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As areias do tempo [em Português]

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As areias do tempo [em Português]
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Ellen observava e lia sobre como as esposas dos amigos de Milo se vestiam, e tratava de imitá-las. Estava determinada a se tornar a esposa apropriada para Milo Scott, e conseguiu. Mas não aos olhos de Byron e Susan. E, pouco a pouco, sua ingenuidade transformou-se em cinismo. "Os ricos e poderosos não são tão maravilhosos assim", pensou. "Tudo o que querem é se tornar mais ricos e mais poderosos."

Ellen era muito protetora em relação a Milo, mas havia pouco que pudesse fazer para ajudá-lo. A Scott Industries era um dos poucos conglomerados de capital fechado do mundo, e todas as ações pertenciam a Byron. O irmão caçula era um empregado assalariado, e Byron nunca o deixava esquecer isso. Tratava-o de maneira vergonhosa. Milo era encarregado de todos os trabalhos sujos, e nunca recebia qualquer crédito pelo que fazia.

- Por que atura isso, Milo? Não precisa dele. Podemos ir embora. E você pode montar seu próprio negócio.

- Eu não poderia deixar a Scott Industries. Byron precisa de mim.

Com o passar do tempo, porém, Ellen veio a compreender o verdadeiro motivo. Milo era um fraco. Precisava de alguém forte para se apoiar. Ela sabia que ele nunca teria coragem suficiente para largar a companhia. "Muito bem", pensou, irritada. "Um dia a companhia lhe pertencerá. Byron não pode viver para sempre. E Milo é o único herdeiro."

Foi um golpe para Ellen quando Susan Scott anunciou que estava grávida. "O bebê vai herdar tudo."

Quando a criança nasceu, Byron declarou:

- É uma menina, mas eu lhe ensinarei como administrar a companhia.

"O miserável", pensou Ellen, o coração doído por Milo.

O único comentário de Milo foi:

- Não é uma criança linda?

CAPÍTULO 16

O piloto do Lockheed Lodestar estava preocupado.

- Uma frente de tempestade aproxima-se. A situação não me agrada. - Acenou com a cabeça para o co-piloto. - Assuma o comando. - Então deixou a carlinga e foi para a cabine de passageiros.

Havia cinco passageiros a bordo, além do piloto e co-piloto: Byron Scott, o brilhante e dinâmico fundador, e principal executivo da Scott Industries; sua atraente esposa, Susan; a filha de um ano, Patricia; Milo Scott, o irmão caçula de Byron; e a esposa de Milo, Ellen. Voavam num dos aviões da companhia, de Paris rumo a Madrid. Levar a criança fora um impulso de último minuto de Susan.

- Detesto ficar longe de minha filha por tanto tempo - ela disera a Byron.

- Tem medo que ela nos esqueça? - zombou ele. - Está bem, vamos levá-la conosco.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a Scott Industries expandia-se rapidamente no mercado europeu. Em Madrid, Byron Scott analisaria as possibilidades de construir uma nova usina siderúgica.

O piloto aproximou-se de Byron.

- Com licença, senhor. Estamos nos aproximando de nuvens tempestuosas. A situação pela frente não parece boa. Devemos voltar?

Byron Scott olhou pela pequena janela. Voavam por uma massa de nuvens cinzentas, riscadas, a intervalos de poucos segundos, por relâmpagos.

- Tenho uma reunião em Madrid esta noite. Pode contornar a tempestade?

- Vou tentar. Se não for possível, então teremos de voltar.

Byron assentiu.

- Está certo.

- Podem apertar os cintos, por favor?

O piloto voltou apressado para a carlinga.

Susan não ouviu a conversa. Pegou a criança no colo, arrependida, subitamente, por tê-la trazido. "Preciso dizer a Byron para mandar o piloto voltar", pensou.

- Byron…

Foram apanhados de repente pela tempestade, e o avião começou a se sacudir, à mercê das rajadas de vento. Os movimentos tornaram-se mais violentos. A chuva batia nas janelas. A tempestade acabara com toda a visibilidade. Os passageiros tinham a sensação de que viajavam num mar de algodão revolto.

Byron acionou o sistema de intercomunicação.

- Onde estamos, Blake?

- Oitenta quilômetros a noroeste de Madrid, sobre a cidade de Ávila.

