O Olho do Mundo
- Автор: Джордан Роберт
- Серия: A Roda do Tempo #1
- Год: 2013
- Язык: португальский
- Переводчик: Fábio Fernandes
- Жанр: Фэнтези
Электронная книга - «O Olho do Mundo». Краткое содержание книги:
Аннотация
O Olho do MundoMat voltou a puxá-lo. Seu rosto estava sério, a pele ao redor da boca e dos olhos, branca.
— Vamos — murmurou Mat. — Vamos. — Ele olhava para a aldeia como se suspeitasse de que alguma coisa se escondia ali. — Vamos. Não podemos parar ainda.
Rand girou num círculo completo, abarcando toda a aldeia, e deu um suspiro. Não estavam muito longe de Ponte Branca. Se o Myrddraal pudera passar pela muralha de Ponte Branca sem ser visto, não teria problema nenhum para vasculhar aquela pequena aldeia. Ele se deixou ser puxado para o campo mais além, deixando as casas de telhado de palha para trás.
A noite caiu antes de encontrarem um lugar ao luar, sob alguns arbustos cujas folhas mortas ainda não haviam caído. Encheram a barriga com água gelada de um córrego raso próximo e se deitaram enroscados no chão, enrolados em seus mantos, sem acenderem fogueira. Uma fogueira poderia ser vista; melhor passar frio.
Incomodado com as lembranças, Rand acordava com frequência, e a cada vez que isso acontecia ele podia ouvir Mat resmungando e se remexendo no sono. Ele não sonhava, não que conseguisse se lembrar, mas não dormia bem. Você nunca mais verá sua casa.
Aquela não foi a única noite que passaram sem nada além dos mantos para protegê-los do vento, e às vezes da chuva fria que os encharcava. Não foi a única refeição que fizeram exclusivamente de água gelada. Juntos, tinham moedas suficientes para algumas refeições numa estalagem, mas uma cama para passar a noite custaria demais. As coisas eram mais caras fora dos Dois Rios, mais daquele lado do Arinelle que em Baerlon. O dinheiro que tinham precisava ser poupado para uma emergência.
Numa tarde, Rand mencionou a adaga com o rubi no cabo, enquanto seguiam pela estrada com a barriga vazia demais até mesmo para roncar, o sol baixo e fraco e nada à vista para passarem a noite que se aproximava a não ser mais arbustos. Nuvens negras se amontoavam acima para chover durante a noite. Ele torcia para que tivessem sorte; talvez não passasse de uma garoa gelada.
Rand continuou alguns passos antes de perceber que Mat tinha parado. Ele também parou, movendo os dedos dos pés nas botas. Pelo menos os pés estavam quentes. Afrouxou as faixas nos ombros. Seu cobertor enrolado e o manto embrulhado de Thom não eram pesados, mas qualquer coisa pesava depois de milhas com estômago vazio.
— Qual é o problema, Mat? — perguntou.
— Por que você está tão ansioso para vendê-la? — Mat quis saber, com raiva. — Quem encontrou fui eu, afinal. Você já parou para pensar que eu poderia querer ficar com ela? Por um tempo, pelo menos. Se quer vender alguma coisa, venda essa maldita espada!
Rand esfregou a mão ao longo do cabo com a marca da garça.
— Meu pai me deu esta espada. Era dele. Eu não pediria a você que vendesse uma coisa que seu pai lhe deu. Sangue e cinzas, Mat, você gosta de passar fome? De qualquer maneira, mesmo que eu conseguisse encontrar alguém para comprá-la, quanto uma espada nos daria? O que um fazendeiro iria querer com uma espada? Esse rubi conseguiria o suficiente para nos levar até Caemlyn numa carruagem. Talvez até Tar Valon. E comeríamos todas as refeições numa estalagem, e dormiríamos todas as noites numa cama. Talvez você goste da ideia de caminhar metade do mundo e dormir no chão… — Ele encarou Mat, fuzilando-o com o olhar, e o amigo o encarou de volta.
Ficaram parados assim no meio da estrada até que Mat subitamente deu de ombros, sem jeito, e baixou os olhos para a estrada.
— Para quem eu venderia isto, Rand? Um fazendeiro teria de pagar em galinhas; não temos como pagar uma carruagem com galinhas. E, ainda que eu a mostrasse em qualquer das aldeias pelas quais passamos, provavelmente achariam que nós a roubamos. Sabe a Luz o que aconteceria então.
Depois de um minuto, Rand assentiu com relutância.
