Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Isto certamente complica a situação.
– Eu não o compreendo inteiramente, sr. Holmes.
– É possível que não. Elaboramos teorias provisórias e esperamos que o tempo ou o conhecimento mais amplo as desenvolvam. É um mau hábito, sr. Ferguson, mas a natureza humana é fraca. Receio que seu velho amigo aqui tenha lhe dado uma opinião exagerada de meus métodos científicos. Mas direi apenas que, no estágio atual, seu problema não me parece insolúvel, e que o senhor pode nos aguardar às duas horas na estação Victoria.
Era a noite de um escuro e nublado dia de novembro, quando, após termos deixado nossas malas no Chequers, Lamberley, seguimos de charrete através de uma longa e sinuosa estrada de argila, típica de Sussex, e finalmente chegamos à antiga e isolada casa de fazenda onde morava Ferguson. Era uma construção grande, irregular, muito velha no centro, bem nova nas extremidades, com chaminés altas estilo Tudor e um telhado muito inclinado, com retângulos de lousa cobertos de líquens. Os degraus gastos da porta estavam vergados pelo uso, e os azulejos antigos que revestiam o vestíbulo traziam o símbolo do construtor – um queijo e um homem. Dentro, os tetos eram nervurados com pesadas vigas de carvalho, e os assoalhos irregulares tinham cedido, formando ondas acentuadas. Um cheiro de velhice e decadência enchia toda a moradia em ruínas.
Havia uma sala central muito grande, para onde Ferguson nos conduziu. Ali, numa lareira imensa e antiga com um anteparo de ferro, datada de 1670, crepitava um esplêndido fogo de lenha.
Quando olhei em volta, vi que a sala era a mais estranha mistura de datas e lugares: as paredes revestidas de madeira até a metade podiam perfeitamente ter pertencido ao primeiro proprietário, no século XVII. Mas, elas estavam ornamentadas, na parte inferior, com um revestimento em aquarela, moderno e de bom gosto, enquanto em cima, onde a caiação amarela substituiu o carvalho, estava dependurada uma bonita coleção de utensílios e armas sul-americanos que, sem dúvida, havia sido trazida pela senhora peruana, que se encontrava no andar de cima. Holmes levantou-se com aquela curiosidade que brotava de sua mente ávida e examinou-os com atenção. Voltou ao seu lugar com os olhos pensativos.
– Ei! – ele gritou. – Ei!
Um cachorro spaniel que estava deitado num cesto, no canto, começou a andar lentamente e com dificuldade na direção do seu dono. Suas pernas posteriores moviam-se irregularmente, e seu rabo estava caído sobre o assoalho. Ele lambeu a mão de Ferguson.
– O que foi, sr. Holmes?
– O cão. O que há com ele?
– É isto que intriga o veterinário. Uma espécie de paralisia. Meningite espinhal, ele concluiu. Mas é passageira. Em pouco tempo ele estará completamente curado – não é, Carlo?
O cão balançou o rabo caído em sinal de aquiescência. Os olhos melancólicos do cão fixaram-se em cada um de nós. Ele sabia que estávamos discutindo o seu caso.
– Isto aconteceu de repente?
– Em uma única noite.
– Há quanto tempo?
– Pode ter sido há quatro meses.
– Extraordinário. Muito sugestivo.
– O que vê o senhor nisto, sr. Holmes?
– Uma confirmação do que eu já havia pensado.
– Pelo amor de Deus, o que é que o senhor pensa, sr. Holmes? Para o senhor isto deve ser um enigma puramente intelectual, mas, para mim, é vida e morte! Minha esposa, uma suposta assassina, meu filho, em constante perigo. Não brinque comigo, sr. Holmes. É terrivelmente sério.
O grande defesa do rúgbi estava tremendo da cabeça aos pés. Holmes pôs a mão, num gesto tranqüilizador, sobre o braço de Ferguson.
– Temo que o senhor vá sofrer, sr. Ferguson, qualquer que seja a solução – ele disse. – Eu o pouparia o máximo possível. Por enquanto, não posso dizer mais nada, mas antes de sair desta casa, espero poder ter alguma coisa definitiva.
– Queira Deus que o senhor o consiga! Se os senhores me derem licença, irei até o quarto de minha mulher verificar se houve alguma mudança.
Ele ficou ausente alguns minutos, durante os quais Holmes recomeçou sua análise das curiosidades na parede. Quando nosso anfitrião voltou, seu rosto deprimido mostrou claramente que não houvera nenhum progresso. Ferguson trouxe uma moça alta, esbelta, de pele morena.
