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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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Renly não foi lento em perceber as implicações.

– Então acredita que o rapaz os apanhou em incesto…

– Suplico-lhe, senhor, dê-me licença para ir até seu irmão Stannis e contar-lhe as minhas suspeitas.

– O que objetiva com isso?

– Robb porá de lado sua coroa se o senhor e seu irmão fizerem o mesmo – disse, esperando que fosse verdade. Faria com que se tornasse verdade, se fosse preciso; Robb a escutaria, mesmo que os seus senhores não o fizessem. – Permita que vocês três convoquem um Grande Conselho, um conselho como o reino não vê há cem anos. Iremos a Winterfell, para que Bran possa contar sua história e todos fiquem sabendo que os Lannister são os verdadeiros usurpadores. Deixe que os senhores reunidos dos Sete Reinos escolham quem os governará.

Renly soltou uma gargalhada.

– Diga-me, senhora, os lobos gigantes votam em quem deve liderar a alcateia? – Brienne trouxe as manoplas e o elmo do rei, coroado com chifres dourados que acrescentariam meio metro à sua altura. – O tempo para conversas terminou. Agora veremos quem é mais forte – Renly calçou uma manopla articulada verde e dourada na mão esquerda, enquanto Brienne se ajoelhava para afivelar seu cinto, carregado com o peso da espada e do punhal.

– Suplico-lhe em nome da Mãe – começou a dizer Catelyn quando uma súbita rajada de vento abriu a porta da tenda. Pensou vislumbrar movimento, mas quando virou a cabeça viu apenas a sombra do rei movendo-se nas paredes de seda. Ouviu Renly começar um gracejo, com a sombra movendo-se, erguendo a espada, negra sobre verde, com as velas tremeluzindo, estremecendo... Algo estava estranho, errado... E, então, viu a espada de Renly ainda na sua bainha, ainda guardada, mas a espada de sombra…

– Frio – disse Renly numa voz fraca e confusa, um instante antes de o aço de seu gorjal se rasgar como um pedaço de queijo sob a sombra de uma lâmina que não estava lá. Teve tempo para um pequeno arquejo antes que o sangue começasse a jorrar de sua garganta.

– Vossa Gr… Não! – Brienne, a Azul, gritou quando viu o maligno jorro, parecendo tão assustada como uma garotinha. O rei caiu em seus braços, com um lençol de sangue cobrindo a parte da frente de sua armadura, uma maré vermelho-escura que afogou seu verde e ouro. Mais velas tremeluziram e apagaram-se. Renly tentou falar, mas estava se afogando em seu próprio sangue. Perdeu a força nas pernas, e só os braços de Brienne o mantiveram em pé. A jovem atirou a cabeça para trás e gritou, sem palavras em sua angústia.

A sombra. Catelyn sabia que algo escuro e maligno tinha acontecido ali, algo que nem podia começar a compreender. Aquela nunca foi a sombra de Renly. A morte entrou por aquela porta e apagou sua vida tão depressa como o vento extinguiu suas velas.

Só se passaram alguns instantes antes de Robar Royce e Emmon Cuy entrarem de rompante, embora parecesse ter durado metade da noite. Um par de homens de armas juntou-se atrás deles com archotes. Quando viram Renly nos braços de Brienne e ela ensopada no sangue do rei, Sor Robar deu um grito de horror.

– Maldita mulher! – gritou Sor Emmon, o do aço coberto de girassóis. – Afaste-se dele, vil criatura!

– Deuses benignos, Brienne, por quê? – Sor Robar perguntou.

Brienne ergueu os olhos do corpo de seu rei. O manto arco-íris que pendia de seus ombros tinha se tornado vermelho onde o sangue do rei o ensopara.

– Eu… eu…

– Morrerá por isso – Sor Emmon tirou um machado de batalha de cabo longo de entre as armas que estavam empilhadas junto à porta. – Pagará pela vida do rei com a sua!

não! – Catelyn Stark gritou, encontrando por fim a voz, mas era tarde demais, a loucura do sangue tinha se apossado deles, e correram em frente com gritos que se sobrepuseram às suas palavras mais suaves.

