A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Mas eu sou muito capaz de lhe partir a cara!
— Se o fizer nunca mais lhe falarei e nunca mais o conhecerei! — disse-lhe, aborrecida. — Não tem esse direito! O senhor não representa coisa alguma na minha vida!
Ele não respondeu e foi à caixa pagar o vermute. Saímos da pastelaria e recomeçámos o nosso passeio. O sol, o burburinho, o movimento das ruas, todas essas caras coradas e sadias de provincianos punham-me de bom humor. Quando chegámos a uma praçazinha fora do centro, ao fundo de uma rua perpendicular, eu exclamei de repente:
— Olhem! Se eu tivesse uma casinha como aquela — e mostrava uma bonita casinha de dois andares junto de uma igreja —, seria bem feliz de viver aqui!
— Meu Deus! Meus Deus! — gritou Gisela. — Viver na província! Então em Viterbo. Eu não anuía a isso nem que me pagassem em ouro!
— Depressa te aborrecerias, Adriana — disse Ricardo.
— Quem se habitua a viver na cidade já não pode viver na província.
— Vocês estão enganados! — disse eu. — Gostaria bem de viver aqui… com alguém que gostasse de mim… Quatro quartos, uma trepadeira, quatro anelas… De nada mais precisava.
Eu falava sinceramente, porque me via já com Gino nesta simples casita de Viterbo.
— Que diz? — perguntei dirigindo-me a Astárito.
— Consigo também lá viveria! — disse-me a meia voz para que os outros não o ouvissem.
— O teu defeito, Adriana, é seres demasiadamente modesta… Na vida, quando não se deseja muito, nada se consegue!
— Mas eu nada quero… — respondi.
— Nada, então? Nem casar com o Gino? — perguntou Ricardo.
— Isso sim!
Começava a fazer-se tarde; as ruas iam ficando desertas; entrámos num restaurante. A sala do rés-do-chão estava cheia, principalmente com aldeões de fatos domingueiros, que a circunstância de ser dia de feira tinha trazido a Viterbo.
Gisela ficou de mau humor e disse que o cheiro que havia ali lhe fazia faltar o ar e perguntou ao patrão se não podíamos comer no andar superior. O patrão disse que sim, que era possível e, precedendo-nos, fez-nos subir uma escadinha de madeira e entrar numa sala estreita e comprida com uma só janela, que dava para um beco. Abriu as persianas e fechou a janela. Depois estendeu a toalha numa mesa rústica que ocupava a maior parte da sala. Lembro-me de que as paredes eram cobertas por um velho papel fora de moda, rasgado em vários sítios, com flores e pássaros, e que do outro lado da mesa havia um pequeno armário envidraçado cheio de pratos.
Enquanto isto se passava, Gisela girava pela sala examinando tudo, espreitando até o beco pela janela. Acabou por abrir uma porta que parecia dar acesso a outra sala. Depois de lhe deitar uma olhadela, dirigindo-se ao dono da casa, perguntou com um ar natural o que vinha a ser aquela outra sala.
— É um quarto — respondeu o proprietário. — Se alguém quiser descansar depois do almoço…
— Nós havemos de ir, hem, Gisela?! — disse Ricardo com o seu risinho parvo.
Gisela fingiu não percebeu. Olhou mais uma vez o quarto e puxou a porta com cuidado sem no entanto a tornar a fechar. Ver uma sala de jantar tão pequenina e tão íntima agradou-me e também fingi não reparar pára a porta aberta nem tão-pouco para o olhar de cumplicidade que julguei surpreender entre Gisela e Astárito. Tomámos os nossos lugares à mesa; sentei-me ao lado de Astárito, como lhe tinha prometido, mas ele nem sequer deu por isso: parecia tão preocupado que nem podia falar. Passado um momento, o hoteleiro trouxe os acepipes e o vinho. Eu tinha muita fome, atirei-me ao almoço com tal sofreguidão que todos começaram a rir. Gisela aproveitou a ocasião para me arreliar; como de costume, a propósito do meu casamento.
— Come! Come! — recomendava-me ela. — Não é com o Gino que tu comerás tanto nem tão bem!
— Porquê? — disse eu. — Gino ganha muito bem a sua vida!
