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Os Filhos de Anansi

Электронная книга - «Os Filhos de Anansi». Краткое содержание книги:

Os Filhos de Anansi, obra prima que estreiou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. O livro conta a história de Fat Charlie, um tímido americano que escolheu ter uma vida pacata e sem-graça como contador numa empresa londrina. Ao ir ao funeral de seu pai, Sr. Nancy, Fat Charlie ouve uma velhinha, amiga do pai há anos, dizer que ele na verdade era o deus Anansi, uma divindade trapaceira e brincalhona da mitologia africana. A partir desse episódio, sua vida vira de cabeça para baixo. Os Filhos de Anansi mistura mitologia com toques xamanistas, elementos do folclore afro-americano e uma deliciosa descrição do mundo interior de um homem muito tímido mas, acima de tudo é uma história sobre algo bastante comum: as conturbadas relações entre pais e filhos.Tudo isso envolto num humor discreto capaz de fazer o leitor rir com uma única linha. A obra é a continuação do consagrado escritor Neil Gaiman para sua saga a respeito de deuses modernos.
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O olhar nervoso de Charlie varreu a encosta da montanha e as cavernas, vendo cada uma das centenas de criaturas, totens que existiam antes do começo de tudo. Havia uma figura que não vira da última vez, e que olhou para eles: um homem pequeno, com luvas verde-limão e um bigodinho fino, mas sem chapéu panamá para cobrir seu cabelo já ralo.

Quando Fat Charlie olhou para ele, o velho piscou.

Não era muito, mas foi o suficiente.

Charlie encheu os pulmões e começou a cantar. “Meu nome é Charlie”, cantou. “Sou filho de Anansi. Ouçam a minha canção. Ouçam a minha vida.”

Cantou para eles a música sobre o menino que era metade deus e metade gente e foi dividido em dois por uma velha ressentida. Cantou sobre o pai, cantou sobre a mãe.

Cantou sobre nomes, palavras, as estruturas sob a realidade, os mundos que faziam os mundos, as verdades por trás de como as coisas são. Cantou a respeito do destino adequado e de fins justos para aqueles que o machucassem ou machucassem sua família.

Cantou o mundo.

Era uma boa música, e era a sua música. Algumas vezes havia palavras, outras não se ouvia palavra alguma.

Enquanto cantava, todas as criaturas que o ouviam começaram a bater palmas, a bater os pés e a cantarolar junto. Charlie sentia-se como um fio condutor para uma fantástica canção que englobava a todos. Cantou sobre os pássaros, sobre a magia que era olhar para cima e vê-los voando, e o brilho do sol sobre a pena de uma asa à luz da manhã.

Os totens agora dançavam, cada um fazendo a dança de sua espécie. A Mulher Pássaro fazia os passos da dança arrastada dos pássaros, exibindo as penas da cauda, jogando a cabeça para trás.

Havia uma única criatura perto da montanha que não dançava.

O Tigre agitava a cauda. Não batia palmas, não cantava nem dançava. Seu rosto estava roxo, ferido, e seu corpo, coberto de picadas e pontos inchados. Ele desceu com passos de veludo pelas pedras, um passo de cada vez, até ficar perto de Charlie.

— As músicas não são suas — grunhiu.

Charlie olhou para ele e começou a cantar sobre o Tigre, sobre Grahame Coats, sobre aqueles que faziam dos inocentes suas vítimas. Virou-se e viu Spider olhando para ele com admiração. O Tigre rugiu de raiva. Charlie pegou o rugido e o cobriu com sua canção. Então ele mesmo rugiu, exatamente como o Tigre. Bom, o rugido começou exatamente como o rugido do Tigre, mas então Charlie o modificou, de modo a fazer dele um rugido abobalhado. Todas as criaturas que observavam sobre as pedras começaram a rir. Era impossível não rir. Charlie fez o rugido abobalhado de novo. Como toda imitação, como toda caricatura perfeita, isso teve o efeito de tornar aquilo que imitava intrinsecamente ridículo. Ninguém jamais ouviria o Tigre rugir de novo sem ouvir o rugido do Charlie junto. “Que rugido mais abobalhado!”, diriam.

O Tigre deu as costas para Charlie. Andou com passos rápidos pela multidão, rugindo enquanto corria, o que apenas provocou risos ainda mais altos. O Tigre voltou para sua caverna, aborrecido. Spider fez um gesto com as mãos, um movimento rápido. Ouviu-se um som de pedras rolando, e a entrada da caverna do Tigre ficou coberta com as pedras que caíram. Spider pareceu satisfeito. Charlie continuou a cantar.

Cantou sobre Rosie Noah e a também a canção da mãe de Rosie: cantou desejando uma longa vida para a Sra. Noah e também toda a felicidade que ela merecia.

