As areias do tempo [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «As areias do tempo [em Português]». Краткое содержание книги:
Era um homem complexo, um realista que compreendia as enormes desigualdades contra si, um romântico disposto a morrer por aquilo em que acreditava.
Pamplona era uma cidade enlouquecida. Era a última manhã das corridas de touros, a Fiesta San Fermín, a celebração anual realizada de 7 a 14 de Junho. Trinta mil visitantes enxameavam a cidade, procedentes do mundo inteiro. Alguns estavam ali apenas para observar o perigoso espetáculo da corrida dos touros, outros queriam provar sua coragem, correndo na frente dos animais em disparada. Todos os quartos de hotel há muito que estavam ocupados, e universitários de Navarra dormiam em vãos de portas, saguões de bancos, automóveis, na praça central, e até mesmo nas ruas e calçadas da cidade.
Os turístas lotavam os cafés e os hotéis, assistindo aos ruidosos e pitorescos desfiles de gigantes de papier-mâché e escutando as músicas das bandas que desfilavam. Os participantes do desfile usavam mantos violetas, com capuzes verdes, vermelhos ou dourados. Fluindo as ruas, as procissões pareciam rios de arco-íris. A explosão de fogos de artifício pelos postes e fios dos bondes aumentavam o barulho e a confusão geral.
A multidão comparecia à tourada final da tarde, mas o evento mais espetacular era o encierro - a corrida matutina dos touros que lutariam mais tarde, naquele mesmo dia.
Dez minutos antes da meia-noite, na noite da véspera, os touros eram levados dos corrales de gas, pelas ruas escuras da parte inferior da cidade, atravessando o rio por uma ponte, até o curral na base da Calle Santo Domingo, fechada por barricadas de madeira em cada esquina, até alcançarem os currais de Plaza de Hemingway, onde ficavam até a tourada à tarde.
De meia-noite às seis horas da manhã os visitantes permaneciam acordados, bebendo, cantando e fazendo amor, excitados demais para dormir. Os que participariam da corrida de touros usavam um lenço vermelho de San Fermín em volta do pescoço.
Às quinze para as seis da manhã as bandas começaram a circular pelas ruas, tocando a música vibrante de Navarra. Às sete horas em ponto um rojão voava pelo ar, para anunciar a abertura dos portões do curral. A multidão era dominada por uma expectativa febril. Momentos depois um segundo rojão era disparado, um aviso à cidade de que os touros já estavam correndo. O que se seguia era um espetáculo inesquecível.
Primeiro vinha o som. Começava como um tênue e distante sussurro no vento, quase imperceptível, depois ficava cada vez mais alto, até se transformar numa explosão de cascos batendo, e subitamente seis bois e seis touros apareciam. Cada um pesando cerca de setecentos quilos, avançavam pela Calle Santo Domingo como expressos mortíferos. Por dentro das barricadas de madeira instaladas em cada esquina, para manter os touros confinados a uma única rua, havia centenas de jovens ansiosos e nervosos, decididos a provar sua bravura enfrentando os animais enfurecidos.
Os touros corriam da extremidade da rua, passavam pela Calle Laestrafeta e a Calle de Javier, passavam por farmácias e lojas de roupas, pelo mercado de frutas, a caminho da Plaza de Hemingway, e soavam gritos de olé da multidão frenética. Com a chegada dos animais, começavam uma debandada desesperada para escapar aos chifres afiados e cascos letais. A repentina realidade da morte se aproximando fazia com que alguns participantes corressem para a segurança dos vãos de portas e saídas de incêndio. Eram acompanhados por escárnios de "cobardon". Os poucos que tropeçavam e caíam no caminho dos touros eram logo puxados para um lugar seguro.
Um menino e o avó escondiam-se atrás de uma barricada, ofegantes com a emoção do espetáculo que ocorria tão perto dali.
- Olhe só para eles! - exclamou o velho. - Magnífico!
O menino estremeceu.
- Tenho medo, avó.
O velho passou o braço por seus ombros.