— Sim… mas vocês comerão todos os dias feijão.
— Os feijões são tão bons como qualquer outra coisa! — disse Ricardo rindo. — Vou mandar vir um prato deles para nós!
— És uma idiota, Adriana! — continuou Gisela. — Tu precisas de um homem de meios, sério, arrumado, que pense em ti e nada te negue que te permita realçar a tua beleza. E afinal enrolaste-te com o Gino!
Não respondi. De cabeça baixa, continuava a comer. Ricardo observava, rindo:
— Eu, no lugar de Adriana, a nada renunciaria… nem ao Gino, visto que é dele que gosta tanto, nem ao homem sério. Ficaria com os dois… E talvez até que o Gino não achasse mal!
— Ah! Isso não! Se ele soubesse que eu tinha dado hoje este passeio com vocês era o bastante para romper o noivado!
— E porquê? — perguntou Gisela, irritada.
— Porque ele não gosta que eu ande contigo!
— Porco, nojento, ordinário! Reles pobretão! — gritou Gisela com raiva. — Gostaria realmente de experimentar procurá-lo e dizer-lhe: a Adriana continua a dar-se comigo. Hoje passámos todo o dia juntas. Anda, vai romper o noivado!
— Não! Não! — replicava eu, apavorada. — Não farás isso!
— Era uma sorte para ti!
— Seria… mas não o faças! — pedi de novo. — Se és um pouco minha amiga, não o laças!
Durante toda esta conversa, Astárito não disse palavra, nem sequer comeu. Tinha os olhos constantemente fixos em mim e o seu olhar, carregado de intenções, grave e desesperado, incomodava-me mais do que eu queria. Desejaria pedir-lhe que não me olhasse daquela maneira, mas temia a troça de Gisela e de Ricardo. Foi pelo mesmo motivo que não tive coragem de protestar quando Astárito, aproveitando o momento em que pousei a minha mão esquerda sobre o banco, a apertou na sua com força, obrigando-me a comer só com a direita. Fiz mal, porque de repente Gisela gritou, rindo:
— Em palavras és muito fiel ao Gino, mas em acções. Julgas que não vos vejo, a ti e ao Astárito, de mãos dadas debaixo da mesa?
Corei, atrapalhada, e tentei libertar a minha mão. Mas Astárito reteve-a fortemente e Ricardo interveio:
— Deixa-os sossegados! Que mal é que isso tem? Eles estão de mãos dadas, pronto! O que temos a fazer é imitá-los!
— Disse isto por brincadeira! Pelo contrário — declarou Gisela —, estou até bem contente!
Quando acabámos de comer o primeiro prato, fizeram-nos esperar muito tempo pelo segundo. Gisela e Ricardo não paravam de rir e de brincar, bebendo e fazendo-me beber. O vinho era tinto; era bom mas muito forte e subia depressa à cabeça. Eu gostava deste gosto do vinho, quente e picante; estava embriagada, mas tinha a impressão de não o estar e de poder beber indefinidamente. Astárito apertava-me a mão, grave e sombrio, e eu já não me revoltava. Dizia a mim mesma que afinal de contas não havia mal em lhe dar um aperto de mão! Por cima da porta havia uma estampa com uma varanda florida de rosas e um homem e uma mulher vestidos com fatos de há cinquenta anos que se beijavam de uma maneira complicada. Gisela reparou na estampa e confessou que não compreendia como aqueles dois conseguiam beijar-se naquela posição.
— Vamos a ver se os conseguimos imitar? — propôs a Ricardo. — Tentemos!
Ricardo levantou-se rindo e pôs-se a imitar o homem do cromo, enquanto Gisela, também a rir, se debruçava sobre a mesa como a mulher da litografia sobre a florida varanda. Conseguiram unir as bocas ao fim de grandes esforços, mas pouco faltou para perderem o equilíbrio e tombarem os dois em cima da mesa. Gisela, excitada com a brincadeira, gritava:
— Agora é a vossa vez!
— Porquê? — perguntei, alarmada. — A que propósito?
— Sim, sim. Experimentem!
Senti que Astárito me passava o braço em torno da cintura e tentei desembaraçar-me declarando: