Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
– Parece que é uma espécie de relato.
– Sim, o relato de uma lenda que corre na família Baskerville.
– Mas acho que o senhor quer me consultar a respeito de alguma coisa mais recente e prática.
– Muito recente. É um assunto muito prático e muito urgente, que precisa ser decidido em 24 horas. Mas o manuscrito é curto e está intimamente ligado ao caso. Com sua permissão, vou lê-lo para o senhor.
Holmes recostou-se na cadeira, juntou as pontas dos dedos e fechou os olhos com ar de resignação. O dr. Mortimer aproximou o manuscrito da luz, e leu, numa voz alta e desafinada, esta narrativa antiga e curiosa:
Sobre a origem do Cão dos Baskervilles houve muitos relatos, mas como eu descendo em linha direta de Hugo Baskerville, e como ouvi a história de meu pai, que também a ouviu do seu, eu a registrei acreditando que ela ocorreu do modo como está relatada aqui. E gostaria que vocês acreditassem, meus filhos, que a mesma Justiça que pune o pecado também pode perdoá-lo com benevolência, e que nenhuma condenação é tão pesada que não possa ser anulada pela prece e pelo arrependimento. Então aprendam com esta história a não temer os frutos do passado, de modo que as paixões condenáveis, que fizeram nossa família sofrer de maneira tão atroz, não sejam novamente o motivo de nossa desgraça.
Saibam então que na época da Grande Rebelião (cuja história escrita pelo lorde Clavendon merece a atenção de vocês, e eu recomendo sinceramente) este solar de Baskerville foi dado ao Hugo com este sobrenome, e não se pode negar que ele era um homem violento, profano e ímpio. Isto, na verdade, seus vizinhos podem ter perdoado, já que santos nunca floresceram nessas regiões, mas havia nele uma tendência cruel e insolente que tornou seu nome conhecido em todo o oeste. Acontece que este Hugo se apaixonou (se, de fato, uma paixão tão sinistra pode ser chamada por um nome tão luminoso) pela filha de um pequeno proprietário rural que tinha terras perto da propriedade de Baskerville. Mas a jovem, que era discreta e de boa reputação, sempre o evitava, porque temia a má fama do seu nome.
Num Dia de São Miguel (29 de setembro), este Hugo, com cinco ou seis de seus amigos desocupados e perversos, invadiu a fazenda e levou a jovem, sabendo que o pai e os irmãos dela não estavam em casa. Eles levaram a jovem para a mansão e a instalaram num quarto no segundo andar, enquanto Hugo e seus amigos se acomodaram no andar de baixo para uma longa bebedeira, como costumavam fazer todas as noites. Mas a pobre moça, no andar de cima, estava a ponto de enlouquecer com a cantoria, os gritos e as terríveis blasfêmias que vinham do térreo, porque diziam que as palavras usadas por Hugo Baskerville quando estava bêbado eram do tipo que podia atrair a maldição para o homem que as proferia.
Por fim, impelida pelo medo, ela fez uma coisa que poderia ter intimidado o homem mais corajoso e mais ágil, porque com a ajuda da hera crescida que cobria (e ainda cobre) a parede sul, ela desceu pelo beiral e foi para sua casa atravessando o pântano, uma distância de 3 léguas entre a mansão e a fazenda do seu pai.
Pouco tempo depois, Hugo deixou seus amigos para levar comida e bebida – com outras coisas piores, possivelmente – para sua prisioneira, e descobriu que a gaiola estava vazia e que o pássaro fugira. Então, parece que ele ficou como alguém possuído pelo demônio, porque desceu correndo as escadas, entrou na sala de jantar, pulou por cima da grande mesa fazendo voar canecas e trinchantes, e gritou diante de todo o grupo que naquela mesma noite iria entregar seu corpo e sua alma às Forças do Mal se conseguisse agarrar a rapariga. E enquanto os estróinas ficavam horrorizados diante da fúria do homem, um mais perverso, ou talvez mais bêbado que o resto, gritou que eles deveriam pôr os cachorros atrás dela. Ao ouvir isso, Hugo saiu correndo da casa, gritando para os moços da estrebaria que selassem sua égua e soltassem os cães. Dando a eles um lenço de cabeça da moça, Hugo os atiçou, e partiram pelo pântano sob o luar.
Durante algum tempo os companheiros de farras ficaram boquiabertos, sem entender direito o que acontecera tão depressa. Mas logo suas mentes confusas despertaram e compreenderam o que estava prestes a ser feito naquele terreno pantanoso. Houve um rebuliço generalizado, alguns apanhando suas pistolas, outros procurando os cavalos, e alguns, mais garrafas de vinho. Mas, finalmente, recuperando um pouco da razão, todos eles, 13 no total, montaram nos cavalos e começaram a perseguição.
A lua brilhava no céu, e eles galoparam lado a lado pelo caminho que a moça devia ter seguido se estivesse indo para sua própria casa.
Depois de percorrerem uma ou duas milhas, eles viram um pastor e, aos gritos, perguntaram se ele tinha visto a perseguição. E o homem, segundo a história, ficou tão aterrorizado que mal conseguia falar, mas acabou dizendo que vira a pobre moça, com os cães na pista dela. “Mas eu vi mais do que isso”, ele disse, “porque Hugo Baskerville passou por mim em sua égua negra, e atrás dele vinha correndo um cão do inferno, tão assustador que Deus não permita jamais que uma fera dessas me persiga.”
Os fidalgos rurais bêbados amaldiçoaram o pastor e seguiram em frente. Mas logo suas peles gelaram, porque um tropel aproximou-se pelo pântano e a égua negra, coberta de espuma branca, passou por eles com a rédea caída e a sela vazia. Depois os farristas cavalgaram bem juntos, porque estavam apavorados, mas ainda seguiram pelo brejo, embora cada um deles, se estivesse só, ficaria muito satisfeito em virar a cabeça do seu cavalo para voltar. Cavalgando lentamente, acabaram encontrando os cães. Estes, embora conhecidos por sua bravura e sua raça, estavam ganindo, amontoados no alto de uma encosta ou barranco, como o chamamos, no pântano, alguns se afastando furtivamente e outros, com os pêlos das costas eriçados e os olhos fixos, observaram o estreito vale que se estendia abaixo deles.
O grupo parou, os homens mais sóbrios, como se pode imaginar, do que quando partiram. A maioria deles não avançaria de maneira alguma, mas três, os mais afoitos, ou talvez os mais bêbados, seguiram em frente, descendo o barranco. Este se abria num largo espaço no qual havia duas daquelas grandes pedras que ainda podem ser vistas ali, que foram colocadas por alguns povos esquecidos nos dias de antanho. A lua estava brilhando sobre a clareira, e ali no meio jazia a infeliz moça, onde havia caído, morta de medo e fadiga. Mas não foi a visão do corpo dela, nem tampouco a do corpo de Hugo Baskerville que estava perto dela, que arrepiou os cabelos destes três fanfarrões temerários, mas sim o fato de que, em cima de Hugo e estraçalhando a sua garganta, estava uma coisa hedionda, uma fera grande e preta com a forma de um cão, porém maior do que qualquer cão que olhos mortais jamais tenham visto. E enquanto eles olhavam, a coisa arrancou um pedaço da garganta de Hugo Baskerville, e quando esta virou seus olhos chamejantes e as mandíbulas gotejantes para eles, os três soltaram gritos de medo e fugiram à rédea solta, ainda gritando, pelo pântano. Dizem que um deles morreu naquela mesma noite em conseqüência do que tinha visto, e os outros dois não passaram de homens alquebrados pelo resto de suas vidas.
Essa é a história, meus filhos, do aparecimento do cão que dizem ter perseguido a família tão cruelmente desde então. Se eu a registrei é porque aquilo que se conhece claramente produz menos terror do que aquilo que é apenas insinuado e imaginado. Nem se pode negar que muitas pessoas da família têm tido mortes infelizes, que foram repentinas, sangrentas e misteriosas. Contudo, que nós possamos nos abrigar na bondade infinita da Providência, que não puniria para sempre os inocentes além da terceira ou quarta geração, como ameaça a Sagrada Escritura. A essa Providência, meus filhos, eu os recomendo, e os aconselho a título de cautela, evitar atravessar o pântano naquelas horas sombrias em que as forças do mal estão exaltadas.