Cantou sobre sua vida, sobre a vida de todos eles. Em sua canção, viu o modo de vida que levavam como se fosse uma teia em que caíra uma mosca. Com sua canção, envolveu a mosca, impedindo-a de fugir, enquanto consertava a teia com novos fios. Agora a canção chegava, em seu ritmo natural, ao fim. Charlie deu-se conta, muito surpreso, de que gostou de cantar para outras pessoas. Naquele momento soube que aquilo era o que ele faria pelo resto da vida. Ele cantaria. Não canções grandes e mágicas, que criavam mundos ou recriavam a existência, mas canções pequenas, que deixariam as pessoas felizes por algum tempo, que as fariam dançar e se esquecer, mesmo que por pouco tempo, de seus problemas. Ele sabia que sempre teria medo antes de cantar. O medo de subir num palco, que nunca iria embora. Mas também compreendeu que seria como pular dentro de uma piscina: a água seria fria e desagradável apenas por alguns segundos, mas o desconforto passaria e ele se sentiria bem...

Nunca tão bem assim. Nunca mais. Mas se sentiria bem, sem dúvida.

Então ele terminou. Charlie abaixou a cabeça. As criaturas sobre o penhasco deixaram as últimas notas morrerem no ar. Pararam de bater os pés, pararam de bater palmas, pararam de dançar. Charlie tirou o chapéu verde de seu pai e com ele abanou o rosto.

Spider sussurrou:

— Isso foi fantástico.

— Você poderia ter feito a mesma coisa — observou Charlie. — Acho que não. O que estava acontecendo, afinal? Senti como se você estivesse fazendo alguma coisa, mas não consegui descobrir o quê.

— Eu resolvi as coisas. Para a gente. Eu acho. Não tenho certeza— E não tinha mesmo. Agora que a música acabara, o conteúdo da letra se dissipava, como um sonho pela manhã.

Apontou para a boca da caverna que estava bloqueada pelas pedras.

— Foi você que fez aquilo?

— Sim — respondeu Spider. — Achei que era o mínimo que eu poderia fazer. Mas o Tigre alguma hora vai conseguir sair. Eu queria ter feito algo pior do que deixá-lo preso, pra falar a verdade.

— Não se preocupe. Eu fiz algo bem pior.

Observou enquanto os animais se dispersavam. O pai não estava lá, e isso não o surpreendeu.

— Vamos. Precisamos voltar.

Spider voltou ao hospital para ver Rosie no horário de visitas. Levava consigo uma caixa grande de bombons, a maior que conseguira comprar na lojinha de presentes do hospital.

— Pra você.

— Obrigada.

— Disseram que talvez a minha mãe sobreviva. Parece que ela abriu os olhos e pediu mingau. O médico disse que é um milagre.

— Sim. A sua mãe pedindo comida. Parece um milagre, sem dúvida.

Rosie deu um tapa no braço dele, aproveitando para deixar a mão ali mesmo.

— Sabe — começou após alguns instantes —, talvez você ache isso bobo. Mas quando eu estava lá, no escuro, com a minha mãe, achei que você estava me ajudando. Eu senti como se você estivesse afastando a fera. Que, se você não tivesse feito o que quer que fez, ela teria nos matado.

— E... talvez eu tenha ajudado.

— Sério?

— Eu não sei. Acho que sim. Eu também estava em apuros, e aí pensei em você.

— Situação muito complicada?

— Sim. Muito.

— Será que você pode me servir um copo d’água, por favor?

Ele serviu.

— Spider...O que você faz?

— O que eu faço?

— Pra ganhar a vida.

— Ah, o que eu estiver a fim de fazer.

— Acho que vou ficar aqui mais um tempo. As enfermeiras dizem que precisam muito de professores na ilha. Eu gostaria de fazer alguma diferença.

— Pode ser divertido.

— E o que você faria se eu ficasse?

— Ah... Bom, se você ficasse por aqui, eu certamente acharia alguma coisa para me manter ocupado.

Os dois entrelaçaram os dedos, deixando as mãos tão apertadas quanto um nó de marinheiro.

— Você acha que a gente vai dar certo?

— Acho que sim — respondeu Spider, sério. — E, se eu me encher de você, posso ir embora e arranjar outra coisa pra fazer. Então não se preocupe.

— Ah. Não estou preocupada.

E não estava. Por baixo da doçura em sua voz, havia uma dureza de aço. Dava pra ver de onde vinha a dureza de sua mãe.

Charlie encontrou Daisy na praia, numa cadeira de praia. Pensou que ela tivesse adormecido ao sol. Quando sua sombra a cobriu, ela disse:

— Oi, Charlie.

Não abriu os olhos.

— Como você sabia que era eu?

— O seu chapéu tem cheiro de charuto. Você vai se livrar dele rapidinho, né?

— Não. Eu já falei. E herança de família. Quero usá-lo até morrer, e depois deixar para os meus filhos. E então... Você ainda tem o seu emprego como policial?

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