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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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Mas quando viu Davos, um tênue sorriso roçou seus lábios.

– Então o mar devolveu-me meu cavaleiro do peixe e das cebolas.

– Devolveu, Vossa Graça. – Será que sabe que me tinha numa masmorra? Davos ajoelhou-se.

– Levante-se, Sor Davos – ordenou Stannis. – Senti sua falta, sor. Tenho necessidade de bons conselhos, e você nunca me deu outra coisa. Portanto, diga-me a verdade: qual é a pena por traição?

A palavra pairou no ar. Uma palavra medonha, pensou Davos. Estaria sendo pedido a ele que condenasse o companheiro de cela? Ou talvez a si próprio? Os reis conhecem melhor do que qualquer outro homem a pena por traição.

– Traição? – conseguiu enfim dizer, em voz fraca.

– De que mais chamaria renegar o rei e tentar roubar o trono que é dele por direito? Volto a perguntar: qual é a pena por traição, segundo a lei?

Davos não tinha alternativa exceto responder.

– A morte – disse. – A pena é a morte, Vossa Graça.

– Sempre foi assim. Eu não sou... um homem cruel, Sor Davos. Conhece-me. Conhece-me há muito tempo. Este decreto não é meu. Sempre foi assim, desde os tempos de Aegon, e mesmo antes. Daemon Blackfyre, os irmãos Toyne, o Rei Abutre, o Grande Meistre Hareth... traidores sempre pagaram com a vida... até Rhaenyra Targaryen. Era filha de um rei e mãe de mais dois, e no entanto teve uma morte de traidora por tentar usurpar a coroa do irmão. É a lei. Lei, Davos. Não crueldade.

– Sim, Vossa Graça. – Ele não fala de mim. Davos sentiu um momento de compaixão por seu companheiro de cela, lá embaixo, no escuro. Sabia que deveria manter silêncio, mas estava cansado e doente até o âmago, e ouviu-se dizer: – Senhor, Lorde Florent não pretendeu trair.

– Os contrabandistas têm outro nome para o ato? Fiz dele Mão, e ele teria vendido meus direitos por uma tigela de creme de ervilhas. Até lhes teria dado Shireen. Minha única filha, que ele teria casado com um bastardo nascido do incesto. – A voz do rei estava carregada de fúria. – Meu irmão tinha um dom para inspirar lealdade. Até nos adversários. Em Solarestival ganhou três batalhas num só dia, e trouxe Lorde Grandison e Lorde Cafferen para Ponta Tempestade como prisioneiros. Pendurou seus estandartes como troféus no salão. Os corços brancos de Cafferen estavam manchados de sangue, e o leão adormecido de Grandison encontrava-se quase rasgado em dois. E, no entanto, eles passavam noites sentados por baixo desses estandartes, bebendo e festejando com Robert. Até os levou à caça. “Esses homens queriam entregá-lo a Aerys para ser queimado”, eu disse-lhe depois de vê-los arremessando machados no pátio. “Não devia pôr machados em suas mãos.” Robert limitou-se a rir. Eu teria atirado Grandison e Cafferen numa masmorra, mas ele transformou-os em amigos. Lorde Cafferen morreu no Castelo de Vaufreixo, abatido por Randyll Tarly enquanto lutava por Robert. Lorde Grandison foi ferido no Tridente e morreu em decorrência disso um ano mais tarde. Meu irmão fez com que o amassem, mas, ao que parece, eu só inspiro traição. Até no meu próprio sangue e família. Irmão, avô, primos, tio da esposa...

– Vossa Graça – disse Sor Axell –, eu imploro, dê-me a oportunidade de lhe provar que nem todos os Florent são assim tão fracos.

– Sor Axell gostaria de me levar a retomar a guerra – disse o Rei Stannis a Davos. – Os Lannister acham que estou acabado e derrotado, e os senhores meus vassalos abandonaram-me, quase todos. Até Lorde Estermont, pai de minha própria mãe, dobrou o joelho a Joffrey. Os poucos homens leais que me restam vão perdendo o ânimo. Desperdiçam seus dias bebendo e jogando e lambem as feridas como vira-latas enxotados.

– A batalha voltará a incendiar seus corações, Vossa Graça – disse Sor Axell. – A derrota é uma doença, e a vitória é a cura.

– Vitória. – A boca do rei retorceu-se. – Há vitórias e vitórias, sor. Mas conte o seu plano a Sor Davos. Quero ouvir o que ele pensa do que você propõe.

Sor Axell virou-se para Davos, com uma expressão no rosto bem próxima à expressão que o orgulhoso Lorde Belgrave deve ter feito no dia em que o Rei Baelor, o Abençoado, lhe ordenou que lavasse os pés ulcerados do pedinte. Apesar disso, obedeceu.

