Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Minha atividade ampliou-se recentemente até o continente – disse Holmes depois de um silêncio, enchendo de novo o cachimbo. – Na semana passada fui consultado por François le Villard, que, como você provavelmente sabe, passou a dirigir há pouco tempo o serviço policial francês. Tem a capacidade céltica da intuição rápida, mas tem deficiências quanto aos conhecimentos essenciais ao desenvolvimento supremo da sua arte. O caso dizia respeito a um testamento e tinha algumas características interessantes. Mencionei-lhe dois casos semelhantes, um ocorrido em Riga, em 1857, e o outro em Saint Louis, em 1871, que sugeriram a ele a verdadeira solução. Aí está a carta que recebi dele esta manhã, agradecendo-me o auxílio.
Estendeu-me uma folha dobrada de papel estrangeiro. Num relance vi uma profusão de pontos de exclamação entre alguns magnifique coup-de-maître e tours de force, que demonstravam a grande admiração do francês.
– Fala como um discípulo dirigindo-se ao mestre – comentei.
– Oh! ele exagera o meu auxílio – disse Holmes com displicência. – Ele próprio tem um talento considerável. Tem duas das três qualidades essenciais ao detetive perfeito: capacidade de observação e de dedução. Faltam-lhe conhecimentos, mas isso virá com o tempo. Ele está agora traduzindo os meus pequenos trabalhos para o francês.
– Seus trabalhos?
– Ah, não sabia? – disse ele rindo. – É verdade, cometi o delito de escrever várias monografias. Todas sobre assuntos técnicos. Aqui tem uma, por exemplo: é sobre a Diferença entre as cinzas dos vários tipos de tabaco. Eu relaciono 140 tipos de fumo de charuto, cigarro e cachimbo, com ilustrações mostrando a diferença das cinzas. É um ponto sempre controverso nos casos criminais e que muitas vezes constitui o fio da meada. Se você puder determinar com segurança que um assassinato foi cometido por um homem que estava fumando um lunkah indiano, isso obviamente restringe o campo de investigações. Para o olho treinado, há tanta diferença entre as cinzas de dois fumos diferentes como entre um repolho e uma batata.
– Você tem um talento especial para os detalhes – observei.
– Dou-lhes um valor muito grande. Esta é a minha monografia sobre pegadas, com algumas observações sobre o uso do gesso para conservar as impressões. Aqui está também um trabalhinho curioso sobre a influência do ofício na forma da mão, com reproduções das mãos de revestidores de telhados, marinheiros, calafates, compositores, tecelões e lapidadores. É um assunto de grande interesse prático para a investigação científica, principalmente nos casos de corpos não reclamados, ou para descobrir os antecedentes dos criminosos. Mas eu estou cansando você com esta minha mania.
– De modo algum – respondi com sinceridade.
– Isto me interessa muito, principalmente desde que o vi aplicar os seus métodos. Mas falou há pouco sobre observação e dedução. Acho que, até um certo ponto, uma influi na outra.
– Sim, talvez... – respondeu, encostando-se voluptuosamente na poltrona e tirando do cachimbo baforadas azuladas. – Por exemplo: a observação me mostra que você esteve esta manhã na agência postal da Wigmore Street e a dedução indica que foi passar um telegrama.
– Exato! Perfeito nos dois pontos! Mas confesso que não sei como chegou a essa conclusão. Foi uma resolução repentina, e não falei sobre isso a ninguém.
– Pois é a própria simplicidade – observou ele, rindo da minha surpresa. – Tão absurdamente simples que qualquer explicação é supérflua; mas, mesmo assim, serve para definir os limites da observação e da dedução. A observação me diz que no peito do seu pé há um pouco de terra avermelhada. Exatamente em frente à agência de Wigmore Street retiraram o calçamento e jogaram terra para fora, que ficou acumulada de uma forma que é impossível passar por ali sem que ela entre pelo sapato. A cor avermelhada da terra, que eu saiba, não se encontra em nenhum outro lugar da vizinhança. Até aqui é a observação. O resto foi dedução.
