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As areias do tempo [em Português]

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As areias do tempo [em Português]
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Graciela estava no chão, lutando desesperadamente para se desenvencilhar, arranhando e empurrando Carrillo.

- Mas que droga! Fique quieta! - Estava ficando sem fôlego. Ouviu um som e levantou os olhos. Viu um salto de um sapato avançando para sua cabeça e foi a última coisa de que se lembrou depois. Megan levantou a trêmula Graciela e abraçou-a.

- Calma, calma… Está tudo bem. Ele não vai mais incomodá-la.

Alguns minutos se passaram antes que Graciela pudesse falar, balbuciando, suplicante:

- Ele… ele… não foi minha culpa desta vez.

Lucia e Teresa entraram na loja. Lucia percebeu toda a situação com um rápido olhar.

- O filho da mãe!

Olhou para o vulto inconsciente e seminu no chão. Enquanto as outras observavam, Lucia pegou alguns cintos num balcão e amarrou as mãos de Carrillo nas costas.

- Amarre os pés - disse a Megan.

Megan pos-se a trabalhar. Lucia finalmente levantou-se satisfeita.

- Pronto. Quando abrirem a loja esta tarde, ele terá de explicar o que está fazendo aqui. - Estudou Graciela atentamente. - Você está bem?

- Eu… eu… estou. - Graciela tentou sorrir.

- É melhor sairmos daqui - disse Megan. - Vista-se. Depressa.

Quando estavam prontas para sair, Lucia disse:

- Esperem um instante.

Foi até a caixa registradora e apertou uma tecla. Havia algumas notas e cem pesetas ali. Lucia tirou-as, pegou uma bolsa no balcão e guardou as notas dentro. Viu a expressão desaprovadora no rosto da irmã Teresa.

- Pense da seguinte maneira - disse Lucia. - Se Deus não quisesse que ficássemos com este dinheiro, irmã, não o poria aqui para nós.

Elas estavam sentadas no café, reunidas. Irmã Teresa estava dizendo:

- Devemos levar a cruz ao convento em Mendavia o mais depressa possível. Haverá segurança ali para todas nós.

"Para mim não", pensou Lucia. "Minha segurança é aquele banco suíço. Mas uma coisa de cada vez. Preciso antes de me apoderar da cruz."

- O convento em Mendavia não fica ao norte daqui?

- Fica.

- Os homens estarão à nossa procura em cada cidade. Por isso, devemos dormir nas montanhas esta noite.

"Ninguém ouvirá, mesmo que ela grite."

Uma garçonete trouxe os cardápios para a mesa e distribuiu-os. As irmãs olharam, com expressões confusas.

Subitamente, Lucia compreendeu. Há muitos anos que elas não tinham opção de qualquer tipo. No convento, comiam automaticamente a comida simples que lhes era servida. Agora, defrontavam-se com uma cornucópia de iguarias desconhecidas.

Irmã Teresa foi a primeira a se manifestar:

- Eu… eu quero um café e pão, por favor.

Irmã Graciela acrescentou:

- E eu também.

Megan declarou:

- Temos uma jornada longa e árdua pela frente. Sugiro que peçamos alguma coisa mais nutritiva, com ovos.

Lucia fitou-a com uma nova atenção. "É nela que devo ficar de olho", pensou Lucia. Em voz alta, ela declarou:

- Irmã Megan tem razão. Deixem que eu peço por vocês, irmãs. - Pediu laranjas em fatias, tortilhas de batatas, bacon, pão, geléia e café. - Estamos com pressa - avisou à garçonete.

A siesta terminava às quatro e meia, e toda cidade despertaria. Ela queria estar bem longe antes que isso acontecesse, antes que descobrissem Miguel Carrillo na loja de roupas.

Quando a comida chegou, as irmãs ficaram imóveis, olhando, aturdidas.

- Sirvam-se - exortou Lucia.

Elas começaram a comer, cautelosas a princípio, depois com a maior satisfação, superando os sentimentos de culpa. Irmã Teresa era a única que estava com problemas. Levou um pouco à boca e balbuciou:

- Eu… eu… não posso… é renúncia…

Megan disse:

- Não quer chegar ao convento, irmã? Então precisa comer para manter as forças.

- Está bem, vou comer. Mas prometo que não vou gostar - declarou irmã Teresa, empertigada.

Lucia precisou fazer um grande esforço para manter a expressão compenetrada.