– O chá está pronto, Dolores – disse Ferguson. – Veja se a sua patroa tem tudo que possa desejar.
– Ela está muito doente! – exclamou a moça, olhando revoltada para o seu patrão. – Ela não pede comida. Ela muito doente. Ela precisa doutor. Eu assustada ficar sozinha com ela sem doutor.
Ferguson olhou para mim com uma expressão interrogativa.
– Eu gostaria de poder ajudar.
– Sua patroa receberia o dr. Watson?
– Eu leva ele. Eu não pede autorização. Ela precisa doutor.
– Então irei imediatamente com você.
Segui a moça, que estava trêmula de emoção, escada acima e ao longo de um velho corredor. No final havia uma porta maciça reforçada com ferro. Fiquei impressionado quando olhei para a porta, ao pensar que, se Ferguson tentasse entrar à força no quarto onde estava sua mulher, não o conseguiria facilmente. A moça tirou uma chave do bolso, e as velhas dobradiças das pesadas e grossas tábuas de carvalho rangeram. Entrei e ela me seguiu rapidamente, aferrolhando a porta por dentro.
Uma mulher estava deitada na cama e via-se claramente que tinha febre alta. Ela estava apenas semiconsciente, mas, quando entrei, ergueu os belos olhos assustados e fixou-os em mim com apreensão. Ao ver um estranho, pareceu aliviada, e, com um suspiro, afundou de novo no travesseiro. Aproximei-me dela com algumas palavras tranqüilizadoras, e ela permaneceu calma enquanto tomei-lhe o pulso e a temperatura. Os dois estavam altos, mas, mesmo assim, tive a impressão de que seu estado era mais uma excitação mental e nervosa do que alguma outra doença.
– Ela está assim há um ou dois dias. Eu com medo ela morra – disse a moça.
A mulher virou o rosto vermelho e bonito para mim.
– Onde está o meu marido?
– Ele está lá embaixo e gostaria de vê-la.
– Eu não o verei. Eu não o verei. – Depois pareceu estar delirando. – Um diabo! Um diabo! Oh, o que farei com este demônio?
– Posso ajudá-la de alguma maneira?
– Não. Ninguém pode ajudar. Acabou. Tudo está destruído. Não importa o que eu faça, está tudo destruído.
A mulher parecia ter algum sonho estranho. Eu não conseguia ver o honesto Bob Ferguson como um diabo ou demônio.
– Senhora – eu disse –, seu marido a ama ternamente. Ele está extremamente aflito com o que está acontecendo.
Ela virou novamente para mim seus olhos soberbos.
– Ele me ama. Sim. Mas e eu, não o amo? Não o amo até me sacrificar para não despedaçar seu coração tão querido? É assim que o amo. Entretanto, ele pôde pensar que eu – ele pôde me censurar tanto.
– Ele está muito triste, mas não consegue compreender.
– Não, ele não pode compreender. Mas deveria confiar.
– A senhora não deseja vê-lo? – eu sugeri.
– Não, não; não posso esquecer aquelas palavras terríveis, nem a expressão de seu rosto. Não quero vê-lo. Vá agora. O senhor nada pode fazer por mim. Diga-lhe apenas uma coisa. Quero o meu filho. Tenho direitos sobre o meu filho. Esta é a única mensagem que posso lhe enviar. Ela virou o rosto para a parede e não quis dizer mais nada.
Voltei à sala, onde Ferguson e Holmes ainda estavam sentados ao lado do fogo. Ferguson ouviu taciturno a narração da minha entrevista.
– Como posso mandar-lhe a criança? – ele disse. – Como posso saber que estranhos impulsos podem dominá-la? Como poderei esquecer que ela estava ao lado do berço com sangue nos lábios? – Ele estremeceu com a lembrança. – A criança está segura com a sra. Mason, e deve permanecer lá.
Uma criada, vestida com apuro, a única coisa moderna que tínhamos visto na casa, havia trazido chá. Enquanto ela nos servia, a porta abriu-se, e um jovem entrou na sala. Era um moço singular, de rosto pálido, louro, com olhos azuis expressivos, que brilharam com uma repentina chama de emoção e alegria quando pousaram no pai. Ele precipitou-se para frente e lançou os braços em volta do pescoço do pai, com a espontaneidade de uma jovem carinhosa.