– E por que deduziu que era um telegrama?
– Porque eu sabia que você não escreveu nenhuma carta, já que fiquei sentado aqui na sua frente a manhã inteira. Estou vendo na sua escrivaninha um grande maço de cartões-postais e uma folha de selos. O que iria fazer no correio, a não ser passar um telegrama? Eliminando todos os outros fatores, o que sobra tem que ser o verdadeiro.
– Neste caso, acertou inteiramente – disse depois de alguns minutos de reflexão. – Mas, como você disse muito bem, o caso é bastante simples. Acha que seria impertinência minha se eu quisesse testar suas teorias num caso mais difícil?
– Pelo contrário – respondeu-me. – Vai até evitar que eu tome uma segunda dose de cocaína. Eu adoraria examinar algum outro problema que você queira me apresentar.
– Ouvi você dizer que é difícil uma pessoa ter um objeto de uso constante sem deixar nele a marca de sua individualidade de tal modo que um bom observador não a descubra. Bem, tenho aqui um relógio que passou a me pertencer há pouco tempo. Quer ter a bondade de dar a sua opinião sobre o caráter ou os hábitos do seu último dono?
Entreguei-lhe o relógio, intimamente divertido com a experiência que eu julgava impossível, e que serviria para dar-lhe uma lição, devido ao tom dogmático que adotava quase sempre. Ele examinou o relógio, olhou atentamente o mostrador, abriu-o e examinou o mecanismo, primeiro a olho nu e depois com uma poderosa lente convexa. Eu mal podia conter o riso diante de sua expressão desanimada, até que fechou a tampa e devolveu-me o relógio.
– Há muito poucos dados – observou. – Limparam o relógio recentemente, e isso me subtraiu o que havia nele de mais sugestivo.
– Tem razão, fizeram uma limpeza nele antes de o mandarem para mim.
No meu íntimo, eu acusava o meu amigo de dar uma desculpa fraca e pouco convincente para encobrir o seu fracasso. Que informações ele poderia obter se não tivessem limpado o relógio?
– Apesar de incompleta, a minha pesquisa não foi totalmente inútil – observou ele, olhando para o teto com olhos opacos e sonhadores. – Talvez eu esteja errado, mas acho que o relógio pertencia a seu irmão mais velho, que o herdou de seu pai.
– Isto, sem dúvida, você descobriu pelas iniciais H. W. da tampa.
– Exatamente. O W sugeriu-me o seu próprio nome. A data do relógio é de uns cinqüenta anos atrás e as iniciais têm o mesmo tempo que o relógio; portanto, foi feito para a última geração. Em geral, as jóias pertencem ao filho mais velho, que quase sempre tem o mesmo nome do pai. O seu pai, se me lembro bem, já morreu há anos. O relógio estava, portanto, com o seu irmão.
– Até aí, tudo bem – disse eu. – Mais alguma coisa?
– O seu irmão era um homem desorganizado, muito desorganizado e descuidado. Recebeu recursos para ter um belo futuro, mas jogou fora suas oportunidades. Viveu alguns anos na pobreza com alguns intervalos curtos de prosperidade, e, por fim, adquiriu o hábito de embriagar-se e morreu. Foi o que pude concluir.
Levantei-me da cadeira e comecei a andar pelo quarto, agitado e muito magoado.
– Isto é indigno de você, Holmes – eu disse. – Não acreditaria nunca que fosse capaz de chegar a esse ponto. Pelo que vejo, andou indagando a respeito da história do meu irmão infeliz e quer me fazer crer que são deduções feitas a partir de bases imaginárias. Você quer que eu acredite que descobriu tudo isso no relógio? Isto é cruel e, para falar com franqueza, tem um toque de charlatanismo.