Brienne moveu-se mais depressa do que Catelyn julgaria possível. Não tinha sua espada à mão; tirou a de Renly da bainha e a ergueu para parar a queda do machado de Emmon. Uma centelha brilhou, azul-esbranquiçada, quando o aço caiu sobre aço com um estrondo dilacerante, e Brienne ficou em pé com um salto, atirando rudemente para o lado o corpo do rei morto. Sor Emmon tropeçou nele quando tentou se aproximar, e a lâmina de Brienne cortou o cabo de madeira e fez saltar a cabeça do machado num rodopio. Outro homem atirou em suas costas um archote em chamas, mas o manto arco-íris estava empapado demais de sangue para arder. Brienne girou e desferiu um golpe, e archote e mão voaram. Chamas espalharam-se pelo tapete. O homem mutilado desatou aos gritos. Sor Emmon deixou cair o machado e tateou em busca da espada. O segundo homem de armas lançou uma estocada em Brienne. A Azul parou, e as espadas dançaram e voltaram a retinir uma contra a outra. Quando Emmon Cuy retomou o ataque, Brienne foi forçada a se retirar, mas de algum modo logrou mantê-los afastados. No chão, a cabeça de Renly rolou repugnantemente para um lado, e uma segunda e terrível boca escancarou-se, com o sangue agora saindo em ondas lentas.

Sor Robar tinha ficado para trás, incerto, mas agora estendia a mão até o cabo da espada.

– Robar, não, escute – Catelyn o agarrou pelo braço. – Estão cometendo uma injustiça, não foi ela. Ajude-a! Escute-me, foi Stannis – o nome estava em seus lábios antes mesmo de conseguir pensar no modo como lá chegara, mas, quando o proferiu, soube que era verdade. – Juro, você me conhece, foi Stannis quem o matou.

O jovem cavaleiro do arco-íris fitou aquela louca com olhos claros e assustados.

– Stannis? Como?

– Não sei. Feitiçaria, alguma magia negra, havia uma sombra, uma sombra – até para si mesma a voz soava descontrolada e enlouquecida, mas as palavras jorravam descontroladas enquanto as lâminas continuavam retinindo atrás dela. – Uma sombra com uma espada, juro, eu vi. São cegos? A moça o amava! Ajude-a! – olhou de relance para trás, viu o segundo guarda cair, a espada largada por dedos sem força. Lá fora ouviam-se gritos. Sabia que mais homens zangados irromperiam sobre eles a qualquer momento. – Ela é inocente, Robar. Tem a minha palavra, pela tumba do meu esposo e por minha honra como Stark.

Aquilo o fez se decidir.

– Eu os conterei – Sor Robar respondeu. – Leve-a – então, virou-se e saiu.

O fogo tinha chegado à parede e subia pelo lado da tenda. Sor Emmon pressionava duramente Brienne, ele vestido de aço esmaltado amarelo e ela de lã. Esquecera Catelyn, até que o braseiro de ferro se esmagou contra sua nuca. Como estava com o elmo, o golpe não fez nenhum mal duradouro, mas deixou-o de joelhos.

– Brienne, comigo – Catelyn ordenou. A moça não foi lenta para ver a oportunidade. Um golpe e a seda verde abriu-se. Saíram para a escuridão e o frio da alvorada. Vozes alteradas vinham do outro lado do pavilhão. – Por aqui – pediu Catelyn –, e devagar. Não devemos correr, senão vão nos perguntar por quê. Caminhe descontraída, como se nada houvesse de errado.

Brienne enfiou a espada no cinto e pôs-se ao lado de Catelyn. O ar da noite cheirava a chuva. Atrás delas, o pavilhão do rei ardia, com as chamas erguendo-se, altas, contra a escuridão. Ninguém fez um movimento para pará-las. Homens passavam por elas correndo, gritando sobre fogo, assassinato e feitiçaria. Outros reuniam-se em pequenos grupos e conversavam em voz baixa. Alguns rezavam, e um jovem escudeiro estava de joelhos, soluçando abertamente.

As forças de Renly já começavam a se desagregar à medida que os rumores se espalhavam de boca em boca. As fogueiras noturnas estavam quase extintas e, à medida que o leste começava a se iluminar, a imensa massa de Ponta Tempestade ia emergindo como um sonho de pedra, enquanto farrapos de névoa branca corriam pelo campo, fugindo do sol em asas de vento. Catelyn ouvira um dia a Velha Ama chamá-los de fantasmas da manhã, espíritos que regressavam às suas tumbas. E Renly era agora um deles, morto como o irmão Robert, como seu querido Ned.

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