- Está certo, irmã. Mas coma tudo.

Depois que acabaram, Lucia pagou a conta com uma parte do dinheiro que tirara da caixa registadora. Elas saíram para o sol quente. As ruas começaram a se encher, as lojas já estavam abrindo. "A esta altura, provavelmente, já encontraram Miguel Carrillo", pensou Lucia.

Ela e Teresa estavam impacientes em deixar a cidade, mas Graciela e Megan andavam devagar, fascinadas pelas vistas, sons e cheiros do lugar.

Só quando saíram para os arredores e se encaminharam para as montanhas é que Lucia começou a relaxar. Seguiram para o norte, subindo sempre, bem devagar devido ao terreno acidentado.

Lucia sentia-se tentada a perguntar a irmã Teresa se não gostaria que ela carregasse a cruz, mas achou melhor não dizer nada que pudesse despertar suspeitas na mulher mais velha. Ao chegarem a uma pequena clareira no alto, cercada por árvores, Lucia disse:

- Podemos passar a noite aqui. Pela manhã seguiremos para o convento em Mendavia.

O sol deslocava-se devagar pelo céu azul. A claridade estava em silêncio, excepto pelos sons confortáveis de verão. A noite finalmente caiu.

Uma a uma, as mulheres deitaram na relva verde.

Lucia ficou imóvel, a respiração leve, atenta a um silêncio mais profundo, à espera de que as outras adormecessem, a fim de entrar em ação.

Irmã Teresa estava encontrando dificuldades para dormir. Era uma experiência estranha dormir sob as estrelas, cercada por outras irmãs. Elas tinham nomes agora, rostos e vozes, e Teresa receava que Deus a punisse por esse conhecimento proibido.

Sentia-se terrivelmente perdida.

Irmã Megan também não conseguia dormir. Sentia-se excitada pelos acontecimentos do dia. "Como descobrira que o frade era uma fraude?" especulou. "E onde encontrei coragem para salvar irmã Graciela?" Sorriu, incapaz de evitar alguma satisfação consigo mesma, estando ciente de que tal sentimento era um pecado.

Graciela dormia, emocionalmente esgotada pelo que passara.

Remexia-se no sono, atormentada por sonhos em que era perseguida por corredores escuros e intermináveis.

Lucia Carmine mantinha-se imóvel, à espera. Assim ficou por quase duas horas, depois se sentou e deslocou-se pela escuridão, sem fazer barulho, na direção de irmã Teresa. Pegaria o embrulho e desapareceria.

Ao se aproximar de irmã Teresa, Lucia descobriu que ela estava acordada, ajoelhada, rezando. "Merda!" Lucia recuou apressada.

Tornou a se deitar, forçando-se a ser paciente. Irmã Teresa não poderia rezar durante a noite inteira. Precisava dormir um pouco.

Lucia planejou seus movimentos. O dinheiro tirado da caixa registadora seria suficiente para que pegasse um ônibus ou trem até Madrid. Ao chegar lá, seria fácil arrumar um penhorista.

Viu-se entregando-lhe a cruz de ouro. O homem desconfiaria de que era roubada, mas isso não faria a menor diferença. Ele teria muitos clientes ansiosos em comprá-la.

"Eu lhe darei cem mil pesetas pela cruz."

Ela a pegaria no balcão.

"Prefiro vender meu corpo primeiro."

"Cento e cinquenta mil pesetas."

"Prefiro derretê-la e deixar o ouro escoar pelo bueiro."

"Duzentas mil pesetas. Esta é minha última oferta."

"Está me roubando vergonhosamente, mas vou aceitar."

O homem estenderia as mãos para a cruz, na maior ansiedade.

"Sob uma condição."

"Uma condição?"

"Isso mesmo. Perdi meu passaporte. Conhece alguém que possa me providenciar outro?" Suas mãos ainda estariam na cruz de ouro.

Ele hesitaria, mas acabaria dizendo:

"Por acaso tenho um amigo que arruma essas coisas."

E o negócio seria fechado. Ela estaria a caminho da Suíça e da liberdade. Lembrou-se das palavras do pai:

"Há muito mais dinheiro lá do que poderia gastar em dez vidas."

Seus olhos começaram a fechar. Fora um longo dia.

Em seu meio sono, Lucia ouviu o repicar de um sino na aldeia distante. Provocou-lhe lembranças, de outro lugar, de outro tempo…

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