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A Mão Esquerda da Escuridão

Электронная книга - «A Mão Esquerda da Escuridão». Краткое содержание книги:

Genly Ai foi enviado a Gethen com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal. Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. Nessa sociedade complexa, homens e mulheres são um só e nenhum ao mesmo tempo. Os indivíduos não possuem sexo definido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero, sendo essas as bases da vida do planeta. Mas Genly é humano demais. A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.
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Alguém veio à noite, um homem sozinho. Parou à soleira e ficou quieto, contemplando o homem ensangüen­tado na lareira. Entrou, então, apressadamente e fez uma cama de peles tiradas de uma velha arca, acendeu o fogo e fez curativos nos ferimentos de Therem.

Quando ele viu o jovem olhar para ele, disse:

— Eu sou Therem de Stok.

— E eu sou Therem de Estre.

Houve um silêncio entre ambos. Então o jovem sorriu:

— Você tratou dos meus ferimentos para me matar, Stokven?

— Não — disse o mais velho.

— Como aconteceu que você, o Lorde de Stok, esteja aqui, sozinho, nesta terra em litígio?

— Eu venho muito aqui — replicou Stokven.

Procurou o pulso do jovem e sua mão para ver se tinha febre; por um instante a palma de sua mão se colocou con­tra a palma da mão do jovem, dedo por dedo; ambas eram iguais, como as mãos de um mesmo homem.

— Somos inimigos mortais — disse Stokven.

— Assim é, mas eu nunca o vi antes.

Stokven desviou o rosto para o lado e continuou:

— Eu já o vi, há muito tempo. Meu maior desejo é que haja paz entre nossas casas.

— Jurarei paz com você — respondeu o jovem Therem.

Assim fizeram e não falaram mais, adormecendo, em seguida, o ferido. Pela manhã, o senhor de Stokven tinha ido embora. Um grupo de gente do vilarejo chegou à cabana e levou Therem de volta para seu lar, em Estre. Aí, ninguém ousou se opor à vontade do senhor, cuja decisão havia sido consumada, a sangue, no lago gelado. Por morte de Sorve, Therem tornou-se o senhor de Estre. Dentro de um ano, ele terminou com a velha rivalidade, dando metade das ter­ras em litígio para o domínio de Stok. Por isto e pelo assas­sinato de seus irmãos de criação, ele passou a ser chamado Estraven, o Traidor. Entretanto, seu primeiro nome, Therem, continuou sendo dado às crianças desse domínio.

X

Confabulações em Mishnory

Na manhã seguinte, quando terminei o desjejum que me fora servido na suíte da mansão de Shusgis, o telefone emitiu seu toque polido. Quando tirei o receptor do gancho, a pessoa que me chamava falou em karhideano:

— Sou Therem Harth rem ir Estraven. Posso subir?

— Pois não…

Fiquei satisfeito em confrontar-me com ele novamente. Estava claro que nenhum relacionamento estreito seria possível entre nós. Mesmo considerando que seu infortúnio e exílio tinham sido causados por minha missão, eu não podia me responsabilizar por eles, e não tinha nenhum sentimento de culpa racional; seus atos e motivos não tinham ficado claros para mim em Erhenrang e eu sentia que não podia confiar nele. Desejava mesmo não vê-lo misturar-se com os camaradas orgotas que tinham me recebido tão bem. Sua presença era uma complicação e um embaraço para mim. Ele foi introduzido nos meus aposentos por um dos inúme­ros empregados da casa. Fiz com que se sentasse numa gran­de poltrona estofada e ofereci-lhe uma cerveja matutina. Recusou. Suas maneiras não eram constrangidas — ele já abandonara a timidez há muito tempo, se é que algum dia a tivera —, mas estava comedido, arredio, distante.

— A primeira nevada — disse. E vendo-me olhar em direção às pesadas cortinas: — Não olhou ainda para fora?

Afastei as cortinas e vi os flocos de neve rodopiando e caindo pesadamente nos telhados, apesar de soprar uma aragem leve na rua. Era o 17.° dia —odarhard gor — do primeiro mês de outono.

