As areias do tempo [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «As areias do tempo [em Português]». Краткое содержание книги:
- Você é uma criança. Ponha logo as suas roupas e saia daqui - disse o mouro, a voz rouca.
E Graciela descobriu-se em movimento. Aproximou-se do mouro.
Passou os braços pela cintura dele, sentiu o membro duro comprimindo-se contra seu corpo.
- Não… - balbuciou. - Não sou uma criança.
A dor que se seguiu foi diferente de tudo o que Graciela já conhecera antes. Foi terrível, insuportável. Foi maravilhosa, inebriante, linda. Ela apertava o mouro com os braços. Ele a levou a um orgasmo depois de outro, e Graciela pensou: "Então todo o mistério é isso." E era maravilhoso finalmente conhecer o segredo de toda criação. Ser parte da vida, saber o que era a alegria, agora e para sempre.
- Que porra vocês estão fazendo? Era Dolores Pinero, aos gritos. Por um instante, tudo parou, ficou paralisado no tempo.
Dolores Pinero estava de pé ao lado da cama, olhando para a filha e o mouro. Graciela fitou a mãe, apavorada demais para falar. Os olhos de Dolores Pinero faiscavam com uma raiva insana.
- Sua puta! - berrou. - Sua puta nojenta!
- Mamãe… por favor…
Dolores Pinero pegou um pesado cinzeiro de ferro na mesinha-de-cabeceira e bateu com toda a força na cabeça da filha.
Foi a última coisa de que Graciela se lembraria.
Ela acordou numa enfermaria de hospital, grande e branca, com duas dúzias de camas, todas ocupadas. Enfermeiras corriam apressadas de um lado para outro, tentando atender às necessidades dos pacientes.
A cabeça de Graciela latejava com uma dor lancinante. Cada vez que se mexia, rios de fogo corriam por ela. Ficou deitada ali, escutando os gritos e gemidos das outras pacientes.
Ao final da tarde um jovem interno parou ao lado de sua cama. Tinha trinta e poucos anos, mas parecia velho e cansado.
- Finalmente acordou - disse.
- Onde estou? - Graciela descobriu que doía muito falar.
- Na enfermaria de caridade do Hospital Provincial de Ávila. Foi trazida ontem, em péssimo estado. Tivemos de dar vários pontos na sua testa. - O interno fez uma pausa. - O cirurgião-chefe decidiu cuidar de você pessoalmente. Disse que era bonita demais para ficar marcada por cicatrizes.
"Ele está enganado", pensou Graciela. "Ficarei marcada pelo resto da vida."
No segundo dia, padre Pérez foi visitar Graciela. Uma enfermeira arrastou uma cadeira para o lado da cama. O padre contemplou a moça linda e pálida deitada ali, e seu coração se estremeceu. A coisa terrível que acontecera com ela era o escândalo de Las Navas del Marqués, mas não havia nada que alguém pudesse fazer a esse respeito. Dolores Pinero contara à polícia que a filha machucara a cabeça ao cair. Padre Pérez perguntou então a Graciela:
- Está se sentindo melhor, criança?
Graciela assentiu, e o movimento fez com que sua cabeça doesse ainda mais.
- A polícia tem feito perguntas. Tem alguma coisa que gostaria que eu dissesse a eles?
Houve um silêncio prolongado, antes que ela balbuciasse:
- Foi um acidente.
O padre não pôde suportar a expressão nos olhos de Graciela.
- Entendo… - O que Graciela tinha a dizer era doloroso demais. - Conversei com sua mãe…
E Graciela soube de tudo no mesmo instante.
- Eu… não posso mais voltar para casa, não é mesmo?
- Infelizmente, não. Vamos conversar sobre isso. - Segurou-lhe a mão. - Voltarei para visitá-la amanhã.
- Obrigada, padre.
Depois que ele foi embora, Graciela rezou: "Querido Deus, deixe-me morrer, por favor. Não quero mais viver."
Não tinha onde ir e ninguém para procurar. Nunca mais veria sua casa. Nunca mais queria ir à escola ou contemplar os rostos familiares das professoras. Não lhe restava coisa alguma no mundo. Uma enfermeira parou ao pé da cama.
- Precisa de alguma coisa?
Graciela fitou-a em desespero. O que havia para dizer?
