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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Como quiser. – Habituara-se às devoções noturnas da esposa. Ela também rezava no septo real e frequentemente acendia velas à Mãe, à Donzela e à Velha. Tyrion achava toda aquela piedade excessiva, a bem da verdade, mas se estivesse no lugar dela, talvez também quisesse a ajuda dos deuses. – Confesso pouco saber dos deuses antigos – disse, tentando ser agradável. – Talvez algum dia possa me esclarecer. Até poderia acompanhá-la.

– Não – disse Sansa de imediato. – É... é gentil em sugerir isso, mas... não há devoções, senhor. Não há sacerdotes, canções ou velas. Só árvores e preces silenciosas. Iria aborrecê-lo.

– Tem certamente razão. – Ela conhece-me melhor do que eu pensava. – Se bem que o som do restolhar de folhas poderia ser mais agradável do que um septão qualquer cantarolando a respeito dos sete aspectos da graça. – Tyrion mandou-a embora com um gesto. – Não me intrometerei. Proteja-se bem, senhora, o vento lá fora é fresco. – Sentiu-se tentado a perguntar o que ela pedia ao rezar, mas Sansa era tão obediente que podia realmente lhe contar, e ele suspeitava de que não gostaria de saber.

Voltou ao trabalho depois que ela saiu, tentando seguir alguns dragões de ouro pelo labirinto dos livros-mestres do Mindinho. Petyr Baelish não acreditara em deixar o ouro guardado e juntando pó, isso era certo, mas quanto mais Tyrion procurava compreender suas contas, mais lhe doía a cabeça. Falar de reproduzir dragões em vez de trancá-los no tesouro estava muito bem, mas alguns daqueles empreendimentos cheiravam pior do que peixe pescado há uma semana. Não teria deixado tão prontamente Joffrey atirar os Homens Chifrudos por cima das muralhas se soubesse quantos dos malditos bastardos tinham recebido empréstimos da coroa. Teria de mandar Bronn encontrar seus herdeiros, mas temia que isso se revelasse tão infrutífero quanto tentar espremer prata de um peixinho-prateado.

Quando a convocatória do senhor seu pai chegou, foi a primeira vez, até onde Tyrion se lembrava, em que se sentiu contente por ver Sor Boros Blount. Fechou os livros-mestres com um sentimento de gratidão, apagou a candeia de azeite com um sopro, amarrou um manto em volta dos ombros e bamboleou através do castelo até a Torre da Mão. O vento era fresco, tal como prevenira Sansa, e havia cheiro de chuva no ar. Quando Lorde Tywin o dispensasse, talvez devesse ir ao bosque sagrado, para trazer Sansa para casa antes que ficasse encharcada.

Mas tudo isso foi varrido da sua cabeça quando entrou no aposento privado da Mão e deparou com Cersei, Sor Kevan e o Grande Meistre Pycelle reunidos em volta de Lorde Tywin e do rei. Joffrey estava quase aos saltos, e Cersei saboreava um sorrisinho cheio de si, embora Lorde Tywin parecesse tão sombrio como sempre. Pergunto-me se ele seria capaz de sorrir, mesmo se quisesse.

– O que aconteceu? – perguntou Tyrion.

O pai estendeu um rolo de pergaminho para ele. Alguém o alisara, mas ainda tentava se enrolar. “A Roslin pegou uma bela truta gorda”, dizia a mensagem. “Os irmãos ofereceram-lhe um par de pele de lobo como presente de casamento.” Tyrion virou o pergaminho para inspecionar o selo quebrado. A cera era cinza-prateada, e impressas nela encontravam-se as torres gêmeas da Casa Frey.

– O Senhor da Travessia imagina que está sendo poético? Ou será que isso pretende nos confundir? – Tyrion fungou. – A truta deve ser Edmure Tully, as peles...

– Ele está morto! – Joffrey soava tão orgulhoso e feliz que daria para achar que tinha sido ele quem esfolou Robb Stark em pessoa.

Primeiro o Greyjoy, e agora o Stark. Tyrion pensou na criança sua esposa, que naquele momento rezava no bosque sagrado. Rezando aos deuses do pai para que concedam ao irmão a vitória e mantenham a mãe a salvo, sem dúvida. Os deuses antigos não ligavam mais para as preces do que os novos, aparentemente. Talvez devesse sentir-se reconfortado por isso.

– Os reis estão caindo como folhas, neste outono – disse. – Aparentemente, nossa guerrinha está se ganhando sozinha.

– As guerras não se ganham sozinhas, Tyrion – disse Cersei com uma doçura venenosa. – O senhor nosso pai ganhou esta guerra.

– Nada está ganho enquanto tivermos inimigos em campo – preveniu-os Lorde Tywin.

– Os senhores do rio não são nada tolos – concordou a rainha. – Sem os nortenhos, não podem esperar resistir ao poderio combinado de Jardim de Cima, Rochedo Casterly e Dorne. Certamente preferirão a submissão à destruição.

– A maioria, sim – concordou Lorde Tywin. – Resta Correrrio, mas enquanto Walder Frey tiver Edmure Tully como refém, o Peixe Negro não se atreverá a constituir uma ameaça. Jason Mallister e Tytos Blackwood continuarão lutando em nome da honra, mas os Frey podem manter os Mallister encurralados em Guardamar, e com o incitamento certo, Jonos Bracken pode ser persuadido a mudar de fidelidade e atacar os Blackwood. No fim, dobrarão os joelhos, sim. Pretendo oferecer termos generosos. Qualquer castelo que se renda a nós será poupado, exceto um.

– Harrenhal? – disse Tyrion, que conhecia o pai.

– É melhor que o reino se livre desses Bravos Companheiros. Ordenei a Sor Gregor para passar o castelo na espada.

Gregor Clegane. Parecia que o pai pretendia minar a Montanha até a última pepita de minério antes de entregá-la à justiça de Dorne. Os Bravos Companheiros acabariam como cabeças montadas em espigões, e Mindinho entraria de passeio em Harrenhal, sem uma única mancha de sangue naquelas suas belas roupas. Perguntou a si mesmo se Petyr Baelish já teria chegado ao Vale. Se os deuses forem bons, enfrentou com uma tempestade no mar e afundou-se. Mas quando os deuses tinham sido razoavelmente bons?

– Deviam ser todos passados na espada – declarou de repente Joffrey. – Os Mallister, os Blackwood e os Bracken... todos. São traidores. Quero-os mortos, avô. Não quero nenhum termo generoso. – O rei virou-se para o Grande Meistre Pycelle. – E também quero a cabeça de Robb Stark. Escreva ao Lorde Frey e diga-lhe. O rei ordena. Vou servi-la a Sansa em meu banquete de casamento.

– Senhor – disse Sor Kevan numa voz chocada –, a senhora é agora sua tia pelo casamento.

– Uma brincadeira. – Cersei sorriu. – Joff não falava a sério.

– Falava, sim – insistiu Joffrey. – Ele era um traidor, e quero a sua estúpida cabeça. Vou obrigar Sansa a beijá-la.

Não. – A voz de Tyrion estava enrouquecida. – Sansa já não é sua para atormentar. Veja se percebe isso, monstro.

Joffrey deu um sorriso zombeteiro.

– O monstro é você, tio.

– Ah, sou? – Tyrion inclinou a cabeça. – Então talvez devesse falar comigo mais de mansinho. Os monstros são animais perigosos, e agora os reis parecem andar morrendo como moscas.

– Podia cortar sua língua por dizer isso – disse o jovem rei, corando. – Sou o rei.

Cersei apoiou uma mão protetora no ombro do filho.

– Deixe o anão fazer todas as ameaças que quiser, Joff. Quero que o senhor meu pai e o meu tio vejam aquilo que ele é.

Lorde Tywin ignorou aquilo; foi a Joffrey que se dirigiu.

– Aerys também achava que tinha de lembrar aos homens que era o rei. E também era muito amigo de arrancar línguas. Pode interrogar Sor Ilyn Payne a esse respeito, embora não vá obter resposta.

– Sor Ilyn nunca se atreveu a provocar Aerys como o seu Duende provoca Joff – disse Cersei. – Ouviu Tyrion. “Monstro”, disse ele. À Graça Real. E ameaçou-o...

– Fique calada, Cersei. Joffrey, quando os seus inimigos o desafiarem, tem de lhes servir aço e fogo. Mas quando se ajoelham, tem de ajudá-los a se levantar. De outro modo, nunca ninguém dobrará o joelho. E qualquer homem que tenha de dizer “sou o rei” não é rei de verdade. Aerys nunca compreendeu isso, mas você compreenderá. Depois de ganhar a sua guerra, restauraremos a paz régia e a justiça real. Em vez de cabeças, preocupe-se é com o cabaço de Margaery Tyrell.

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