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As areias do tempo [em Português]

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As areias do tempo [em Português]
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- Oh que dia… o que está acontecendo? - perguntou Lucia. - Quem são eles? - Eram as primeiras palavras em voz alta desde que ingressara no convento.

A reverenda madre pôs a mão direita sob sua axila esquerda, três vezes, o sinal para esconder. Lucia fitou-a, incrédula.

- Pode falar agora! Vamos sair daqui, pelo amor de Deus! E é mesmo pelo amor de Deus!

Patrício Arrieta aproximou-se de Acoca.

- Já procuramos por toda parte, coronel. Não há sinal de Jaime Miró ou de seus homens.

- Procurem de novo - insistiu Acoca, obstinado.

Foi neste momento que a reverenda madre lembrou-se do único tesouro que o convento possuía. Dirigiu-se à irmã Teresa e sussurrou:

- Tenho uma missão para você. Pegue a cruz de ouro e leve-a para o convento em Mendavia. Precisa tirá-la daqui. Depressa!

Irmã Teresa tremia tanto que sua touca adejava em ondas.

Olhava fixamente para a reverenda madre, paralisada. Passara os últimos trinta anos de sua vida no convento. A perspectiva de sair dali estava além da imaginação e fez o sinal de "não posso."

A reverenda madre estava frenética.

- A cruz não deve cair nas mãos desses homens de Satã. Faça isso por Jesus.

Uma luz surge nos olhos de irmã Teresa. Ela empertigou-se, fez o sinal de "por Jesus." Virou-se e seguiu apressada para a capela.

Irmã Graciela aproximou-se do grupo, olhando atordoada para a confusão desvairada do lugar.

Os homens estavam se tornando cada vez mais violentos, quebrando tudo pela frente. O coronel Acoca observava-os com uma expressão de aprovação. Lucia virou-se para Megan e Graciela.

- Não sei o que vocês duas estão pensando, mas eu vou sair daqui. Vocês vêm comigo?

Elas fitaram-na, aturdidas demais para responderem.

Irmã Teresa aproximou-se delas, apressada, carregando alguma coisa envolta por uma lona. Alguns homens conduziam mais freiras para o refeitório.

- Vamos logo - insistiu Lucia.

As irmãs Teresa, Megan e Graciela hesitaram por um momento, depois seguiram Lucia para a porta da frente. Ao virarem a extremidade do comprido corredor, perceberam que a enorme porta fora arrombada. Um homem seguiu de repente na frente delas.

- Estão indo para algum lugar? Podem voltar. Meus amigos têm planos para vocês.

Lucia disse:

- Temos um presente para você.

Ela pegou um dos pesados castiçais de metal que ficavam nas mesas dos vestíbulos, e sorriu. O homem ficou perplexo.

- O que pode fazer com esse castiçal?

- Isto! - Lucia bateu com o castiçal na cabeça do homem, e ele caiu no chão, inconsciente.

As três freiras ficaram horrorizadas.

- Depressa! - Disse Lucia.

Um instante depois, Lucia, Megan, Graciela e Teresa estavam no pátio da frente, correndo para o portão, sob a noite estrelada. Lucia parou.

- Vou me separar de vocês. Eles vão procurá-las, e por isso é melhor saírem daqui o mais depressa possível. - Virou-se e começou a sair para as montanhas, que se elevavam ao longe, muito acima do convento. "Eu me esconderei na Suíça. É muito azar. Aqueles filhos da mãe destruíram uma cobertura perfeita."

Enquanto subia pela encosta, Lucia olhou para baixo. Lá de cima, podia avistar as três irmãs. Por mais incrível que pudesse parecer, continuavam paradas na frente do portão do convento, como três estátuas vestidas de preto. "Pelo amor de Deus!", pensou. "Saiam logo daí, antes que eles as peguem! Depressa!"

Elas não podiam se mexer. Era como se todos os seus sentidos tivessem permanecido paralizados por tanto tempo que agora se encontravam incapazes de absorver o que lhes acontecia. As freiras olhavam para os pés. Tão atordoadas que não podiam pensar. Haviam passado tanto tempo enclausuradas por trás dos portões de Deus, apartadas do mundo, que agora, fora dos portões protetores, viam-se dominadas por sentimentos de confusão e pânico. Não tinham a menor idéia que rumo seguir ou o que fazer.

