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O senhor do caos

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O senhor do caos
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Egwene fechou a boca. Se eu erguer as três pelo tornozelo e enfiar a cabeça de cada uma na água, aí elas vão… O que estava pensando? Aquelas mulheres tinham que gritar só porque ela gritara? Não estava mais ou menos molhada do que as três. Devo estar parecendo uma rata molhada! Canalizou com cuidado — empregar os fluxos em si mesma sempre exigia cautela, já que não conseguia ver a trama muito bem —, e a água foi escorrendo do corpo, se esvaindo das roupas. A poça no chão do barco aumentou.

Só quando notou que o barqueiro a encarava com a boca escancarada e os olhos esbugalhados é que ela se deu conta do que fizera. Tinha canalizado no meio do rio, sem nada para escondê-la de qualquer Aes Sedai que pudesse ver. Com ou sem sol, de repente sentiu os ossos gelarem.

— Agora já pode me levar de volta para a margem. — Não havia como saber quem estava no cais, e, àquela distância, era impossível diferenciar um homem de uma mulher. — Mas não para a cidade. Para a beira do rio.

O sujeito obedeceu na hora, começando a remar tão rápido que Egwene quase caiu para trás. Ele a levou até um ponto da margem quase todo coberto por rochas lisas do tamanho da cabeça dela. Não havia ninguém à vista, mas, assim que o barco raspou nas pedras, Egwene saltou, ergueu as saias e disparou pelo barraco íngreme, mantendo o mesmo pique até estar de volta à tenda, onde desabou, ofegante, suando em bicas. Desde então, não foi mais à cidade. A não ser para ver Gawyn, claro.

Os dias se passaram, e o vento, já quase constante, carregava dia e noite lufadas de poeira e areia. Na quinta noite, Bair acompanhou Egwene ao Mundo dos Sonhos, um breve passeio de teste pelo trecho de Tel’aran’rhiod que Bair conhecia melhor: o Deserto Aiel, uma terra acidentada e ressecada que fazia até aquela Cairhien arrasada pela seca parecer formosa e exuberante. Uma viagem rápida, então Bair e Amys vieram acordá-la para conferir se a empreitada provocara algum efeito negativo. Não provocara. Nisso as duas acabaram concordando, depois de a obrigarem a correr e saltar várias vezes, e mesmo assim apenas após examinarem cuidadosamente seus olhos e seu coração. Ainda assim, na noite seguinte, Amys levou-a para mais uma voltinha no Deserto, seguida de mais um exame tão cansativo que Egwene ficou feliz quando enfim pôde se arrastar de volta para os lençóis e cair em um sono profundo.

Naquelas duas noites, Egwene não voltou ao Mundo dos Sonhos, mas foi mais por exaustão do que por falta de vontade. Antes daqueles pequenos testes, sempre dizia a si mesma que devia parar de ir a Tel’aran’rhiod sozinha — não seria nada bom ser pega violando as restrições justo quando as Sábias estavam prestes a suspendê-las —, mas sempre acabava decidindo que uma viagenzinha curta não teria problema, se fosse rápida o bastante para reduzir as chances de ficar exposta. O que de fato evitava era o lugar entre Tel’aran’rhiod e o mundo desperto, onde os sonhos flutuavam. Tomou essa decisão ao perceber como estava tentada a encontrar uma maneira de bisbilhotar os sonhos de Gawyn sem ser atraída para eles — mas sempre dizendo a si mesma que, caso isso acontecesse, tudo não passaria de um sonho. Tentava lembrar a si mesma, o tempo todo, que era uma mulher adulta, não uma garotinha tola. Ainda assim, estava feliz por ninguém mais saber da confusão que Gawyn criava em sua cabeça. Amys e Bair gargalhariam até chorar.

Na sétima noite, Egwene se preparou com todo o cuidado antes de dormir, botando uma camisola limpa e escovando o cabelo até deixá-lo brilhando. Nada daquilo seria relevante em Tel’aran’rhiod, mas servia para distraí-la de como seu estômago parecia dar piruetas. Naquela noite, as Aes Sedai estariam esperando por ela no Coração da Pedra, e não Elayne ou Nynaeve. Não deveria fazer diferença, a menos que… A escova de cabelo de marfim parou no meio de uma mecha. A menos que uma das Aes Sedai revelasse que ela era apenas uma Aceita. Como não tinha pensado naquilo? Luz, gostaria de poder falar com Nynaeve e Elayne. O problema era que também não via como falar com as amigas adiantaria de alguma coisa, e ela tinha certeza de que aquele sonho com objetos caindo no chão e se estilhaçando significava que algo acabaria dando muito errado caso tentasse entrar em contato com as amigas.

