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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– O teto é dele, as regras também – recordou-lhes o patrulheiro Ronnel Harcley. – Craster é amigo da Patrulha.

Um amigo, pensou Sam, enquanto escutava os gritos abafados de Goiva. Craster era um homem brutal que governava as mulheres e filhas com mão de ferro, mesmo assim sua fortaleza era um refúgio.

– Corvos congelados – tinha zombado Craster quando entraram, em desordem, os poucos que tinham sobrevivido à neve, às criaturas e ao frio penetrante. – E um bando bem menor do que o que foi pro norte. – Mas tinha cedido lugar a eles no seu chão, um teto para manter a neve afastada, um fogo onde puderam se secar, e suas mulheres tinham trazido taças de vinho quente para levar algum calor à barriga deles. – Malditos corvos – chamava-lhes, mas também os alimentava, por menor que fosse a ração.

Somos hóspedes, lembrou Sam a si mesmo. Goiva é dele. Filha dele, mulher dele. O teto é dele, as regras também.

A primeira vez em que estivera na Fortaleza de Craster, Goiva viera suplicar-lhe ajuda, e Sam emprestara seu manto negro para esconder sua barriga quando foi à procura de Jon Snow. Espera-se que os cavaleiros defendam mulheres e crianças. Só alguns dos irmãos negros eram cavaleiros, mesmo assim... Todos proferimos as palavras, pensou Sam. Sou o escudo que defende os reinos dos homens. Uma mulher era uma mulher, mesmo que fosse selvagem. Devíamos ajudá-la. Devíamos. Era pelo filho que Goiva temia; tinha medo de que pudesse ser um menino. Craster criava as filhas para se tornarem suas esposas, mas não se viam nem homens nem garotos no seu complexo. Goiva tinha dito a Jon que Craster entregava os filhos aos deuses. Se os deuses forem bons, vão enviar uma filha, rezou Sam.

Em cima, no sótão, Goiva abafou um grito.

– É isso – disse uma mulher. – Agora mais um empurrão. Oh, estou vendo a cabeça dele.

Dela, pensou Sam, infeliz. A cabeça dela, dela.

– Frio – disse Bannen fracamente. – Por favor. Tenho tanto frio. – Sam pôs de lado a tigela e a colher, estendeu outra pele para cima do moribundo, enfiou outro graveto no fogo. Goiva soltou um guincho e começou a arquejar. Craster roeu sua morcela dura. Tinha morcelas para si e para suas mulheres, mas não para a Patrulha.

– Mulheres – lamentou-se. – Berram de uma maneira... Uma vez tive uma porca gorda que deu à luz uma ninhada de oito sem soltar mais que um grunhido. – Mastigando, virou a cabeça para olhar de soslaio e com desprezo para Sam. – Era quase tão gorda quanto você, rapaz. Matador. – Soltou uma gargalhada.

Aquilo foi mais do que Sam conseguia suportar. Afastou-se da fogueira tropeçando, passando desajeitadamente por cima e em volta dos homens que estavam dormindo, agachados ou morrendo no chão de terra batida. A fumaça, os gritos e os gemidos estavam fazendo com que se sentisse prestes a desmaiar. Baixando a cabeça, empurrou as abas de pele de veado que serviam de porta a Craster e saiu para a tarde.

O dia estava nublado, mas ainda era suficientemente luminoso para cegá-lo após a escuridão do salão. Montes de neve pesavam nos ramos das árvores ao redor e cobriam as colinas douradas e acastanhadas, mas menos do que antes. A tempestade tinha terminado, e os dias passados na Fortaleza de Craster tinham sido... bem, quentes talvez não, mas de um frio não tão penetrante. Sam ouvia o suave ploc-ploc-ploc da água derretendo nos pingentes que decoravam a borda do espesso telhado de colmo. Inspirou, profunda e tremulamente, e olhou em volta.

Para oeste, Ollo Mão-Cortada e Tim Stone deslocavam-se entre os cavalos, dando de comer e beber aos garranos que restavam.

Para o lado de onde o vento soprava, outros irmãos matavam e esfolavam os animais que estavam fracos demais para prosseguir. Lanceiros e arqueiros faziam rondas por trás dos diques de terra que eram a única defesa de Craster contra o que quer que se escondesse na floresta do outro lado, enquanto uma dezena de fogueiras para cozinhar soltavam espessas nuvens de fumaça cinza-azulada. Sam ouvia os ecos distantes de machados trabalhando na floresta, onde um grupo de trabalho recolhia a lenha necessária para manter as chamas ardendo durante toda a noite. As noites eram a pior hora. Quando escurecia. E esfriava.

Não tinha havido nenhum ataque desde que estavam na Fortaleza de Craster, nem de criaturas, nem de Outros. Nem haveria, segundo Craster.

– Um homem devoto não tem motivo para temer tais coisas. Disse isso mesmo a Mance Rayder, quando ele veio meter o nariz aqui. Não me deu mais ouvidos do que vocês, os corvos, com suas espadas e suas malditas fogueiras. Isso não vai ajudá-los em nada quando o frio branco chegar. A essa altura, só os deuses os ajudarão. É melhor ficar de bem com os deuses.

Goiva também havia falado do frio branco e contara-lhes que tipo de oferendas Craster fazia aos seus deuses. Sam quis matá-lo quando soube. Não há leis para lá da Muralha, lembrou a si mesmo, e Craster é um amigo da Patrulha.

Um grito rouco veio de detrás do edifício de taipa. Sam foi ver o que se passava. O chão sob seus pés era uma massa de neve em liquefação e lama mole que Edd Doloroso insistia ser composta pela merda do Craster. No entanto, era mais densa do que merda; sugava com tanta força as botas de Sam que ele sentiu uma tentando sair.

Por trás de uma horta e de um curral de ovelhas vazio, uma dúzia de irmãos negros disparava flechas contra um alvo que tinham feito de feno e palha. O intendente magro e louro que chamavam de Doce Donnel tinha espetado uma bem ao lado do centro do alvo, disparada de uma distância de cinquenta metros.

– Faça melhor do que isso, velho – disse.

– Tá bem, eu faço. – Ulmer, recurvado, de barba grisalha e pele e membros flácidos, dirigiu-se à marca e tirou uma flecha da aljava que trazia à cintura. Na juventude, tinha sido um fora da lei, um membro da infame Irmandade da Mata de Rei. Afirmava ter um dia atravessado com uma flecha a mão do Touro Branco da Guarda Real, para roubar um beijo dos lábios de uma princesa de Dorne. Também roubara suas joias e um baú de dragões de ouro, mas era do beijo que gostava de se gabar quando estava de pileque.

Encaixou uma flecha e puxou a corda, todo ele suave como seda de verão, e então deixou-a voar. A flecha atingiu o alvo dois centímetros e meio mais perto do centro do que a de Donnel Hill.

– É suficiente, moço? – disse, dando um passo para trás.

– É mais do que suficiente – disse o homem mais novo, de má vontade. – O vento cruzado ajudou você. Soprava com mais força quando eu disparei.

– Nesse caso, devia tê-lo considerado. Tem um bom olho e uma mão firme, mas vai precisar de bem mais do que isso para ganhar de um homem da mata de rei. Quem me ensinou a dobrar o arco foi o Fletcher Dick, e nunca existiu melhor arqueiro. Já lhe contei a história do Fletcher Dick?

– Só trezentas vezes. – Todos os homens de Castelo Negro tinham ouvido as histórias de Ulmer sobre o grande bando de fora da lei de outros tempos; sobre Simon Toyne e o Cavaleiro Sorridente, sobre Oswyn Pescoço-Comprido, o Três Vezes Enforcado, sobre Wenda, o Corço Branco, sobre Fletcher Dick, sobre o Bem Barrigudo e todos os outros. Em busca de uma escapatória, o Doce Donnell olhou em volta e viu Sam no meio da lama. – Matador – chamou. – Venha, mostre-nos como matou o Outro. – E estendeu o grande arco de teixo.

Sam corou.

– Não foi com uma flecha, foi com um punhal, vidro de dragão... – Sabia o que aconteceria se pegasse o arco. Erraria o alvo e enviaria a flecha por cima do dique até as árvores. E então ouviria os risos.

– Não importa – disse Alan de Rosby, outro bom arqueiro. – Estamos todos com vontade de ver o Matador disparar o arco. Não estamos, rapazes?

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