Lá dentro, a vida toda era organizada para elas. Haviam sido alimentadas, vestidas, instruídas sobre o que fazer e quando fazer. Viviam pelas regras. Agora, subitamente, não havia mais regras. O que Deus queria delas? Qual seria o Seu plano? Ficaram paradas, juntas, com medo de falarem, com medo de olharem uma para a outra.

Hesitante, irmã Teresa apontou para as luzes de Ávila, ao longe, e fez sinal de "por ali." Indecisas, elas começaram a se encaminhar para a cidade.

Observando-as do alto da colina, Lucia pensou: "Não suas idiotas! Este será o primeiro lugar em que eles vão procurá-las. Ora, o problema é de vocês. Já tenho os meus." Ficou parada por um instante, observando as freiras se encaminharem para a perdição, direto para o matadouro. "Merda."

Lucia desceu a encosta, tropeçando em pedras soltas, correu atrás das irmãs, o hábito incômodo diminuindo a velocidade.

- Esperem um instante! - gritou. - Parem!

As irmãs pararam e se viraram. Lucia aproximou-se correndo, a respiração ofegante.

- Estão indo pelo caminho errado. O primeiro lugar que irão procurar vocês será na cidade. Devem se esconder em algum outro lugar.

As três irmãs fitaram-na em silêncio. Lucia acrescentou, impaciente:

- As montanhas. Subam as montanhas. Sigam-me. - Virou-se e começou a voltar para as montanhas. As outras ficaram olhando e depois de um instante partiram no seu encalço, uma a uma.

De vez em quando Lucia olhava para trás, para se certificar que as outras a seguiam. "Por que não posso cuidar da minha própria vida?" pensou. "Elas não são responsabilidade minha. E é mais perigoso se ficamos juntas." Continuou a subir, cuidando para que as outras não a perdessem de vista.

As irmãs encontraram a maior dificuldade na escalada, e cada vez ficavam mais lentas, Lucia parava e esperava por elas.

"Vou me livrar delas amanhã."

- Precisamos andar mais depressa - exortou Lucia.

A batida chegara ao fim no convento. As freiras atordoadas, os hábitos amarrotados e manchados de sangue, estavam sendo embarcadas em caminhões fechados, anônimos.

- Leve-as de volta para o quartel-general em Madrid - exortou o coronel Acoca. - E mantenha todas no isolamento.

- Sob que acusação?

- Esconder terroristas.

- Claro, coronel. - Patrício Arreta hesitou por instantes. - Quatro freiras estão desaparecidas.

Os olhos do coronel Acoca tornaram-se frios.

- Encontre-as.

O coronel Acoca retornou a Madrid e foi se reportar ao primeiro-ministro.

- Jaime Miró escapou antes de chegarmos ao convento.

Martínez balançou a cabeça.

- Eu já soube. - Não pôde deixar de especular se Jaime Miró alguma vez estivera no convento. De uma coisa estava certo. O coronel Acoca estava perigosamente escapando ao controle.

Houvera violentos protestos pelo brutal ataque ao convento. O primeiro-ministro escolheu as palavras com todo cuidado:

- Os jornais estão me criticando pelo acontecido.

- Os jornais estão transformando esse terrorista num herói - retrucou Acoca, impassível. - Não podemos permitir que nos pressionem.

- Ele está causando muito embaraço ao governo, coronel. E as quatro freiras… se elas falarem…

- Não se preocupe. Não vão longe. Eu as pegarei, e encontrarei Miró.

O primeiro-ministro já decidira que não podia mais correr riscos.

- Coronel, quero que providencie para que as 36 freiras sejam bem tratadas, e estou ordenando que o exército participe da busca a Miró e os outros. Vai trabalhar com o coronel Sostelo.

Houve uma pausa longa e perigosa.

- Qual de nós estará no comando da operação?

Os olhos de Acoca eram frios. O primeiro-ministro engoliu em seco.

- Você, é claro.

Lucia e as três irmãs viajaram pelo início da manhã, seguindo para o norte, na direção das montanhas, afastando-se de Ávila e do convento. As freiras, acostumadas a se movimentarem em silêncio, quase não faziam barulho. Os únicos sons eram o farfalhar dos hábitos, o retinir dos rosários, o estalido ocasional de um graveto quebrado e as respirações ofegantes, enquanto subiam cada vez mais.

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