Nossa ração está muito curta para nos permitir qualquer esbanjamento. Não podemos contar com a luz do sol para secar nada; assim, temos que ter cuidado para que não se molhem.

Eu escutara e tinha sido sempre muito cuidadoso, evi­tando a neve e a umidade dentro da tenda. Assim, só se for­mava o inevitável vapor d’água decorrente da nossa cozinha, e o emitido por nossos pulmões e poros. Mas esta noite, an­tes que a tenda fosse armada, tudo estava encharcado. Acocoramo-nos junto do fogareiro Chabe, soltando vapor por todo lado, e logo preparamos um guisado de carne quente e sólido, bastante gostoso, para compensar a situação difícil. O marcador de distância acusava apenas nove milhas, igno­rando a dura e penosa ascensão pelos flancos montanhosos.

— Primeiro dia em que fazemos menos que a cota determinada — falei.

Estraven concordou e cuidadosamente partiu um osso para tirar o tutano. Ele tirara suas roupas exteriores e sentou-se em camisa e calções, descalço e de gola aberta. Eu não; sentia muito frio para tirar o casaco, capuz e botas. Ali ficou ele, quebrando osso e comendo tutano, asseado, forte, eter­no. Seu cabelo macio, liso, deixava escorrer a água, como as penas de um pássaro, caindo nos ombros, como das calhas de uma casa, e ele nem reparava. Não se sentia desencorajado. Estraven fazia parte desta natureza.

A primeira refeição de carne me havia dado cólicas intestinais e nesta noite elas pioraram. Fiquei acordado na­quela escuridão encharcada e povoada pelo barulho da chuva sobre a tenda. Na primeira refeição da manhã, ele comentou:

— Você passou uma noite ruim.

— Como sabe?

Ele dormira profundamente, mal se mexia, mesmo quando eu saía da tenda. Dirigiu-me seu olhar duro de novo:

— Que há de errado com você?

— Diarréia.

Ele estremeceu e observou aborrecido:

— Foi a carne.

— Suponho que sim.

— A culpa foi minha, eu devia saber…

— Não se preocupe, está tudo bem.

— Pode viajar?

— Posso.

E a chuva caía, caía. Um vento leste, vindo do mar, conservava a temperatura na casa dos trinta graus, mesmo aqui, a três ou quatro mil pés de altitude. Nunca víamos nada além de um quarto de milha adiante de nós, pois tínha­mos uma cerração acinzentada e torrentes de chuva pela frente. Como as vertentes se erguiam acima de nós, nunca pude ver nada a não ser a chuva caindo. Andávamos orien­tados pela bússola, conservando-nos o tempo todo em dire­ção norte, sempre que os cortes e guinadas das grandes vertentes nos permitiam. As geleiras tinham, outrora, re­coberto essas encostas e há centenas ou milhares de anos elas haviam recuado para o norte. Havia ainda traços delas nas encostas graníticas, longas retas como se fossem canais recor­tados em forma de U. Podíamos deslizar o trenó ao longo dessas ranhuras como se estivéssemos numa estrada. Eu era melhor quando puxava, apoiando-me nos arreios, e o esforço me conservava aquecido. Quando paramos para comer um pouco, ao meio-dia, senti-me doente e gelado; não pude comer nada. Continuamos subindo novamente. A chuva caía ininterruptamente. Estraven parou sob uma grande saliência de rochas negras, no meio da tarde. Armou a tenda antes que eu conseguisse me desatar dos arreios. Ordenou-me que entrasse nela e repousasse.

— Estou bem — disse-lhe.

— Não está, não. Entre.

Obedeci-lhe, mas fiquei ressentido pelo tom imperativo que usou comigo. Quando ele entrou na tenda com as coisas de que precisávamos para a noite, sentei-me para cozinhar, pois era a minha vez. Disse, no mesmo tom autoritário, para eu ficar em repouso.

— Não precisa me dar ordens — retruquei.

— Desculpe — acrescentou, inflexível, de costas para mim.

— Não estou doente, sabe muito bem.

— Não, não sei bem. Se você não quer ser franco co­migo, tenho que julgar pela sua aparência. Ainda não reco­brou suas forças e a marcha tem sido dura. Não sei até onde vai o limite de suas forças.

— Posso lhe avisar, quando sentir que estou chegando lá…

Eu estava irritado com o seu ar de superioridade. Ele era de estatura e compleição mais femininas que masculinas, mais curvas que músculos; sua cabeça menor que a minha. Quando puxávamos, eu tinha que encurtar minha passada para ajustar-me à dele, conter minha força para não avantajar-me em relação a ele; um garanhão em parelha com uma mula.

— Então não está se sentindo doente?

— Não, naturalmente estou cansado. Você também está…

— É verdade. Estava aflito com você; temos ainda muito caminho a percorrer.

Ele não tinha intenção de parecer meu protetor. Julga­ra-me doente, e doentes precisam ser tratados. Era franco e esperava uma franqueza recíproca que eu não era capaz de retribuir-lhe. Afinal, ele não tinha nenhum padrão de mas­culinidade, de virilidade, para complicar seu amor-próprio. Por outro lado, se ele podia reduzir o tom do seu orgulho, como percebi que fizera comigo, talvez eu pudesse dispensar os elementos competitivos de meu auto-respeito masculino que ele tão pouco entendia, tanto quanto eu não entendia bem seu shifgrethor…

— Quanto percorremos hoje?

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