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READ-E-BOOK » Фэнтези » A praia mais longínqua [The Farthest Shore - pt]
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A praia mais longínqua [The Farthest Shore - pt]

Электронная книга - «A praia mais longínqua [The Farthest Shore - pt]». Краткое содержание книги:

A Praia mais Longínqua é o terceiro volume desta série e promete ser tão fantástico como os anteriores. Desta vez, Gued, o poderoso arquimago, terá como missão descobrir por que razão a magia foi secando como um rio no mundo de Terramar. Os encantamentos deixaram de ter poder e as palavras de feitiçaria foram esquecidas. A fim de restaurar os poderes mágicos perdidos, Gued embarca com Arren, príncipe de Enland, para bem longe, isto é, para o terrível reino dos mortos, onde encontram pessoas muito estranhas e também alguns dragões. No fim desta empreendedora viagem, conseguirá Gued alcançar o seu objetivo ou a feitiçaria acabará mesmo por desaparecer? Não perca esta empolgante obra já com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
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Nos mares mais afastados da Estrema Oeste, esse Senhor da Ilha dos Sages, acordando perro e dolorido, dentro de um pequeno barco e numa manhã fria e clara, endireitou-se até ficar sentado e bocejou. E após um momento, apontando para norte, disse ao seu companheiro, que bocejava também:

— Olha, além! Duas ilhas, estás a vê-las? São as mais a sul das ilhas do Passo do Dragão.

— Tens os olhos de um falcão, meu Senhor — comentou Arren, espreitando com olhos ensonados por sobre o mar e nada vendo.

— E portanto sou o Gavião — concluiu o mago. A sua disposição era ainda jovial, parecendo ter deitado para trás das costas agouros e maus prenúncios. — Não consegues avistá-las?

— Vejo gaivotas — confessou Arren, depois de esfregar os olhos e pesquisar todo o horizonte azul-acinzentado em frente do barco.

O mago riu.

— Será que mesmo um falcão conseguiria ver gaivotas a vinte milhas de distância?

Quando o brilho do Sol aumentou por cima das brumas a leste, as minúsculas pintas rodopiantes que Arren observava pareceram faiscar, como pó de ouro agitado dentro de água ou grãos de poeira num raio de sol. E Arren compreendeu então que eram dragões.

Quando Vê-longe finalmente se aproximou das ilhas, Arren pôde ver os dragões subindo e rodando céleres no vento matinal e o seu coração alçou-se com eles às alturas, numa alegria, uma alegria de plenitude, que era quase dor. Toda a glória da mortalidade estava naquele vôo. A sua beleza era feita de terrível força, extrema selvageria e o dom da razão. Porque aquelas eram criaturas pensantes, com língua própria e uma antiga sabedoria. No desenho do seu vôo, havia uma harmonia intensa, fruto da vontade.

Arren não falou, mas pensou: «Venha o que vier, não importa. Vi a dança dos dragões no vento da manhã.»

Por vezes o desenho desunia-se, os círculos quebravam-se e, freqüentemente, um dragão ou outro lançava em vôo, saindo das narinas, uma longa fita de fogo que se encurvava e perdurava no ar, repetindo a curvatura e o brilho do longo e arqueado corpo do dragão. Vendo isto, o mago avisou:

— Estão enraivecidos. Dançam a sua raiva no vento. E quase a seguir acrescentou:

— Agora é que estamos na boca do lobo.

Porque os dragões tinham avistado a pequena vela sobre as ondas e, primeiro um, logo outro, arrancaram-se ao turbilhão da sua dança e vieram, de corpo estendido e voando ao mesmo nível no ar, remando com as grandes asas, direitos ao barco.

O mago olhou para Arren que ia à cana do leme, pois as ondas eram altas e contrárias. O rapaz segurava-a com mão firme, embora tivesse os olhos no bater daquelas asas. Parecendo satisfeito com o que vira, o Gavião voltou-se de novo para a frente e, de pé junto ao mastro, deixou que o vento mágico abandonasse a vela. Depois ergueu o bordão e falou bem alto.

Ao som da sua voz e perante as palavras da Antiga Fala, alguns dos dragões rodaram para o lado a meio do vôo, dispersando-se e regressando às ilhas. Outros interromperam o vôo mas ficaram a pairar, as garras das suas patas dianteiras, semelhantes a espadas, ainda saídas mas em suspenso. Um deles, descendo até bastante baixo sobre a água, voou lentamente na direção deles e, em duas batidas de asas, estava por cima do barco. A cota de malha do seu ventre quase roçava o mastro. Arren viu a carne enrugada e sem escamas entre o interior da articulação do ombro e o peito, que, juntamente com os olhos, são as únicas zonas vulneráveis do dragão, salvo se estiver poderosamente encantada a lança que o fira. O fumo que lhe saía em rolos da longa boca, inçada de dentes, quase o sufocou e, com ele, veio um fedor a carne podre que o obrigou a retrair-se e quase vomitar.