No dia seguinte, o interno tornou a aparecer.
- Tenho boas notícias - disse, constrangido. - Já está em condições de ter alta. - Era uma mentira, mas o resto do discurso foi verdadeiro. - Precisamos do leito.
Ela estava livre para sair… mas sair para onde?
Quando o padre Pérez chegou, uma hora depois, estava acompanhado por outro sacerdote.
- Este é o padre Berrendo, um velho amigo meu.
Graciela olhou para o padre de aparência frágil.
- Padre…
"Ele tinha razão", pensou o padre Berrendo. "Ela é mesmo linda."
Padre Pérez contara o que acontecera com Graciela. Berrendo esperava encontrar sinais visíveis do tipo de ambiente em que a criança vivera, uma dureza, desafio, autocompaixão. Mas não havia nada disso no rosto da moça.
- Lamento que tenha passado por momentos tão terríveis - disse-lhe padre Berrendo.
A frase insinuava um significado mais profundo. Padre Pérez acrescentou:
- Graciela, preciso voltar a Las Navas del Marqués. Vou deixá-la aos cuidados de padre Berrendo.
Graciela foi dominada por um súbito sentimento de pânico.
Sentiu que o último vínculo com sua casa estava sendo cortado.
- Não vá! - suplicou.
Padre Pérez pegou-lhe a mão e disse, gentilmente:
- Sei que se sente só, mas não está. Acredite em mim, não está só.
Uma enfermeira aproximou-se da cama, carregando um fardo. Entregou-o a Graciela.
- Aqui estão suas roupas. Lamento, mas terá que ir embora agora.
Um pânico ainda maior dominou Graciela.
- Agora?
Os dois padres trocaram um olhar.
- Por que não se veste e vem comigo? - sugeriu padre Berrendo. - Poderemos conversar.
Quinze minutos depois padre Berrendo ajudava Graciela a sair pela porta do hospital para o sol quente. Havia um jardim na frente com flores de cores fortes, mas Graciela estava atordoada demais para notá-las.
Quando estavam sentados em seu escritório, padre Berrendo disse:
- Padre Pérez me contou que você não tem para onde ir.
Graciela acenou com a cabeça.
- Não tem parentes?
- Só… - Era difícil dizer. - Só… minha mãe.
Padre Pérez disse que frequentava regularmente a igreja em sua aldeia. Uma aldeia que nunca mais tornaria a ver.
- É verdade.
Graciela pensou naquelas manhãs de domingo, a beleza dos serviços na igreja, o quanto ansiava estar com Jesus, escapando da angústia da vida que levara.
- Graciela, alguma vez pensou em entrar para um convento?
- Não. - Estava aturdida com a idéia.
- Há um convento aqui em Ávila… o convento Cisterciense. Elas a aceitariam ali.
- Eu… não sei…
A idéia era assustadora.
- Não é para todas - disse padre Berrendo. - E devo avisá-la que é a mais rigorosa de todas as ordens. Depois de passar pelos portões e tomar os votos, faz uma promessa a Deus de nunca mais sair.
Graciela ficou em silêncio, a mente povoada por pensamentos conflitantes, olhando para a janela. A perspectiva de se isolar do mundo era terrível. "Seria como ir para a prisão." Mas por outro lado, o que o mundo tinha a lhe oferecer? Dor e desespero além de sua capacidade de suportar. Pensara muitas vezes em suicídio. Aquilo podia representar uma saída para sua angústia.
Padre Berrendo acrescentou:
- Depende de você, minha criança. Se quiser, eu a levarei para conhecer a reverenda madre superiora.
- Está bem.
A reverenda madre estudou o rosto da moça à sua frente. Na noite passada, pela primeira vez em muitos e muitos anos, ela ouvira a voz. "Uma jovem virá ao seu encontro. Proteja-a."
- Quantos anos tem, minha filha?
- 14.
- Ela já tem idade suficiente.
No século quatro, o papa determinara que as jovens tinham permissão para se tornarem freiras aos 12 anos.
- Tenho medo - murmurou Graciela para a reverenda madre Betina.
"Tenho medo." As palavras ressoaram na mente de Betina.
"Tenho medo…"
Acontecera há muitos anos. Ela estava falando com o padre.