Byron tornou a olhar pela janela.

- Esqueceremos Madrid por esta noite. Vamos voltar e sair logo daqui.

- Entendido.

A decisão veio uma fração de segundo tardia. Enquanto o piloto começava a fazer a volta, o pico de uma montanha surgiu abruptamente à sua frente. Não houve tempo para evitar a colisão.

Houve um estrondo e o céu explodiu, enquanto o avião deslizava pela encosta da montanha, espatifando-se, fragmentos da fuselagem e asas espalhando-se por um elevado platô.

Depois da colisão houve um silêncio anormal, que durou pelo que parecia uma eternidade. Foi rompido pelo crepitar das chamas, que começaram a envolver o trem de aterragem do avião.

- Ellen…

Ellen Scott abriu os olhos. Estava deitada sob uma árvore.

O marido inclinava-se por cima dela, batendo de leve em seu rosto. Ao ver que estava viva, Milo Scott exclamou:

- Graças a Deus!

Ellen sentou-se, tonta, a cabeça latejando, cada músculo no corpo dolorido. Olhou em redor, contemplando os destroços do que fora outrora um avião, repleto de corpos humanos. Estremeceu.

- E os outros? - balbuciou Ellen, a voz rouca.

- Estão mortos.

Fitou o marido, aturdida.

- Oh, Deus, não!

Ele assentiu, o rosto contraído em dor.

- Byron, Susan, a criança, os tripulantes… todos.

Ellen Scott tornou a fechar os olhos e disse uma oração silenciosa. "Por que Milo e eu fomos poupados?" Era difícil pensar com nitidez. "Precisamos descer à procura de socorro. Mas é tarde demais. Estão todos mortos." Era impossível acreditar.

Estavam cheios de vida apenas poucos minutos antes.

- Pode se levantar?

- Eu… eu creio que sim.

Milo ajudou a esposa a ficar de pé. Houve uma vertigem terrível, e ela ficou parada, à espera que passasse. Milo virou-se e olhou para o avião. As chamas se tornaram mais intensas.

- Vamos sair daqui, Ellen. O avião vai explodir a qualquer momento.

Afastaram-se depressa e ficaram observando os destroços arderem. Um instante depois houve uma explosão dos tanques de combustível, as chamas envolveram o avião por completo.

- É um milagre estarmos vivos - murmurou Milo.

Ellen olhou para o avião em chamas. Alguma coisa pressionava-lhe a mente, mas não conseguia pensar com nitidez.

Algo sobre a Scott Industries. E de repente ela soube.

- Milo?

- O que é? - perguntou ele, com o pensamento distante.

- É o destino. - O fervor em sua voz fez com que ele se virasse.

- Como?

- A Scott Industries… pertence a você agora.

- Eu não…

- Milo, Deus a deixou para você - falava Ellen com veemência. - Você viveu a vida toda à sombra de seu irmão mais velho. - Ela conseguia coordenar as idéias agora, sem se preocupar com a dor de cabeça.

As palavras saíam numa enxurrada que lhe sacudia todo o corpo.

- Você trabalhou para Byron durante vinte anos, na construção da companhia. É tão responsável pelo sucesso quanto ele, mas Byron… alguma vez lhe deu crédito por isso? Não. Foi sempre a sua companhia, seu sucesso, seus lucros. Pois agora você… você finalmente tem a oportunidade de fazer as coisas sozinho.

Milo ficou horrorizado.

- Ellen… os corpos estão… como pode pensar a esse respeito…?

- Sei de tudo. Mas não os matamos. É a nossa vez, Milo. Podemos finalmente agir. Não há ninguém vivo para reivindicar a companhia, só nós. A companhia é nossa! Sua!

De repente os dois ouviram o choro de uma criança. Ellen e Milo Scott se entreolharam, incrédulos.

- É Patrícia! Ela está viva! oh, Deus!

Encontraram a criança perto de alguns arbustos. Por algum milagre, nada sofrera.

Milo pegou-a, aninhou-a no colo, com carinho.

- Calma, está tudo bem, querida - sussurrou. - Vai acabar tudo bem.

Ellen estava a seu lado, com uma expressão chocada.

- Você… você disse que ela havia morrido.

- Deve ter sido lançada para fora do avião e ficou inconsciente.

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