— Ainda é cedo para nevar — murmurei, com os olhos deslumbrados pela magia da neve.

— Estão prevendo um inverno rigoroso este ano.

Deixei cair as cortinas. A suave luz exterior batera nas suas feições, revelando uma fisionomia envelhecida. Ele havia passado por maus pedaços desde que o vira pela última vez na residência vermelha, ao lado de sua lareira.

— Tenho aqui comigo o que me pediram para lhe entregar — falei, e dei-lhe o maço de dinheiro envolto em papel metálico que eu colocara sobre a mesa à sua espera. Apanhou-o e agradeceu discretamente. Permaneci de pé e ele, após instantes, ainda segurando o pacote nas mãos, levantou-se. Minha consciência me incomodava, mas não ten­tei apaziguá-la. Queria desencorajá-lo de se dirigir a mim, já que para ele isso significava humilhação; era muito penoso.

Olhou-me diretamente nos olhos. Sua estatura era bem menor que a minha; de pernas curtas e compacto, não era nem mesmo da altura das mulheres da minha raça. Entretanto, quando me olhava, não parecia estar me olhando de uma posição mais baixa. Não o encarei; examinei o rádio que estava na mesa com um ar de interesse abstrato.

— Não se pode acreditar em tudo o que se ouve no rádio, por aqui — disse ele de maneira agradável. — Pare­ce-me que em Mishnory você vai precisar receber algumas informações, e conselhos.

— Creio que há um número bem grande de pessoas que desejam fornecê-los.

— E há segurança em números, hein? Dez é um nú­mero que inspira mais confiança que 1? Desculpe-me. Não deveria estar falando em karhideano, esqueci-me. — E con­tinuou em orgota: — Homens banidos não devem nunca se expressar na sua língua nativa; sai muito carregada de pa­lavras amargas; e esta língua é mais adequada a traidores, creio. Ela desliza pelos lábios como mel… Sr. Ai, quero agradecer-lhe pela gentileza que teve de nos prestar esse serviço. Tanto para mim como para meu velho amigo e kemmering Ashe Foreth. Em nosso nome eu lhe agradeço e posso retribuir-lhe em forma de um conselho. — Parou. Eu me mantive quieto. Nunca o ouvira proferir essa espécie de cortesia dura, mas elaborada. Não tinha a menor idéia do que isso significava. Ele continuou: — O senhor é, em Mishnory, o que nunca foi em Erhenrang. Lá diziam que o senhor era; aqui eles dirão que o senhor não é. O senhor é o instrumento de uma facção. Eu o aconselho a ter cui­dado neste jogo, pela maneira como o estão manobrando. Aconselho-o a descobrir como é a facção inimiga, quem são eles, e nunca deixar que usem sua pessoa, pois eles não vão fazer nada em benefício seu ou de sua missão.

Silenciou. Estava a ponto de lhe pedir para que fosse mais claro quando ele disse:

— Adeus, Sr. Ai. — Voltou-se e saiu.

Fiquei paralisado. O homem era como um choque elé­trico — pegava a pessoa totalmente desprevenida. Ele aca­bara de me tirar toda a satisfação com que havia tomado a minha refeição matinal. Fui até a estreita janela e olhei para fora. A neve tinha rareado um pouco. Era bonito vê-la des­lizando pelo ar em flocos brancos, como a queda das péta­las de uma cerejeira em flor nos pomares do meu país natal, quando.o vento primaveril sopra nas verdes encostas de Borland, onde nasci; na Terra, na quente Terra, onde as árvores ficam carregadas de flores na primavera. De repente, fiquei profundamente abatido e saudoso. Dois anos eu já vivera neste maldito planeta e o terceiro inverno já come­çara antes de o outono ter-se consumado. Meses e meses de um frio incansável, gelado por fora e por dentro até a me­dula, geadas, gelo, vento, chuva, neve, frio… ali isolado, alienígena, sem uma alma em quem confiar. Pobre Genly! Deveria chorar?

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