O plano que Sor Axell concebera com Salladhor Saan era simples. A algumas horas de viagem de Pedra do Dragão estava a Ilha da Garra, sede marítima ancestral da Casa Celtigar. Lorde Ardrian Celtigar lutara sob o coração flamejante na Água Negra, mas, depois de capturado, não perdeu tempo até passar para o lado de Joffrey. Ainda permanecia em Porto Real.

– Com medo demais da fúria de Sua Graça para se aproximar de Pedra do Dragão, sem dúvida – declarou Sor Axell. – E sensatamente. O homem traiu seu legítimo rei.

Sor Axell propunha usar a frota de Salladhor Saan e os homens que escaparam da Água Negra – Stannis ainda tinha cerca de mil e quinhentos homens em Pedra do Dragão, mais de metade dos quais pertenciam aos Florent – a fim de exigir compensação pela deserção de Lorde Celtigar. A Ilha da Garra tinha uma guarnição leve, e dizia-se que o castelo estava recheado de tapetes de Myr, vidro volanteno, baixelas de ouro e prata, taças cravejadas de joias, magníficos falcões, um machado de aço valiriano, um berrante que era capaz de invocar monstros vindos das profundezas, baús de rubis, e mais vinho do que um homem conseguiria beber em cem anos. Embora o Celtigar tivesse mostrado ao mundo um rosto avarento, nunca impusera limites ao seu próprio conforto.

– Sugiro que imponha a tocha ao seu castelo e a espada ao seu povo – concluiu Sor Axell. – Que deixe a Ilha da Garra numa desolação de cinzas e ossos, adequada apenas para gralhas pretas, para que o reino veja o destino que aguarda aqueles que se deitam na cama dos Lannister.

Stannis ouviu em silêncio a récita de Sor Axell, mexendo lentamente o maxilar de um lado para o outro. Quando terminou de ouvir, disse:

– Creio que pode ser realizado. O risco é pequeno. Joffrey não tem força no mar até que Lorde Redwyne zarpe da Árvore. O saque pode servir para manter leal esse pirata liseno do Salladhor Saan durante algum tempo. A Ilha da Garra em si não tem valor algum, mas sua queda pode servir de aviso ao Lorde Tywin que a minha causa ainda não está acabada. – O rei virou-se de novo para Davos. – Fale a verdade, sor. O que acha da proposta de Sor Axell?

Fale a verdade, sor. Davos lembrou-se da cela escura que dividira com Lorde Alester, lembrou-se de Lampreia e de Mingau. Pensou nas promessas que Sor Axell havia feito na ponte por cima do pátio. Um navio ou um empurrão, o que será? Mas aquele que perguntava era Stannis.

– Vossa Graça – disse lentamente –, acho uma loucura... sim, e uma covardia.

Covardia? – Sor Axell quase gritou. – Ninguém me chama de covarde perante meu rei!

– Silêncio – ordenou Stannis. – Sor Davos, prossiga, quero ouvir suas razões.

Davos virou-se para encarar Sor Axell.

– Diz que devíamos mostrar ao reino que ainda não estamos acabados. Dar um golpe. Sim, fazer a guerra... mas com que inimigo? Não vai encontrar nenhum Lannister na Ilha da Garra.

– Encontraremos traidores – disse Sor Axell –, se bem que eu possa até encontrar alguns mais perto de casa. Até mesmo nesta sala.

Davos ignorou a provocação.

– Não duvido de que Lorde Celtigar tenha dobrado o joelho ao jovem Joffrey. É um homem velho e acabado, que nada mais deseja do que terminar seus dias no seu castelo, bebendo seu bom vinho de uma de suas taças cravejadas de joias. – Voltou-se novamente para Stannis. – E, no entanto, veio quando o chamou, senhor. Veio, com seus navios e suas espadas. Esteve ao seu lado em Ponta Tempestade quando Lorde Renly caiu sobre nós, e seus navios subiram a Água Negra. Seus homens lutaram pelo senhor, mataram pelo senhor, arderam pelo senhor. A Ilha da Garra tem fracas defesas, sim. É defendida por mulheres, crianças e velhos. E por quê? Porque seus maridos, filhos e pais morreram na Água Negra, eis o porquê. Morreram nos remos, ou com espadas nas mãos, lutando sob as nossas bandeiras. E, no entanto, Sor Axell propõe que ataquemos as casas que eles deixaram para trás, que violemos suas viúvas e que submetamos seus filhos à espada. Essas pessoas não são traidoras...

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