Mordiscando o lábio inferior, considerou ir dizer a Amys que não estava se sentindo bem — nada grave, só um incômodo no estômago, mas que achava que não daria conta de visitar o Mundo dos Sonhos naquela noite. Retomariam as aulas depois do encontro, mas… Seria mais uma mentira, além de uma covardia. Egwene não era covarde. A coragem não vinha igual e nem no mesmo nível para todos, mas a covardia era desprezível. Não importava o que acontecesse naquela noite, tinha que se forçar a encarar o que viesse de frente.

Firme e decidida, largou a escova, apagou o lampião com um sopro e foi rastejando até o catre. Estava cansada o bastante para não ter problemas em pegar no sono, embora já soubesse se obrigar a dormir a qualquer momento, quando necessário, ou pelo menos a entrar no leve transe que a levaria parcialmente ao Mundo dos Sonhos, mas a manteria desperta o suficiente para conseguir falar — talvez balbuciar — com alguém que estivesse aguardando junto a seu corpo. A última coisa que lhe ocorreu antes de cair no sono foi perceber, muito surpresa, que o estômago não estava mais se revirando.

Estava em uma grande câmara abobadada repleta de espessas colunas de pedra vermelha polida — o Coração da Pedra, na Pedra de Tear. Acima, lampiões dourados pendiam de correntes. Estavam apagados, mas claro que havia luz, aquela iluminação que vinha de todas as partes e de lugar nenhum. Amys e Bair já estavam lá, com a mesma aparência daquela manhã, tirando o fato de que todos os colares e braceletes cintilavam um pouco mais do que o normal, mesmo sendo de ouro. Conversavam em vozes tranquilas, mas pareciam irritadas. Egwene só conseguiu ouvir algumas palavras, mas tinha certeza de que houve uma menção a “Rand al’Thor”.

De repente, percebeu que usava um vestido branco de Aceita com bainha listrada. Assim que reparou, sua roupa se tornou uma cópia da vestimenta das Sábias, mas sem as joias. Achou que as outras duas não tinham percebido — ou que, caso tivessem, não soubessem o significado do vestido. Em alguns casos, a rendição fazia a pessoa perder menos ji e adquirir menos toh, mas Aiel nenhum consideraria isso sem pelo menos tentar lutar.

— Elas estão atrasadas de novo — reclamou Amys, irritada, andando até o espaço aberto logo abaixo do grande domo da câmara. No chão de pedra estava o que parecia uma espada de cristal — era a Callandor da profecia, um sa’angreal masculino dos mais poderosos já criados. Rand deixara a espada ali para que os tairenos se lembrassem dele — como se houvesse chance de esquecerem —, mas Amys mal olhou para o objeto. Para muitos, A Espada Que Não É Espada até podia ser um símbolo do Dragão Renascido, mas para aquela Sábia aquilo era coisa dos aguacentos. — Bem, considerando a reunião passada, ao menos podemos esperar que elas não vão tentar fingir que sabem de tudo e que nós não sabemos de nada. As Aes Sedai se saíram bem melhor na última vez.

Bair fungou de um jeito que teria deixado Sorilea sem reação.

— Elas não vão melhorar nunca. O mínimo que podiam fazer era chegar na hora combi…

A frase ficou por terminar. Sete mulheres apareceram de repente do outro lado de Callandor.

Egwene reconheceu todas, até a jovem de olhos azuis e determinados que encontrara antes, em Tel’aran’rhiod. Quem seria? Amys e Bair já tinham falado das demais — quase sempre com amargura —, mas nunca mencionaram aquela mulher. Ela usava um xale com bordas azuis; todas estavam de xale, na verdade. Os vestidos volta e meia mudavam de cor e de corte, mas os xales nunca sequer tremeluziam.

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