A sombra enorme passou. Mas logo voltou, tão baixo como antes e, desta vez, Arren sentiu o sopro de fornalha do seu fogo, antes do fumo. E voltou a ouvir a voz do Gavião, sonora e violenta. O dragão passou por cima deles. E então todos se foram, voando numa fila de volta às ilhas, como cinzas incandescentes numa rabanada de vento.

Arren retomou o fôlego e limpou a testa, coberta de suor frio. Ao olhar o companheiro, viu que o cabelo se tinha tornado branco. O sopro do dragão queimara e encrespara as pontas dos pêlos. E o pesado tecido da vela estava chamuscado e castanho de um dos lados.

— Tens a cabeça um tanto ou quanto chamuscada, rapaz.

— Também a tua, Senhor.

O Gavião passou a mão pelo cabelo, surpreendido.

— E é verdade! Ora que insolência. Mas eu não quero pendências com estas criaturas. Parecem enlouquecidas ou desnorteadas. Nem falaram. Nunca encontrei dragão que não falasse antes de atacar, quanto mais não fosse para atormentar a presa… Mas agora temos de prosseguir. Não os olhes nos olhos, Arren. Se necessário for, desvia a cara. Vamos navegar com o vento do mundo. Está a soprar bem de sul e talvez precise das minhas artes para outras coisas. Mantém o barco neste rumo.

O Vê-longe seguiu em frente e em breve tinha à sua esquerda uma ilha distante e, à direita, as ilhas gêmeas que primeiro tinham avistado. Estas erguiam-se em falésias baixas e toda a rude pedra estava branca com os excrementos dos dragões e das andorinhas-do-mar, de cabeça preta, que faziam destemidamente os seus ninhos entre eles.

Os dragões tinham voado bem para cima e, lá no alto, descreviam círculos como costumam fazer os abutres. Nem um voltou a mergulhar sobre o barco. Por vezes lançavam brados de uns para os outros, agudos e roucos através dos abismos do ar, mas se havia palavras nos seus gritos, Arren não conseguia distingui-las.

O barco dobrou um pequeno promontório e o rapaz viu, na costa, o que por alguns momentos tomou por uma fortaleza em ruínas. Era um dragão. Uma das negras asas estava dobrada e presa debaixo do seu corpo e a outra estendia-se, vasta, por sobre a areia e até dentro do mar, onde o movimento das vagas lhe imprimia um ligeiro movimento de vaivém, como uma caricatura de vôo. O longo corpo de serpente jazia a todo o comprimento sobre rocha e areia. Uma das patas dianteiras desaparecera, a armadura de escamas e a carne haviam sido arrancadas da grande arcada das costelas e a barriga fora rasgada e aberta, de modo que a areia por muitas jardas em volta estava negra com o sangue venenoso do dragão. E no entanto a criatura vivia ainda. Tão forte é a vida nos dragões que só um poder igual de feitiçaria os pode matar rapidamente. Os olhos verde-ouro estavam abertos e, quando o barco passou por ele, a cabeça alongada e enorme moveu-se um pouco e, com um som áspero e sibilante, jorrou-lhe das narinas vapor, de envolta com borrifos de sangue.

A praia entre o dragão moribundo e a beira do mar estava marcada e revolta dos pés e pesados corpos dos da sua espécie, e as suas entranhas, pisadas, misturavam-se com a areia.

Nem Arren nem o Gavião falaram enquanto não se viram bem afastados daquela ilha e navegando ao longo do canal, incansavelmente agitado, do Passo do Dragão, cheio de recifes e pináculos e formações rochosas, em direção às ilhas setentrionais daquele duplo arquipélago. Só então o Gavião se pronunciou:

— Espetáculo maligno era aquele — e a sua voz soou triste e fria.

— Mas eles… eles comem-se uns aos outros?

— Não. Tanto como nós. Mas alguma coisa os enlouqueceu. A fala foi-lhes retirada. Esses que falaram antes que o homem falasse, que são mais antigos que qualquer outro ser vivo, os Filhos de Segoy, foram levados ao terror mudo das feras. Ah! Keilessine! onde te levaram as tuas asas? Terás então vivido para veres a tua raça aprender o que é a vergonha?

A sua voz reboava como um gongo de aço e ele ergueu o olhar para o alto, a esquadrinhar o céu. Mas os dragões tinham ficado para trás, voando em círculos, agora mais baixos, acima das ilhas rochosas e a praia manchada de sangue, e mais acima nada havia para além do céu azul e do Sol do meio-dia.

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