- Sim, Manuelo. É assustador, mas também maravilhoso. Já corri com os touros uma vez. Não há nada igual. Você testa a si mesmo contra a morte, e isso faz com que se sinta um homem.
Em geral, levava dois minutos para os animais galoparem pelos novecentos metros da Calle Santo Domingo até a arena; no momento em que os touros entravam no curral, um terceiro rojão devia surgir no céu. Naquele dia o terceiro rojão não explodiu, pois ocorreu um incidente que nunca antes acontecera nos quatrocentos anos de história de touros de Pamplona.
Enquanto os animais avançavam pela rua estreita, meia dúzia de homens, vestidos nos trajes pitorescos da "feria", mudaram as posições das barricadas. Os touros foram obrigados a deixar a rua exclusiva e ficaram à solta no coração da cidade. O que, um momento antes, fora uma comemoração feliz se transformou no mesmo instante num pesadelo. Os animais frenéticos atacaram os espectadores atordoados. O menino e o avó foram dos primeiros a morrer, derrubados e pisoteados pelos touros. Violentas chicotadas atingiram um carrinho de bebê e mataram a criança indefesa, derrubando a mãe com a cara esmagada. A morte pairava no ar por toda a parte. Os animais colidiam com espectadores desprotegidos, derrubando mulheres e crianças, enfiando os chifres compridos e fatais nas pessoas, barracas de comida e estátuas, arrasando tudo o que tinha o azar de se encontrar pela frente. Todos gritavam desesperados, na tentativa de escapar do caminho dos animais enfurecidos.
Um furgão vermelho brilhante apareceu à frente dos touros, que se viraram para atacá-lo, seguindo pela Calle de Estrella, a rua que levava ao "cárcel", a prisão de Pamplona.
O "cárcel" é um prédio de pedra, de dois andares, janelas gradeadas, aparência assustadora. Há guaritas nos quatro cantos, e a bandeira espanhola, vermelha e amarela, tremula por cima da porta. Um portão se abre para um pequeno pátio. O segundo andar do prédio consiste de celas, em que estão os presos condenados à morte. No interior da prisão, um corpulento guarda, com um uniforme da Polícia Armada, conduzia um sacerdote de hábito preto pelo corredor do segundo andar. O guarda carregava uma submetralhadora. Ao perceber a expressão inquisitiva nos olhos do sacerdote à visão de arma, o guarda explicou:
- O cuidado nunca é demais aqui, padre. Temos a escória da terra neste andar.
O guarda pediu ao padre que passasse por um detetor de metal, muito parecido com os usados nos aeroportos.
- Desculpe, padre, mas os regulamentos…
- Não tem problema, meu filho.
No momento em que o padre passou, uma sirene estridente irrompeu no corredor. Instintivamente, o guarda contraiu a mão que empunhava a submetralhadora. O padre virou-se e sorriu para o guarda, murmurando:
- A culpa é minha. - Removeu uma pesada cruz de metal que pendia do pescoço numa corrente de prata e entregou-a ao guarda.
Quando tornou a passar, o detetor permaneceu em silêncio. O guarda devolveu a cruz e os dois continuaram a jornada pelas profundezas da prisão.
O mau cheiro no corredor, perto das celas, era opressivo. O guarda estava com um ânimo filosófico.
- Está perdendo seu tempo aqui, padre. Estes animais não têm almas para serem salvas.
- Ainda assim, meu filho, devemos tentar.
O guarda sacudiu a cabeça.
- Posso lhe garantir que os portões do inferno estão à espera para escolher os dois.
O padre olhou surpreso para o guarda.
- Dois? Fui informado que havia três que precisavam de confissão.
O guarda encolheu os ombros.
- Poupamos um pouco do seu tempo. Zamora morreu na enfermaria essa manhã. Ingrato. - Eles alcançaram as celas mais distantes. - Chegamos, padre.
O guarda destrancou a porta de uma cela, depois recuou, cauteloso, enquanto o padre entrava. Tornou a trancar a cela e ficou parado no corredor, alerta a qualquer sinal de problema.
O padre aproximou-se do vulto no imundo catre da prisão.
- Seu nome, meu filho?