— Você tem razão. Eu sei disso. Desculpe; não queria descontar em você. Mas é que estou com fome e meus pés doem.
— Os meus também. — Recomeçaram a andar, ainda mais cansados que antes. O vento soprava em rajadas, jogando pó em seus rostos. — Os meus também. — Mat tossiu.
Algumas fazendas lhes proporcionavam refeições e umas poucas noites fora do relento. Um palheiro era quase tão quente quanto um quarto com lareira, pelo menos se comparado ao chão sob os arbustos, e um palheiro, mesmo sem cobertura de lona, conseguia evitar que a chuva, exceto as mais fortes, entrasse, se você se enterrasse fundo o suficiente nele. Às vezes Mat tentava roubar ovos, e uma vez tentou ordenhar uma vaca que estava sozinha, amarrada numa corda longa para pastar num campo. Mas a maioria das fazendas possuía cães, e cães de fazenda eram bem vigilantes. Uma corrida de duas milhas com cães latindo em seus calcanhares era um preço alto demais a se pagar por dois ou três ovos na opinião de Rand, especialmente quando os cães às vezes levavam horas para ir embora e deixá-los descer da árvore onde eles se haviam refugiado. As horas eram o que ele lamentava.
Mesmo não gostando de fazer isso, Rand preferia se aproximar de uma casa de fazenda abertamente, à luz do dia. De vez em quando soltavam os cachorros em cima deles mesmo assim, sem dizer uma só palavra, pois os rumores e os tempos deixavam todos que viviam longe de outras pessoas nervosos com estranhos, mas muitas vezes uma hora ou mais cortando lenha ou carregando água lhes garantia uma refeição e cama, mesmo que a cama fosse um monte de palha no celeiro. Mas uma ou duas horas fazendo tarefas caseiras eram uma ou duas horas de luz do dia em que estavam parados, uma ou duas horas para os Myrddraal os alcançarem. Às vezes ele se perguntava quantas milhas um Desvanecido conseguia cobrir em uma hora. Ele lamentava cada minuto daquilo, embora confessasse que nem tanto quando estava engolindo a sopa quente feita por uma dona de casa. E, quando não tinham comida, saber que haviam passado cada minuto possível avançando na direção de Caemlyn não fazia muito para acalmar um estômago vazio. Rand não conseguia decidir se era pior perder tempo ou passar fome, mas Mat ia além de se preocupar com a barriga ou a perseguição.
— O que sabemos a respeito deles, afinal? — Mat exigiu saber uma tarde, enquanto estavam limpando os estábulos de um pequeno sítio.
— Luz, Mat, o que eles sabem a nosso respeito? — Rand espirrou. Estavam trabalhando despidos da cintura para cima, ambos generosamente cobertos de suor e palha, e partículas de poeira da palha pendiam suspensas no ar. — O que eu sei é que eles vão nos dar um pouco de cordeiro assado e uma cama de verdade para dormir.
Mat enfiou o forcado na palha e no estrume e olhou de lado para o fazendeiro, que vinha dos fundos do celeiro com um balde numa das mãos e a banqueta de ordenha na outra. Um velho curvado com a pele feito couro e cabelos grisalhos e ralos, o fazendeiro reduziu o passo quando viu Mat olhando para ele, depois desviou o olhar rapidamente e saiu apressado do celeiro, derramando leite sobre a borda do balde na pressa.
— Ele está aprontando alguma, isso eu posso lhe garantir — disse Mat. — Viu como ele nem me encara? Por que são tão amistosos com dois viajantes que nunca viram antes? Explique isso.
— A esposa dele me disse que nós a fazemos lembrar dos netos. Quer parar de se preocupar com eles? A coisa com que temos de nos preocupar está atrás de nós. Assim espero.
— Ele está aprontando alguma — resmungou Mat.
Quando terminaram, lavaram-se na calha de água na frente do celeiro, suas sombras compridas com o sol que se punha. Rand se enxugou com a camisa enquanto caminhavam até a casa da fazenda. O fazendeiro os encontrou na porta; estava apoiado num cajado de maneira casual demais. Atrás dele, a esposa segurava o avental e olhava por cima do ombro dele, mordendo o lábio. Rand suspirou; não achava mais que ele e Mat os lembrassem dos netos.
— Nossos filhos estão vindo nos visitar hoje à noite — disse o velho. — Todos os quatro. Eu esqueci. Os quatro estão vindo. Rapazes grandes. Fortes. Já devem estar chegando. Receio que não vamos ter a cama que prometemos a vocês.